A defesa voltou ao centro da agenda europeia e deixou de ser apenas uma matéria de soberania e segurança. É hoje também uma frente de inovação, desenvolvimento industrial e competitividade económica. Para Portugal, este novo ciclo representa uma oportunidade para aproximar empresas, Forças Armadas, universidades, centros tecnológicos e investidores. Na talk “Defesa como frente de inovação”, integrada no Prémio Nacional de Inovação, a ideia central foi clara. Portugal está a fazer o seu caminho, os resultados começam a aparecer, mas o percurso para quem quer entrar neste mercado continua a ser moroso e burocrático. “Existe, naturalmente, um fator económico que temos de ter em atenção. É necessário criar cadeias de valor competitivas, que consigam posicionar-se tanto no mercado nacional como no mercado internacional”, afirmou Paulo Reis, diretor-geral do FI Group. Para o responsável, a defesa deve ser vista como “um eixo de crescimento, onde a inovação e a disrupção têm de estar no centro da atividade empresarial”.
José Neves, presidente do Cluster AED - que representa as indústrias de Aeronáutica, Espaço e Defesa-, sublinhou que a oportunidade decorre também da mudança geopolítica. “A Europa percebeu que, depois de três décadas, tem de deixar de subcontratar a sua defesa e tem de ser capaz de a garantir por si própria”, afirmou. Para Portugal, defendeu, “esta é uma oportunidade única”. O Cluster AED reúne hoje mais de 190 entidades, representa 2,1 mil milhões de euros de faturação em 2024 e mais de 20 mil postos de trabalho. A vocação internacional é uma das marcas mais fortes do ecossistema. “Em 2024, 92% da faturação correspondeu a exportações”, referiu José Neves. Essa capacidade mostra que há empresas portuguesas competitivas no exterior, mas também evidencia a necessidade de reforçar o mercado interno e a articulação com o Estado. A tecnologia de duplo uso surge como uma das principais portas de entrada para startups e PME. Muitas competências já instaladas na economia portuguesa podem ter aplicação civil e militar. É o caso dos têxteis técnicos, dos moldes, da metalomecânica, dos plásticos, da robótica, das comunicações, da inteligência artificial, dos sensores, do espaço e dos sistemas de vigilância.
Ajudar empresas industriais e tecnológicas a entrar na área da defesa
Vítor Ferreira, diretor-geral da Startup Leiria, destacou que várias regiões industriais portuguesas estão a fazer essa transição. “Portugal tem competências em metalomecânica, tratamento de metal, plásticos, caixas para munições, engenharia avançada, desenvolvimento rápido de produto e robótica”, afirmou. “Todas estas competências podem ter aplicações de duplo uso. Podem servir a indústria tradicional, mas também a defesa.” O programa Defense Accelerator, lançado pela Startup Leiria, mostrou que existe interesse empresarial. A primeira edição recebeu mais de 70 candidaturas de Portugal, Polónia, Reino Unido e Espanha. Foram selecionadas cerca de 30 empresas, entre PME e startups. “A adesão surpreendeu-nos. Foi um dos programas de aceleração da Startup Leiria com mais candidaturas”, disse Vítor Ferreira.
O objetivo do Defense Accelerator não é só apoiar a criação de novas empresas de defesa. É ajudar empresas industriais e tecnológicas a perceber se têm condições para entrar neste mercado. Isso implica compreender certificações, compliance, requisitos de segurança, exigências técnicas e processos comerciais muito diferentes dos mercados tradicionais. A entrada no setor da defesa está longe de ser simples. A defesa é um mercado altamente regulado, dependente de políticas públicas, autorizações do Estado, normas nacionais e europeias, enquadramentos NATO e requisitos ligados a informação classificada. Ter uma boa tecnologia não chega.
Multinacionais em Portugal podem ajudar o ecossistema
Vasco Mendes Almeida, country manager da Indra Group, foi claro sobre essa exigência. “Ter uma boa ideia, inovadora e diferenciadora, não chega. Se essa ideia não conseguir cumprir o processo regulamentar da defesa, não terá aplicação”, afirmou. Para o responsável, a integração de startups e PME depende tanto da tecnologia como da maturidade dos processos internos, das certificações e da capacidade de complementar projetos de maior escala. As multinacionais podem funcionar como porta de entrada. A Indra, a Thales e outros grandes grupos ajudam a trazer investimento, projetos e acesso a cadeias de valor internacionais. “Muitas empresas portuguesas, sozinhas, teriam mais dificuldade em aceder a determinados programas. Através das multinacionais, podem integrar projetos e cadeias de valor internacionais”, defendeu Vasco Mendes Almeida.
Na Thales Portugal, Sérgio Barbedo destacou a evolução do talento nacional ao longo das últimas décadas. “Portugal é claramente um país muito bem visto em termos de capacidade, futuro e inovação”, afirmou. Para o responsável, a imagem do país foi construída ao longo do tempo, com mais formação em engenharia, maior reconhecimento internacional e capacidade para assumir projetos críticos.
A experiência da Agência Espacial Europeia foi apontada como uma etapa decisiva para a maturação de várias empresas portuguesas. A exposição a standards internacionais, missões reais e clientes exigentes permitiu criar competências hoje valorizadas no ecossistema aeroespacial, de defesa e segurança. “A ESA obrigou as empresas portuguesas a trabalhar desde cedo com standards internacionais e com interlocutores muito exigentes”, recordou Sérgio Barbedo.
A inovação que já está a ser feita em Portugal
A oportunidade para Portugal não está apenas na entrada futura de novas empresas no setor. Há já projetos, centros de competência e programas de inovação a serem desenvolvidos no país, em áreas que vão do espaço à vigilância costeira, dos sistemas de comando e controlo à gestão portuária, passando pelos drones, pelos sensores e pelos materiais avançados.
Sérgio Barbedo destacou a relevância da operação nacional em sistemas de controlo de tráfego aéreo. A empresa tem em Portugal uma equipa que caminha para mais de 100 pessoas nesta área e trabalha, a partir de Lisboa, para mais de 70 países. Um dos produtos desenvolvidos no país é um sistema de gestão de movimentos de aeronaves em pista, que acompanha a operação desde a aterragem até à nova descolagem.
A inovação, neste caso, tem impacto operacional e económico. Permite otimizar o uso de combustível, melhorar a eficiência aeroportuária e aumentar a capacidade de infraestruturas cada vez mais pressionadas pelo crescimento do tráfego aéreo. “A inovação aqui passa, por exemplo, pela otimização do combustível utilizado e pela melhoria da operação aeroportuária”, explicou Sérgio Barbedo.
A inteligência artificial começa também a entrar nestes sistemas, mas com exigências muito diferentes das aplicações generalistas. “Estamos a falar de sistemas críticos, nos quais a inteligência artificial tem de ser altamente validada, verificada e rastreável”, sublinhou o responsável da Thales. A empresa desenvolve ainda em Portugal sistemas de comando e controlo para a área naval, incluindo sistemas de combate, trabalhando com várias marinhas internacionais.
Indústria, inovação e Forças Armadas
A ligação entre indústria, inovação e Forças Armadas é outro ponto forte. Sérgio Barbedo destacou o RepMus, exercício coordenado pela Marinha Portuguesa, que traz a Portugal algumas das principais marinhas mundiais e permite testar protótipos e novas soluções em contacto direto com utilizadores militares. Este tipo de ambiente é particularmente relevante num setor em que a validação operacional é tão importante como a tecnologia.
Na Indra, a inovação desenvolvida em Portugal passa por três áreas principais. A primeira é o espaço. Vasco Mendes Almeida lembrou que o grupo venceu o Prémio Nacional de Inovação 2025 com um projeto liderado a partir de Portugal, ligado a sistemas de comando de missões, comunicações seguras, satélites e espaço. Este percurso foi reforçado com a integração da Deimos, empresa portuguesa incorporada no Grupo Indra no final de 2024, apontada como exemplo de uma competência nacional que ganhou reconhecimento internacional.
A segunda área é a vigilância costeira, em que Portugal tem uma vantagem natural pela dimensão da sua costa e da sua zona económica exclusiva. A partir do país, a Indra desenvolve conhecimento em sistemas centrais, integração de inteligência artificial e uso de drones como canais complementares de vigilância. “Portugal acrescenta valor porque conhece muito bem estes setores. Não é apenas uma questão de dominar uma tecnologia que mais nenhuma filial domina. É uma questão de conhecimento do negócio e capacidade de acrescentar valor ao cliente”, afirmou Vasco Mendes Almeida.
A terceira área é a gestão portuária. Portugal é o centro de competência da Indra para os projetos de gestão portuária desenvolvidos pelo grupo a nível global. Sempre que surgem projetos nesta área, é a equipa portuguesa que assume a análise, a proposta e o desenvolvimento. Para Vasco Mendes Almeida, esta concentração de competências mostra que o país pode ter um papel mais relevante quando junta conhecimento setorial, talento tecnológico e capacidade de execução.
Também no Cluster AED há sinais de mudança. José Neves sublinhou que Portugal já não está apenas na cadeia de fornecimento. Há empresas nacionais que começam a assumir posições de integrador final ou de OEM, o que significa que parte da decisão tecnológica e estratégica passa a ser feita em Portugal. “A grande diferença entre Portugal hoje e Portugal há 10 anos é que já temos empresas que não estão apenas na cadeia de fornecimento”, afirmou.
Entre as áreas com maior potencial, o presidente do Cluster AED apontou os drones, o espaço, os micro e nanossatélites, os novos materiais e a manutenção, reparação e operação de aeronaves, conhecida como MRO. Esta última é uma área menos visível, mas onde Portugal tem uma posição competitiva na Europa e uma base de emprego relevante.
José Neves destacou ainda o conceito de New Defense, associado a soluções mais ágeis, adaptáveis e próximas do terreno, uma realidade acelerada pela guerra na Ucrânia. “Quem está na operação não pode esperar uma semana para que um drone seja modificado. A alteração tem de ser feita no próprio dia ou na própria noite”, afirmou. Esta nova lógica pode favorecer empresas mais pequenas, capazes de responder rapidamente, com cadeias de decisão curtas e forte capacidade de adaptação.
No conjunto, os exemplos da Thales, da Indra e das empresas do Cluster AED mostram que a inovação em defesa está a acontecer em produtos, centros de competência, exercícios operacionais, programas europeus e cadeias de valor internacionais. O desafio é transformar estes casos em escala, criar mais ligações entre grandes empresas, PME e startups, e garantir que o país não fica só como um fornecedor especializado, mas também como espaço de decisão, desenvolvimento e integração tecnológica. Financiamento e programas
Financiamento e programas
O financiamento é outra peça crítica. Paulo Reis chamou a atenção para o desconhecimento que ainda existe entre muitas empresas sobre os programas e incentivos disponíveis. “O principal estrangulamento é o desconhecimento dos programas e das linhas de financiamento existentes”, afirmou. O segundo entrave, acrescentou, é “a falta de integração em ecossistemas fortes”. Ao nível nacional, existem instrumentos como o Portugal 2030 e incentivos fiscais como o SIFIDE, que apoia investimento em investigação e desenvolvimento através da dedução à coleta de IRC. Ao nível europeu, há programas como o European Defence Fund e o EDIP, mais orientado para a produtização na defesa. Paulo Reis referiu ainda a expectativa em torno do STEP para a defesa e defendeu políticas públicas com continuidade.
“Quando existem políticas públicas e um desígnio nacional, não se trata de dizer às empresas o que têm de fazer. Trata-se de sinalizar que há financiamento disponível para setores estratégicos, para criar cadeias de valor e ecossistemas fortes e competitivos”, afirmou. As zonas livres tecnológicas também foram apontadas como instrumentos relevantes para testar soluções em ambiente controlado. A Zona Livre Tecnológica da Marinha foi destacada como um ativo importante, sobretudo em áreas ligadas ao mar, sistemas autónomos e tecnologias emergentes. Mas Paulo Reis avisou que a burocracia continua a travar a criação de novos espaços de teste. “Estamos há quatro anos à espera de uma decisão”, disse, a propósito de um pedido para criar uma nova zona livre tecnológica.
A morosidade dos processos é um dos pontos mais sensíveis. Certificações, autorizações de exportação, validações técnicas e contratação pública podem demorar meses e afetar a competitividade das empresas portuguesas. José Neves reconheceu progressos, mas admitiu que a exportação continua a ser uma área crítica. “Recebo muitas queixas de empresas que demoram meses a conseguir exportar um produto”, afirmou.
Apesar das barreiras, as oportunidades são significativas. Drones aéreos e aquáticos, robótica, comunicações seguras, criptografia, espaço, micro e nanossatélites, materiais, vigilância costeira, gestão portuária, manutenção aeronáutica e integração inteligente de sistemas foram algumas das áreas apontadas como prioritárias. Portugal tem fatores diferenciadores. Tem uma extensa zona económica exclusiva, competências industriais dispersas pelo território, talento em engenharia, empresas habituadas a competir fora e multinacionais que começam a concentrar no país centros de competência. “A defesa deixou de ser apenas a dimensão física. Hoje inclui software, sistemas de comando e controlo, inteligência artificial e espaço”, afirmou Vasco Mendes Almeida.
O desafio passa por transformar estes ativos numa estratégia mais articulada. A defesa exige escala, financiamento, confiança, certificação, acesso a mercado e visão de longo prazo. Para José Neves, “uma startup ou uma PME portuguesa dificilmente consegue responder sozinha a grandes projetos”, mas em consórcio pode ganhar dimensão e capacidade competitiva. A nova frente da defesa não será construída apenas com grandes plataformas ou grandes empresas. Também dependerá de PME industriais, startups tecnológicas, centros de investigação e consórcios capazes de juntar competências complementares. Portugal já começou esse caminho. A questão é saber se conseguirá acelerar, reduzir burocracia e criar escala antes que a janela europeia se feche.