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Inovação procura escala para criar os novos motores de crescimento

O debate “Inovação e crescimento económico, onde estão os novos setores estratégicos?” mostrou que o país não parte do zero. Há cadeias de valor instaladas, empresas competitivas e exemplos de inovação exportável. Falta agora transformar esse potencial em escala e crescimento económico sustentado.

17:00
No debate sobre os novos setores estratégicos para o crescimento económico, Ana Almeida Simões, Ana Casaca, Sérgio Silvestre, Sílvia Garcia e Rui Coutinho abordaram a forma como Portugal pode transformar inovação, cadeias de valor e conhecimento em escala e competitividade internacional.
No debate sobre os novos setores estratégicos para o crescimento económico, Ana Almeida Simões, Ana Casaca, Sérgio Silvestre, Sílvia Garcia e Rui Coutinho abordaram a forma como Portugal pode transformar inovação, cadeias de valor e conhecimento em escala e competitividade internacional. José Gageiro
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No debate sobre os novos setores estratégicos para o crescimento económico, Ana Almeida Simões, Ana Casaca, Sérgio Silvestre, Sílvia Garcia e Rui Coutinho abordaram a forma como Portugal pode transformar inovação, cadeias de valor e conhecimento em escala e competitividade internacional.

Se a inovação é frequentemente apresentada como o motor do crescimento económico, a questão central passa por perceber onde estão os novos setores estratégicos capazes de impulsionar a economia portuguesa. A resposta não é simples e, num debate dedicado a este tema, inserido na conferência de lançamento da quarta edição do Prémio Nacional de Inovação, ficou claro que o país está a criar novas áreas de atividade e a transformar setores já consolidados através da tecnologia e da inovação. A administradora da Via Verde, Ana Almeida Simões, considera que Portugal está a seguir as duas estratégias em paralelo, uma abordagem que acredita ser positiva, mas que também traz riscos de dispersão. “Estamos a fazer um bocadinho das duas coisas”, afirmou. Por um lado, o país possui setores onde já demonstrou capacidades reconhecidas internacionalmente. Por outro, existe a necessidade de desenvolver novas competências em áreas emergentes. O desafio, defende, é encontrar o equilíbrio entre essas duas frentes. “Fazer tudo ao mesmo tempo normalmente não resulta muito bem”, alertou.

Temos clusters muito competitivos e colaborativos onde a tecnologia pode reforçar vantagens que Portugal já tem. Ana Casaca, Diretora de Inovação da Galp

Ana Casaca, diretora de Inovação da Galp, partilha a ideia de que o ponto de partida deve estar nos setores onde Portugal já tem vantagens competitivas. Para a responsável, a introdução de novas tecnologias, em particular da inteligência artificial, abre uma oportunidade para reforçar a competitividade desses setores. “Temos clusters que são supercompetitivos e colaborativos”, afirmou, sublinhando que muitas dessas áreas já possuem presença ao longo de toda a cadeia de valor.

A diretora de Inovação da Galp considera que a transição digital e a transição energética representam uma oportunidade estratégica não apenas para Portugal, mas também para a Europa. “Temos uma oportunidade única de olhar para a segurança tecnológica e para a segurança energética como motores de crescimento económico”, defendeu, associando esse processo à criação de emprego qualificado e ao reforço da competitividade internacional.

Da lógica de setores à lógica de cadeias de valor

Para Sérgio Silvestre, diretor de Inovação da Claranet Portugal, a discussão sobre novos setores estratégicos deve ser enquadrada de uma forma diferente. Em vez de pensar apenas em setores isolados, defende que o foco deve estar nas cadeias de valor e na forma como diferentes atividades económicas se interligam. Essa mudança de perspetiva ajuda a compreender melhor a transformação em curso na economia. “Temos de começar a olhar muito mais para cadeias de valor e muito menos para setores”, afirmou. A crescente interdependência entre diferentes áreas de atividade significa que a inovação acontece frequentemente na interseção entre vários domínios tecnológicos e industriais.

Temos de olhar menos para setores isolados e mais para cadeias de valor e para a forma como elas se cruzam. Sérgio Silvestre, Diretor de Inovação da Claranet Portugal

Sérgio Silvestre acredita que os exemplos apresentados ao longo da conferência mostram que Portugal está num momento particularmente interessante em termos de inovação. “Algo realmente está a acontecer”, sublinhando a importância de dar visibilidade a esses casos para reforçar o ecossistema nacional de inovação.

A transformação institucional do sistema de inovação português foi outro dos temas abordados no debate, com a criação da nova Agência para a Investigação e Inovação (AI²), que resulta da evolução da Agência Nacional de Inovação (ANI).

Para Sílvia Garcia, administradora da ANI, a nova estrutura pretende reforçar a ligação entre o conhecimento científico e o seu impacto económico e social. “O que esta nova agência pretende é trazer direcionalidade ao conhecimento gerado”, explicou.

A responsável fez questão de sublinhar que a investigação deve continuar a ser desenvolvida de forma livre. No entanto, considera fundamental criar mecanismos que permitam transformar esse conhecimento em valor para a economia e para a sociedade.

Ao alinhar a capacidade científica existente com o potencial económico do país conseguimos trazer valor para a sociedade. Sílvia Garcia, Administradora da Agência Nacional de Inovação

Nesse sentido, a nova agência pretende identificar domínios estratégicos onde seja possível combinar duas dimensões essenciais. A capacidade científica existente e o potencial económico do país. “Ao alinhar estas duas capacidades conseguimos trazer valor para a sociedade”, afirmou, numa abordagem, de resto, alinhada com a evolução das políticas europeias de inovação, que procuram reforçar a ligação entre investigação, investimento e mercado.

Construção, um setor mais tecnológico do que parece

Entre os exemplos apresentados no debate esteve também o setor da construção, frequentemente associado a uma atividade tradicional, mas que atravessa um processo de grande transformação tecnológica. Rui Coutinho, Chief Innovation Officer da Mext, Mota-Engil Next, considera que existe uma diferença clara entre a perceção pública do setor e a sua realidade atual. Embora seja frequentemente visto como um setor clássico, dedicado à construção de estradas, pontes ou edifícios, a realidade é mais complexa. “A atividade assenta numa cadeia de valor altamente interligada, onde a eficiência operacional assume um papel central”.

Nesse contexto, a inovação nos processos torna-se fundamental. Apesar de ser muitas vezes menos visível ou menos mediática, é essa inovação que permite melhorar a segurança nas obras, reduzir acidentes de trabalho e aumentar a eficiência operacional.

O setor da construção é hoje muito mais tecnológico do que a perceção pública normalmente reconhece. Rui Coutinho, Chief Innovation Officer da Mext, Mota-Engil Next

Ao mesmo tempo, a digitalização está a transformar profundamente o setor. Rui Coutinho sublinha que a distinção entre o mundo físico e o digital está cada vez mais esbatida. Infraestruturas e edifícios estão a tornar-se sistemas conectados, capazes de gerar e interpretar dados. “Estamos a sensorizar infraestruturas e edifícios”, explicou.

A própria Mota-Engil reflete essa transformação. Segundo o responsável, a empresa conta atualmente com mais de uma centena de profissionais dedicados ao desenvolvimento tecnológico. Essa capacidade permite não apenas melhorar os processos internos, mas também exportar tecnologia e conhecimento para os mercados internacionais onde o grupo opera. “Hoje somos capazes de exportar tecnologia e processos a partir dos nossos escritórios em Portugal”, afirmou.

Além disso, o setor da construção tem uma longa tradição de colaboração entre concorrentes, através de consórcios formados para responder a grandes projetos internacionais. Essa lógica de cooperação competitiva, hoje muitas vezes descrita como “coopetição”, faz parte da prática do setor há décadas.

Mobilidade inteligente como potencial setor exportador

A mobilidade inteligente é outra das áreas apontadas como potencial motor de crescimento económico. Para Ana Almeida Simões, Portugal reúne condições favoráveis para desenvolver soluções exportáveis neste domínio, destacando a qualidade das infraestruturas existentes e a presença de empresas tecnológicas capazes de desenvolver soluções avançadas de monitorização e gestão de mobilidade. Mas o fator mais relevante poderá ser o ecossistema de colaboração entre diferentes setores. A mobilidade envolve não apenas empresas tecnológicas, mas também operadores de infraestruturas, empresas de construção e serviços digitais. Segundo Ana Almeida Simões, “as relações de ecossistema e de coopetição são muito fortes” e constituem uma vantagem competitiva importante para as empresas portuguesas.

A mobilidade inteligente pode ser uma área com forte potencial exportador, mas exige visão internacional e capacidade de execução. Ana Almeida Simões, Administradora da Via Verde

Ainda assim, para que estas oportunidades se concretizem em crescimento económico, considera essencial que as empresas portuguesas olhem para mercados internacionais. A dimensão limitada do mercado interno torna inevitável essa estratégia. “Portugal é um mercado relativamente pequeno”, reconheceu. Por essa razão, as empresas que pretendem crescer terão necessariamente de procurar oportunidades além-fronteiras.

Transição energética como estratégia industrial

No caso da Galp, a transição energética surge como uma das principais oportunidades para transformar inovação em crescimento económico. No entanto, Ana Casaca sublinha que esse processo deve ser encarado como uma verdadeira estratégia industrial. “A transição energética é um caminho”, afirmou, um caminho que entende exigir investimentos consistentes e uma visão integrada de longo prazo.

Entre os exemplos referidos estão os investimentos realizados na refinaria de Sines, incluindo projetos ligados ao hidrogénio verde e à produção de biocombustíveis. A empresa tem também reforçado a sua posição na mobilidade elétrica.

Para a diretora de Inovação da Galp, a sustentabilidade deve ser entendida de forma abrangente, incluindo dimensões económicas, energéticas e operacionais. O objetivo passa por garantir simultaneamente competitividade, segurança energética e resiliência das cadeias de valor.

Ao mesmo tempo, a empresa tem vindo a apostar numa estratégia de inovação aberta, colaborando com startups e com diferentes parceiros do ecossistema tecnológico. Os próprios ativos da empresa estão a ser utilizados como ambientes de teste para novas soluções tecnológicas. Essas experiências incluem desde projetos de manutenção preditiva em parques solares até à utilização de novas soluções de mobilidade elétrica. Segundo Ana Casaca, essa abertura à experimentação tem permitido acelerar o desenvolvimento de soluções inovadoras.

A responsável sublinha também que Portugal já possui exemplos relevantes de empresas tecnológicas capazes de competir nos mercados internacionais. “Há muitas empresas portuguesas que já exportam tecnologia”, afirmou.

A capacidade de Portugal se afirmar como fornecedor global de serviços digitais de alto valor foi também um dos temas discutidos no painel. Para Sérgio Silvestre, diretor de Inovação da Claranet Portugal, o país já possui vários exemplos de liderança internacional em nichos específicos, demonstrando que é possível competir globalmente a partir de um mercado relativamente pequeno.

Na sua perspetiva, a questão central não está apenas na identificação de um setor específico onde Portugal possa destacar-se, mas na forma como diferentes áreas de atividade podem ser combinadas para gerar soluções de maior valor acrescentado. “Temos aqui vários exemplos de líderes na mobilidade, na energia, na construção e na tecnologia”, afirmou.

Para o responsável, o potencial surge precisamente da articulação entre essas áreas. A combinação das competências existentes nos setores da energia, telecomunicações e tecnologias de informação, associadas a áreas como cloud, inteligência artificial, desenvolvimento aplicacional e cibersegurança, pode abrir, na sua opinião, novas oportunidades de especialização.

Esse esforço, defende, deve ser orientado para responder às necessidades de diferentes setores económicos, desde a indústria ao turismo, passando pelas infraestruturas e construção. “Quando começamos a combinar tudo isto e a colocá-lo ao serviço dos diferentes setores, podemos realmente dar um salto para outro patamar”, afirmou.

Apesar desse potencial, Sérgio Silvestre considera que o principal desafio continua a ser a capacidade de colaboração entre os diferentes agentes do ecossistema. “O diagnóstico já está claro para todos”, afirmou, sublinhando que o problema não está na falta de conhecimento sobre o que fazer, mas na velocidade com que essa colaboração acontece.

O especialista defende ser necessário acelerar a articulação entre academia, empresas e instituições públicas, quebrando os chamados “silos” que continuam a limitar a circulação de conhecimento e a transformação desse conhecimento em soluções de mercado.

O papel da nova agência de inovação

A criação da nova Agência para a Investigação e Inovação (AI²) foi apontada como um instrumento importante para reforçar essa articulação entre ciência, empresas e sociedade.

Sílvia Garcia sublinhou que o Estado tem vindo a reforçar significativamente os instrumentos de financiamento à investigação e inovação. Entre os exemplos referidos estão os incentivos fiscais à investigação e desenvolvimento, como o SIFIDE, bem como os programas de financiamento direto associados ao Portugal 2030 e aos programas europeus.

Segundo a responsável, o investimento público na área da inovação tem vindo a crescer de forma consistente, pelo que “o Estado tem feito o seu papel em termos de investimento”.

No entanto, considera que o financiamento, por si só, não é suficiente para garantir impacto económico. Um dos desafios centrais passa pela capacitação das empresas e das organizações para inovar de forma mais eficaz. “Não basta investir, as pessoas têm de aprender a inovar”.

Para Sílvia Garcia, a inovação continua muitas vezes a ser associada apenas à investigação científica ou ao desenvolvimento de novos produtos. No entanto, o conceito é mais amplo e inclui também inovação de processos, de modelos de negócio e de organização.

Se há um ponto em que os participantes convergiram de forma clara foi na importância da escala empresarial para transformar inovação em crescimento económico.

Já Rui Coutinho considera que a discussão sobre a relação entre investigação e inovação deve ser colocada em perspetiva histórica. O executivo sustenta que Portugal já percorreu um caminho significativo nas últimas duas décadas. “Há quinze anos nem no I&D estávamos onde estamos hoje”, afirmou.

Atualmente, o país apresenta um desempenho relevante ao nível da investigação e desenvolvimento, embora os resultados ao nível da inovação empresarial ainda não tenham acompanhado totalmente essa evolução, admite. Para o responsável da Mota-Engil, o problema está menos na qualidade do sistema científico e mais na estrutura do tecido empresarial português. A economia continua fortemente baseada em micro e pequenas empresas, o que limita a capacidade de investimento e de expansão internacional. “O problema da escala é um problema mais profundo”, afirmou.

Na sua visão, a pequena empresa precisa de ambicionar tornar-se média empresa, e a média empresa precisa de ambicionar tornar-se grande empresa. Só assim será possível criar organizações com dimensão suficiente para competir nos mercados globais. No caso da Mota-Engil, a presença internacional da empresa permite precisamente criar esse efeito de escala, funcionando como plataforma para testar soluções tecnológicas em diferentes geografias e contextos operacionais. Segundo Rui Coutinho, essa dimensão internacional permite acelerar o ciclo de aprendizagem e de inovação. “Conseguimos testar soluções em ambientes globais”, explicou, o que facilita a transformação dessas soluções em produtos ou serviços com impacto económico.

Fusões e aquisições como instrumento de crescimento

Para reforçar essa escala empresarial, Rui Coutinho considera que as políticas públicas poderiam incentivar mais processos de concentração empresarial, nomeadamente através de fusões e aquisições. O responsável afirma que o crescimento das empresas não depende exclusivamente de incentivos públicos, sendo muitas vezes resultado de decisões estratégicas tomadas pelas próprias organizações. “A alocação de capital à inovação é uma decisão nossa”, afirmou, referindo-se às grandes empresas. No entanto, considera que mecanismos que facilitem processos de consolidação empresarial poderiam contribuir para reforçar a capacidade competitiva do tecido empresarial português. “Precisamos de encontrar formas que permitam mais fusões e aquisições e mais escala”, defendeu.

Na fase final do debate, os participantes foram desafiados a identificar o principal obstáculo ao crescimento das empresas portuguesas.

Ana Almeida Simões apontou dois fatores principais. A complexidade regulatória e a cultura de execução. Para a administradora da Via Verde, a burocracia continua a ser um entrave significativo, sobretudo para micro e pequenas empresas que não dispõem de recursos para lidar com processos administrativos complexos. Ao mesmo tempo, considera que existe uma tendência para discutir demasiado as soluções em vez de as implementar rapidamente. “Passamos muito tempo a falar e pouco tempo a fazer”, afirmou.

Ana Casaca apontou um obstáculo diferente. A falta de literacia tecnológica nos conselhos de administração das empresas, sustentando que muitas decisões estratégicas continuam a ser dominadas por uma lógica financeira de curto prazo, sem integrar plenamente a dimensão tecnológica e digital. “Precisamos de trazer a discussão da tecnologia para o centro das decisões estratégicas”, defendeu.

Sérgio Silvestre destacou o problema do chamado “capital paciente”, ou seja, a dificuldade em financiar projetos com horizontes de retorno mais longos. Segundo o responsável, tanto o setor público como o privado tendem a privilegiar resultados de curto prazo, o que limita o investimento em projetos mais ambiciosos.

Sílvia Garcia acrescentou que muitos projetos inovadores enfrentam dificuldades em alcançar escala porque não conseguem construir ecossistemas de colaboração suficientemente amplos. Muitas startups ou projetos científicos tentam chegar diretamente ao cliente final sem integrar parceiros industriais ou tecnológicos que permitam acelerar a adoção das soluções.

Para Rui Coutinho, o desafio central pode ser resumido numa expressão. “Um choque de gestão”, já que “continuamos a gerir as nossas empresas para um mundo previsível”, precisamente quando estamos num contexto económico que se tornou profundamente incerto.

 

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