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Negócios: Cotações, Mercados, Economia, Empresas

“Escolas como infraestruturas de inovação”

A investigação académica tem impacto quando sai do papel e entra na prática. Para Pedro Oliveira, dean da Nova SBE, a inovação só ganha escala quando o conhecimento é testado, aplicado e transformado em valor económico real.

20 de Janeiro de 2026 às 14:00
Pedro Oliveira defende que as escolas de gestão devem funcionar como infraestruturas de inovação, ligando conhecimento, mercado e execução.
Pedro Oliveira defende que as escolas de gestão devem funcionar como infraestruturas de inovação, ligando conhecimento, mercado e execução. Miguel Baltazar
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“As escolas de economia e gestão deixaram de ser apenas formadoras de gestores e assumem um papel cada vez mais relevante como ‘infraestruturas’ de inovação, passando a combinar formação, conhecimento aplicável e ligação ao mercado”, disse ao Negócios Pedro Oliveira, dean da Nova SBE. A escola ganha relevância, nas palavras do responsável, quando atua como ponte e motor de execução, não só produzindo investigação, mas criando ambientes e ligações que aceleram inovação e criação de novas empresas.

A integração da inovação na escola faz-se, segundo o dean, através de diferentes formatos, desde uma pedagogia mais prática, com “reforço do project-based learning”, até à aposta em tecnologia/IA na experiência educativa e eficiência operacional. A esse trabalho soma-se, “a criação e fortalecimento de institutos e knowledge centers que ligam investigação, ensino e prática (com impacto)”.

No desenho institucional, a Nova SBE posiciona-se para ser um hub global de inovação, o que implica investimento continuado em “atração e retenção de talento académico de topo, infraestruturas digitais e pedagógicas e estruturas que ligam ensino, investigação e empresas”.

As ligações ao tecido empresarial são, na leitura do responsável, críticas por reduzirem o “time-to-impact” do conhecimento académico, ao permitir “identificar problemas reais, testar protótipos em contextos operacionais e acelerar adoção”. E são também uma forma de desbloquear “dados, infraestrutura e financiamento”, tornando mais provável que o conhecimento se transforme em soluções aplicadas.

Sair do papel e entrar na prática

A investigação académica só produz impacto quando “sai do papel e entra na prática, seja através de projetos aplicados com empresas, criação de novos produtos, spin-offs e startups ou influência em políticas públicas”. Essa passagem do conhecimento para a economia é facilitada, na leitura de Pedro Oliveira, quando os sistemas de avaliação alinham incentivos com impacto, incorporando critérios de impacto socioeconómico de forma explícita.

Sobre a evolução recente do ecossistema nacional de inovação, Pedro Oliveira, munindo-se dos dados do European Innovation Scoreboard, descreve uma década em que “Portugal reforçou as bases da inovação com aposta em talento, digitalização e colaboração ciência-empresa, atingindo 90,7% da média da UE e mantendo-se como Moderate Innovator”. O problema, na sua perspetiva, é que esse esforço “ainda não se traduz plenamente em escala económica”, com fragilidades persistentes em “capital de risco, produtividade e criação de ativos tecnológicos”.

O desafio central já não é criar inovação, mas transformá-la em empresas maiores, mais tecnológicas e com impacto económico sustentado.
Pedro Oliveira, dean da Nova SBE

O mesmo diagnóstico surge quando olha para as startups. “Existe hoje mais massa crítica e dinamismo, mas permanece um gap estrutural de scale-up, visível na volatilidade do financiamento e na saída de muitas startups para mercados internacionais”. Por isso, no seu entender, “o desafio central já não é criar inovação, mas transformá-la em empresas maiores, mais tecnológicas e com impacto económico sustentado”.

PNI como reconhecimento público

Na formação de líderes, Pedro Oliveira aponta como competência decisiva o pensamento analítico, citado pelo World Economic Forum como central para cerca de 70% dos empregadores. A esse núcleo juntam-se, na sua análise, “resiliência, flexibilidade e agilidade”, além de “liderança e influência social”, num cenário de mudança acelerada. E completa-se, como sublinha, com “literacia tecnológica, incluindo dados e inteligência artificial”, para a tomada de decisões informadas num ambiente cada vez mais digital.

A ligação da Nova SBE ao Prémio Nacional de Inovação significa, segundo Pedro Oliveira, estar presente num dos principais momentos públicos de reconhecimento da inovação em Portugal, contribuindo como “knowledge partner” e júri, ajudando a identificar, avaliar e destacar projetos e talentos inovadores”. O que está em causa, acrescenta, é reforçar “uma cultura de inovação concreta, sem que isso se torne um mero exercício simbólico”.

Como parceiro académico, a escola privilegia projetos com “um problema real e mensurável, possibilidade de testar soluções em contexto real e aprendizagem reutilizável, para além do caso específico”. Esse enfoque materializa-se no Instituto de Empreendedorismo Haddad em programas de aceleração e inovação aberta, onde “startups e organizações trabalham juntas em pilotos reais”, com “dados, prazos e métricas claras”, para resolver problemas concretos e produzir conhecimento aplicável.

As barreiras da transferência do conhecimento

Para Pedro Oliveira, as barreiras na transferência de conhecimento para o mercado são menos tecnológicas e mais estruturais e culturais, desde logo por “incentivos desalinhados”, com a academia ainda muito ligada à “publicação científica e as empresas com horizontes curtos e foco em retorno imediato”. Soma-se, como aponta, a dificuldade em transformar “investigação, dados e protótipos em soluções que as empresas consigam “testar, adotar e escalar”, já que nem sempre a colaboração se converte em patentes, novos produtos ou empresas”.

A mensagem final que Pedro Oliveira deixa é que “a inovação só se afirma como motor de crescimento quando a ideia é testada, afinada e transformada em algo concreto, com foco em problemas reais, execução consistente e impacto mensurável”. E num ecossistema hoje mais maduro, com mais “startups, talento e ligações internacionais”, a diferença continua a estar “na execução”, “na qualidade das equipas” e na capacidade de “colaborar de forma real, com dados, pilotos e compromisso”.

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