A Paperweight AI nasceu de uma ideia aparentemente simples, transformar prateleiras de retalho em sistemas inteligentes capazes de monitorizar inventário em tempo real. Para Yoni Engel, fundador e CEO da empresa, a inovação muitas vezes começa precisamente por questionar soluções complexas e encontrar alternativas mais simples e eficazes.
Foi essa visão que levou a startup a desenvolver uma tecnologia baseada em sensores de pressão aplicados em prateleiras, capaz de gerar dados em tempo real sobre o comportamento dos produtos no ponto de venda. Uma abordagem que procura resolver um problema estrutural do setor do retalho: a falta de visibilidade sobre o que acontece nas prateleiras das lojas. “Os retalhistas perdem cerca de 1,8 biliões de dólares devido a ruturas de stock porque não sabem exatamente o que está a acontecer nas prateleiras em tempo real”, explicou Yoni Engel.
A solução desenvolvida pela empresa consiste num sensor de pressão ultrafino, aplicado diretamente nas prateleiras existentes, que permite recolher dados sobre os produtos colocados. Esses dados são depois analisados com recurso a inteligência artificial, transformando padrões de pressão em informação útil para os retalhistas. Esta solução foi a vencedora na edição do ano passado do Prémio Naconal de Inovação na categoria de Transformação do Posto de Trabalho
“Transformamos centenas de pontos de pressão em insights de retalho em tempo real”, afirmou o responsável. “E conseguimos fazê-lo a um custo muito baixo”.
Segundo Yoni Engel, uma das razões pelas quais o problema continua por resolver é o facto de muitas empresas procurarem soluções excessivamente complexas, como sistemas baseados em câmaras. “As pessoas perguntam sempre porque não usamos câmaras. A resposta é simples: as câmaras não conseguem ver o que acontece dentro da prateleira”.
Para o empreendedor, a aposta numa solução aparentemente simples acabou por revelar-se mais eficaz. “Uma solução elegante e simples pode resolver um problema que sistemas muito caros e complexos não conseguem resolver”.
Os investidores olham muitas vezes para o dinheiro. Os clientes olham para o problema. Yoni Engel, Fundador e CEO da Paperweight AI
A origem da Paperweight AI está ligada a um percurso científico e académico. Yoni Engel é doutorado em química e nanotecnologia pela Universidade de Tel Aviv e começou a sua carreira como investigador na área de sensores. Desde cedo, explica, teve contacto com processos de transferência de tecnologia para o mercado. “A minha investigação foi licenciada para uma startup, por isso essa ligação entre ciência e mercado esteve presente desde o início”.
Depois de trabalhar numa startup de materiais avançados, Yoni Engel acabou por mudar-se para Portugal, onde integrou o laboratório colaborativo AlmaScience como vice-presidente de negócios. Foi nesse contexto que surgiu a base tecnológica que deu origem à Paperweight AI.
A tecnologia foi inicialmente desenvolvida no laboratório, mas o desafio passou por encontrar um mercado onde pudesse gerar impacto real. “Começámos com a tecnologia e procurámos perceber onde poderia ter maior impacto”. A resposta surgiu após várias entrevistas com empresas do setor do retalho. “Percebemos que havia um problema enorme relacionado com a gestão de inventário nas prateleiras”.
O papel do ecossistema de inovação
Para Yoni Engel, o desenvolvimento da empresa também demonstra a importância das estruturas de apoio à inovação existentes em Portugal, em particular os laboratórios colaborativos. Segundo o empreendedor, estes modelos permitem absorver risco científico e tecnológico nas fases iniciais de desenvolvimento das tecnologias. “No nosso caso foi a AlmaScience que deu o primeiro passo e permitiu desenvolver a tecnologia antes de a apresentarmos aos investidores”.
Esse apoio inicial revelou-se determinante para ultrapassar uma das maiores dificuldades enfrentadas por startups tecnológicas: a fase pré-receita. “Especialmente em Portugal, onde não existe a mesma disponibilidade de capital que em ecossistemas como Silicon Valley”.
Yoni Engel alertou, contudo, para a importância de garantir continuidade no financiamento destes modelos. “Construir um ecossistema de inovação é muito difícil. Destruí-lo é muito fácil”.
O executivo destacou ainda outro desafio que considera estrutural para as empresas tecnológicas em Portugal: a burocracia e a lentidão dos processos administrativos. “A inovação move-se rapidamente e as empresas competem a nível global”.
Por isso, defende, é essencial que os sistemas administrativos acompanhem esse ritmo. “Seria uma pena que empresas criadas em Portugal acabassem por se mudar para outros países porque não conseguem acesso a financiamento aqui”.
Depois de validar o conceito junto do mercado, a Paperweight AI começou a ganhar visibilidade internacional. A empresa venceu o Prémio Nacional de Inovação na edição anterior e participou em várias iniciativas internacionais de empreendedorismo. Entre elas, um concurso de startups em Silicon Valley e o National Retail Federation Innovation Showcase, em Nova Iorque, um dos maiores eventos mundiais dedicados à tecnologia para o setor do retalho.
Ao mesmo tempo, a empresa começou a testar a sua solução em ambiente real. Um dos primeiros pilotos pagos foi desenvolvido com a MC, no GaiaShopping. Para Yoni Engel, estes testes representam um passo importante na validação comercial da tecnologia. “Esperamos que 2026 seja o ano de consolidação”.