A edição de 2026 do European Prize for Women Innovators deu visibilidade a três portuguesas que representam uma nova geração de empreendedoras tecnológicas na Europa. Neide Vieira, cofundadora e chief operating officer da IPLEXMED, e Ella Frances Cullen, cofundadora e chief marketing officer da Minespider, são finalistas na categoria EIT Women Leadership. Sónia Ferreira, fundadora da BestHealth4U, integra o grupo das 18 semifinalistas deste prémio promovido pela Comissão Europeia, através do European Innovation Council e do European Institute of Innovation and Technology. As vencedoras serão conhecidas na Cimeira do Conselho Europeu da Inovação, em junho de 2026.
No caso de Sónia Ferreira, o ponto de partida é um problema tão silencioso quanto massivo. As lesões cutâneas associadas ao uso de adesivos médicos, conhecidas como MARSI, afetam milhões de doentes em todo o mundo e geram complicações clínicas, custos adicionais e dor associada ao uso de dispositivos. “O mercado global de adesivos médicos foi concebido há mais de 60 anos. Desde então, os dispositivos médicos evoluíram drasticamente, mas os materiais adesivos praticamente não acompanharam essa evolução”, descreve. A BestHealth4U nasce dessa falha estrutural, que a empreendedora identifica como “não apenas clínica, mas industrial e sistémica”.
Em vez de procurar uma melhoria incremental, Sónia Ferreira quis redefinir o paradigma, deslocando o modelo de prestação de cuidados de um registo reativo para um modelo preventivo e tecnologicamente integrado. “Não estamos a desenvolver um adesivo, estamos a construir estrategicamente uma plataforma adesiva para os dispositivos médicos do futuro”, sublinha. No centro da estratégia está o Bio2Skin, uma plataforma proprietária que combina biocompatibilidade, desempenho técnico e sustentabilidade, concebida para ser integrada em cadeias de valor globais através de um modelo de licenciamento industrial leve em capital, dispensando investimento pesado em capacidade produtiva própria.
O percurso da BestHealth4U ilustra também as dificuldades de projetos desta natureza. Para a empreendedora, “o principal obstáculo não foi regulatório, foi estrutural e cultural. Financiar deep tech fora do contexto académico”. Não sendo uma spin-off universitária, a empresa teve de provar desde o primeiro dia que era uma tecnológica com modelo escalável e não apenas um projeto de investigação. A resposta passou por um posicionamento disciplinado. “Investimos fortemente em propriedade intelectual, validação técnica rigorosa, estruturação de um modelo asset-light e integração em cadeias industriais já certificadas.”
Essa opção permitiu reduzir risco, acelerar a entrada no mercado e aumentar a atratividade junto de parceiros internacionais, com um modelo deliberadamente eficiente em capital, assente em proteção tecnológica, parcerias industriais e licenciamento estruturado. “Sustentabilidade financeira e equidade não são conceitos opostos. Quando a tecnologia resolve problemas estruturais, cria poupança sistémica e gera valor económico”, defende, sublinhando que a ambição é “criar tecnologia em Portugal com impacto global”. A validação europeia ajuda. “Ser semifinalista não é apenas um reconhecimento da qualidade das pessoas que compõem a BestHealth4U. É um sinal claro de que a inovação desenvolvida em Portugal pode competir ao mais alto nível europeu.”
Um diagnóstico mais rápido
Também na interseção entre ciência e tecnologia, mas no diagnóstico de infeções respiratórias, Neide Vieira lidera na IPLEXMED o desenvolvimento da Nexaguard, uma plataforma portátil de diagnóstico rápido que tira partido da especificidade do ADN e da elevada sensibilidade de sensores de grafeno integrados em cartuchos descartáveis inteligentes. O ponto de partida é um sistema de diagnóstico que considera fragmentado e ineficiente. “Apesar de existirem tecnologias avançadas, o diagnóstico mantém-se fragmentado”, alerta, lembrando que os métodos centralizados “são lentos, exigem infraestrutura dedicada e técnicos especializados, criando bottlenecks que atrasam a triagem e a decisão clínica”, enquanto as soluções rápidas no ponto de cuidado “tendem a ser pouco fiáveis e limitadas no número de agentes que conseguem identificar por amostra”.
Essa lacuna empurra frequentemente os clínicos para o tratamento empírico, com consequências diretas na mortalidade e morbilidade, no risco de infeções associadas aos cuidados de saúde, nos custos e no agravamento da resistência aos antimicrobianos. A proposta da Nexaguard é trazer qualidade laboratorial para o ponto de cuidado, encurtando drasticamente o tempo de resposta. “A Nexaguard tira partido da combinação entre a especificidade do ADN e a elevada sensibilidade dos sensores de grafeno, integrados em cartuchos descartáveis inteligentes que automatizam o pré-tratamento da amostra e permitem deteção eletrónica direta, sem amplificação, com resultados em cerca de 20 minutos no ponto de cuidado”, explica Neide Vieira. O objetivo é ser “20 vezes mais rápidos do que as tecnologias atuais”, com impacto direto na redução de custos e na melhoria do bem-estar dos doentes.
A arquitetura híbrida da solução, com processamento local e na cloud, permite reporte em tempo real, integração com sistemas clínicos e suporte à monitorização remota, contribuindo ainda para a vigilância epidemiológica, nomeadamente da resistência antimicrobiana. “Aproximamos o diagnóstico do momento da decisão e criamos um caminho claro para, no futuro, o tornar progressivamente mais acessível também fora do hospital”, nota, apontando desde já a exploração do mercado doméstico como horizonte natural. Para equilibrar desenvolvimento tecnológico, validação clínica e tempo de entrada no mercado, a IPLEXMED trabalha com um roadmap faseado e orientado pelo risco. “Estruturamos o trabalho em três linhas que se alimentam mutuamente. Maturação tecnológica, validação clínica progressiva e industrialização e preparação regulatória”, detalha.
Esse processo é sustentado por uma equipa multidisciplinar que cobre ciência, engenharia, produto, qualidade, regulatório e negócio, além de uma rede de conselheiros, mentores e parceiros que ajuda a acelerar decisões críticas e a reduzir risco. “As prioridades são continuamente revistas com base nos dados gerados e no feedback clínico, o que nos permite ajustar o plano sempre que necessário, sem perder o foco no objetivo final. Colocar no mercado um IVD para o ponto de cuidado com desempenho, usabilidade e evidência clínica compatíveis com uma adoção real”, sublinha. No financiamento, a estratégia passou por combinar, desde cedo, apoios competitivos com investimento privado. “Os apoios não dilutivos foram essenciais para acelerar etapas críticas do desenvolvimento e para reduzir risco”, afirma, destacando o impacto do programa Empowomen, no âmbito do Horizonte Europa, ao nível da tração, internacionalização, propriedade intelectual e resolução de desafios técnicos.
Regulação, dados e confiança
Na outra ponta da cadeia de valor, mas ainda com a sustentabilidade no centro, está o percurso de Ella Frances Cullen na Minespider, focada na transparência e rastreabilidade de matérias-primas e produtos. A empresa desenvolve passaportes digitais, os Digital Product Passports, com a missão de recolher e estruturar dados em todas as fases da cadeia de abastecimento, o que, diz a responsável, altera significativamente o nível de visibilidade em todo o sistema. “Os intervenientes que antes ficavam ocultos por trás de documentação fragmentada ou bases de dados isoladas passam a fazer parte de um fluxo contínuo e rastreável de informação que pode ser efetivamente verificada.” A especialista admite que a mineração tem sido tradicionalmente vista como opaca, mas sublinha que muitas empresas estão a desenvolver um trabalho genuinamente sólido em matérias como normas ambientais, envolvimento comunitário, saúde e segurança e governação. “A dificuldade não está na falta de esforços, mas sim na capacidade de o provar de forma credível e estruturada.”
Os clientes com quem trabalha querem diferenciar-se, mostrar a origem, demonstrar conformidade com requisitos de due diligence e tornar visíveis as suas iniciativas de sustentabilidade. “A tecnologia de rastreabilidade dá-lhes essa oportunidade. Cria uma linguagem partilhada de dados verificada que pode viajar com o material através de fronteiras e parceiros”, defende. Para além da dimensão regulatória e reputacional, há vantagens operacionais frequentemente subestimadas. A digitalização e organização da informação da cadeia de abastecimento permite às empresas compreender melhor como os materiais se movimentam dentro e fora da organização, ganhando em eficiência, acesso a mercados regulados e confiança de clientes e investidores. “Acredito que, com o tempo, pode mesmo suportar um posicionamento premium para materiais obtidos de forma responsável”, antecipa.
Ella Frances Cullen acredita que caminhamos para um futuro em que todos os produtos serão chamados a transportar informação sobre a sua origem e modo de produção. Os produtos que não conseguirem fornecer dados transparentes sobre origem e processamento arriscam-se a ser tratados quase como mercado negro, porque sem informação verificável não há forma de avaliar alegações. Nesse contexto, a pressão regulatória europeia em torno de ESG e due diligence é, segundo a especialista, simultaneamente custo e motor de inovação. “Acho importante reconhecer essa complexidade”, observa. Por um lado, novas obrigações de reporte levam as empresas a repensar a forma como recolhem, gerem e verificam dados, impulsionando sistemas mais robustos. Por outro, o volume e a sobreposição de diferentes exigências legais em matéria de sustentabilidade e cadeia de valor geram ineficiências e frustração.
“As empresas podem acabar a recolher informação semelhante várias vezes em formatos diferentes”, nota. É aqui que vê espaço para a tecnologia que desenvolve. “Os Digital Product Passports podem tornar-se particularmente valiosos, porque criam uma base de dados estruturada e auditável que assenta em toda a cadeia de abastecimento, permitindo às empresas usar o mesmo core dataset para cumprir vários requisitos regulatórios”, defende.
O percurso da Minespider ilustra também a importância do ecossistema europeu na fase inicial e os desafios na escala. “Quando começámos a Minespider, há quase oito anos, sentimo-nos muito apoiados”, recorda, referindo pitch competitions, universidades, aceleradoras, incubadoras e uma cultura que apoia a experimentação. Os fundos europeus, como o Horizonte 2020 e o apoio da EIT RawMaterials, foram decisivos numa tecnologia complexa que exige tempo e investigação até à plena comercialização.