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Empresas levam inovação para o terreno

A forma como se trabalha e tomam decisões está a mudar em setores tão distintos como a aviação, a educação e a tecnologia de trabalho. Na última talk da quarta edição do Prémio Nacional de Inovação, três empresas mostram que a inovação ganha escala quando resolve problemas, simplifica processos e mantém as pessoas no centro das decisões.

Pedro Coelho, Ismael Pacheco, e Nuno Gomes, na última talk do Prémio Nacional de Inovação  de 2026 dedicada ao tema “Experiência digital, inovação  e inteligência artificial”.
Pedro Coelho, Ismael Pacheco, e Nuno Gomes, na última talk do Prémio Nacional de Inovação de 2026 dedicada ao tema “Experiência digital, inovação e inteligência artificial”. Duarte Roriz
20 de Outubro de 2026 às 14:00
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A tecnologia só se transforma em inovação quando produz resultados na vida das pessoas e nas organizações. Pode ser na capacidade de antecipar um atraso na operação de um aeroporto, na redução do tempo que um educador dedica a tarefas burocráticas ou na possibilidade de executar ferramentas de inteligência artificial diretamente num computador, com maior rapidez e segurança.

Foi esta a ideia que atravessou a talk “Experiência digital, inovação e inteligência artificial”, a última desta edição do Prémio Nacional de Inovação de 2026. Pedro Coelho, diretor-geral da HP Portugal, Ismael Pacheco, cofundador da Out of Limits, e Nuno Gomes, cofundador e CEO da Growappy, discutiram a forma como a tecnologia está a transformar processos de trabalho, sem perder de vista a necessidade de gerar impacto mensurável e de preparar as equipas para a mudança.

Uma boa solução tecnológica tem de trazer um impacto positivo: ou simplifica significativamente a vida das pessoas ou amplifica a eficiência das organizações. Pedro Coelho, Diretor-geral da HP Portugal

“A boa solução tecnológica tem de trazer um impacto positivo: ou simplifica significativamente a vida das pessoas ou amplifica a eficiência das organizações”, defendeu Pedro Coelho. Para o responsável da HP Portugal, a experiência digital deixou de ser uma questão limitada aos equipamentos ou ao software utilizado no trabalho. Passou a influenciar a produtividade, a motivação dos colaboradores e até a capacidade das empresas para reter talento.

Esta experiência resulta da interação das pessoas com todo o ecossistema digital das organizações. Nesse contexto, a inteligência artificial pode libertar os profissionais de tarefas de menor valor e permitir-lhes dedicar mais tempo a atividades em que a intervenção humana é decisiva. Mas a adoção da tecnologia não pode ser feita apenas porque a solução existe. Deve partir de um problema concreto, de uma necessidade identificada e de indicadores que permitam medir os resultados.

É também nesta lógica que a HP tem vindo a apostar na chamada Edge AI, ou inteligência artificial executada no próprio posto de trabalho. A evolução dos computadores pessoais, com componentes de processamento dedicados a tarefas de inteligência artificial, permite que determinados modelos corram localmente, sem depender exclusivamente da cloud. Esta realidade pode, no entender de Segundo Pedro Coelho, “trazer uma experiência mais privada, segura e personalizada, reduzindo a necessidade de transmitir dados para centros de dados externos e permitindo respostas em tempo real”. Nos equipamentos preparados para estas novas exigências, “os ganhos de desempenho podem situar-se entre 30% e 40%”, afirmou. Em áreas como a engenharia, a saúde ou os serviços financeiros, esta capacidade pode encurtar processos que antes demoravam dias para apenas algumas horas.

Mas o investimento só faz sentido se estiver associado a uma análise clara de custo-benefício e a um objetivo operacional. “O ponto de partida não deve ser a tecnologia em si. Deve ser o problema que queremos resolver e o impacto que pretendemos alcançar”, sublinhou o diretor-geral da HP Portugal. A tecnologia é uma ferramenta; a transformação acontece na forma como é integrada nos processos e na organização do trabalho.

A segurança é outra das condições para que esta adoção seja sustentável. Pedro Coelho alertou para os riscos de uma utilização informal de ferramentas de inteligência artificial, sem conhecimento das empresas, um fenómeno conhecido como “shadow IT”. O desafio passa por integrar estas soluções nos fluxos de trabalho, definir políticas de utilização, gerir perfis de acesso e formar as pessoas para os riscos associados à exposição de informação confidencial.

Um estudo da HP, o Work Relationship Index, citado por Pedro Coelho, mostra que quatro em cada dez profissionais já utilizavam ferramentas de inteligência artificial, mas apenas dois em cada dez se sentiam confortáveis, proficientes e autónomos na sua utilização. A conclusão é que a transformação não se esgota na compra de tecnologia. Exige formação contínua e capacidade para acompanhar um ritmo de evolução cada vez mais rápido.

Da pista do aeroporto à sala de aula

Na aviação, a inteligência artificial está a ser utilizada para tornar mais previsível uma das operações mais exigentes de um aeroporto: o período entre a chegada e a partida de uma aeronave. É nesse espaço de tempo, conhecido como turnaround, que se concentram atividades como a limpeza, o abastecimento, o carregamento e descarregamento de bagagem, o catering e o embarque de passageiros.

O mais difícil na passagem da tecnologia para a operação é o paradigma da mudança. É preciso formar as pessoas e dar-lhes confiança para perceberem as vantagens da solução. Ismael Pacheco, Cofundador da Out of Limits

A Out of Limits, empresa vencedora da categoria de Automação e Transformação do Posto de Trabalho do Prémio Nacional de Inovação com o projeto NeuroStand, desenvolveu uma plataforma que acompanha esta operação através de visão computacional e machine learning. O objetivo é reunir numa mesma plataforma a informação de todos os intervenientes e antecipar problemas que possam provocar atrasos ou riscos de segurança. “É quase como um pit stop de Fórmula 1”, explicou Ismael Pacheco. A diferença é que, enquanto uma paragem em pista se mede em segundos, a rotação de uma aeronave no aeroporto tem de ser concluída, em muitos casos, entre 25 e 45 minutos. Nesse período, trabalham em simultâneo várias equipas e empresas, num espaço limitado e com exigências de coordenação muito elevadas.

Antes da implementação do NeuroStand, cada entidade tendia a operar com informação própria, comunicando por rádio ou por sinais no terreno. A solução da procura criar uma linguagem comum, permitindo que todos acompanhem em tempo real os momentos críticos da operação. Na ANA - Aeroportos de Portugal, a plataforma está integrada na APOC, a sala de controlo das operações aeroportuárias, e ajudou a impulsionar uma nova abordagem de trabalho designada Operation 360.

Um dos exemplos dados por Ismael Pacheco está na verificação das zonas de segurança antes da chegada do avião ao stand. Se existirem equipamentos que impeçam o estacionamento da aeronave, o sistema pode identificar a situação e emitir alertas para a operação. A antecipação de problemas permite reduzir tempos de espera e melhorar a gestão dos stands, mesmo quando não é possível quantificar de imediato o ganho em minutos ou percentagem de eficiência.

A plataforma trabalha sobre imagens de vídeo e utiliza uma rede neuronal treinada para identificar eventos específicos, como o início do embarque, o abastecimento de combustível ou a colocação dos calços nas rodas do avião. Antes de entrar em produção, o sistema é validado pela empresa e pelo cliente, com análises por amostragem confirmadas por operadores humanos. A Out of Limits indica um nível de fiabilidade de deteção de 98%.

Ainda assim, a tecnologia não substitui o julgamento das equipas nem elimina todas as limitações. “Não vamos conseguir ver aquilo que o olho humano não vir”, reconheceu Ismael Pacheco. Há pontos cegos e a qualidade da imagem, a posição das câmaras e as características de cada aeroporto influenciam a capacidade de deteção. A empresa está a implementar a solução em Budapeste e León, onde tem sido necessário adaptar a orientação e o foco das câmaras à infraestrutura disponível.

A dificuldade maior, acrescentou o cofundador da Out of Limits, não é apenas tecnológica. É a mudança de hábitos. A passagem de uma operação assente em CCTV para uma plataforma de inteligência artificial exige confiança nos alertas e formação das equipas. A prova de conceito do NeuroStand demorou cerca de seis meses, depois de um ano e meio de preparação. A entrada em produção foi faseada, com pessoas-chave no aeroporto, recolha de feedback e vários workshops.

Uma plataforma que nasceu da experiência pessoal

A Growappy mostra como a mesma lógica de simplificação pode ser aplicada à educação. A empresa venceu a categoria de Inteligência Artificial e Machine Learning do Prémio Nacional de Inovação com o projeto GrowMe. A plataforma nasceu de uma experiência pessoal de Nuno Gomes, quando percebeu que a comunicação entre a escola do filho e a família se fazia através de canais dispersos, como e-mail, WhatsApp e grupos de Facebook.

A solução começou por responder às necessidades de creches e jardins de infância, mas foi crescendo para abranger todo o percurso escolar até ao 12.º ano. Hoje, a Growappy combina comunicação com as famílias, faturação, matrículas, documentação pedagógica e outros processos exigidos às instituições de ensino. Embora a escola seja o cliente, a plataforma é utilizada diariamente por perto de 200 mil famílias e por cerca de 10 a 15 mil profissionais de educação.

Para Nuno Gomes, a inovação não esteve apenas em digitalizar processos já existentes. A preocupação foi redesenhá-los a partir da realidade de quem trabalha nas escolas. Antes de desenvolver a plataforma, a equipa ouviu educadores, professores, diretores e pessoal administrativo, testou protótipos nas instituições e acompanhou a forma como os utilizadores interagiam com a solução.

A inteligência artificial permite hoje que um educador faça anotações por voz sobre o desenvolvimento de uma criança. Essa informação fica associada ao referencial pedagógico da instituição, é organizada e pode servir de base para relatórios, planos individuais ou sugestões de atividades. A empresa realizou estudos com grupos de controlo e concluiu que, quando estas atividades são personalizadas com base nos registos de observação, os alunos podem adquirir determinadas competências 30% mais rapidamente.

A automatização não pretende tornar a relação entre escolas e famílias mais impessoal. Pelo contrário, argumenta Nuno Gomes, pode devolver tempo aos profissionais. Um educador ou diretor pode chegar ao final do dia com dezenas de comunicações para enviar, algumas destinadas a uma turma inteira e outras individualizadas. Ao agilizar estas tarefas, a plataforma permite que esse tempo seja usado para uma conversa presencial com uma família ou para um acompanhamento mais atento de cada aluno.

A inteligência artificial ajuda a libertar tempo, mas a informação gerada tem sempre de ser supervisionada por quem conhece cada criança e cada contexto. Nuno Gomes, Cofundador e CEO da Growappy

A proteção de dados é uma exigência central num serviço que trabalha com informação sobre crianças e famílias. A Growappy tem os dados alojados na Europa, assegura conformidade com o RGPD e está a adaptar os seus processos às normas do AI Act. A informação é encriptada e a empresa garante que os conteúdos produzidos por inteligência artificial se baseiam nos dados previamente introduzidos pelos profissionais.

A supervisão humana mantém-se obrigatória. A inteligência artificial pode ajudar a estruturar informação, gerar documentação pedagógica ou sugerir atividades, mas é o educador que conhece a criança, avalia o contexto e decide o que deve ser partilhado. “É aí que termina a intervenção da inteligência artificial”, resumiu Nuno Gomes.

A empresa está agora a introduzir agentes de inteligência artificial que permitem reduzir o número de ecrãs e comandos necessários para executar uma tarefa. Em vez de navegar por diferentes menus, um profissional pode pedir à plataforma, por voz ou por escrito, para consultar o perfil de um aluno ou criar uma atividade na agenda. Para a Growappy, esta simplificação é também uma forma de escalar o serviço sem perder proximidade com as escolas, através de sessões de capacitação e onboarding.

As três experiências apresentadas na última talk do Prémio Nacional de Inovação partem de setores muito diferentes, mas convergem numa ideia, a de que a inteligência artificial só gera valor quando melhora uma decisão, reduz uma falha, simplifica uma tarefa ou liberta tempo para as pessoas. O desafio das empresas não é adotar tecnologia. É saber onde pode fazer a diferença. Por isso, importa saber medir esse impacto e preparar as equipas para uma transformação que, como se constatou com estes três exemplos, já está em curso em muitas empresas e setores de atividade.

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