"Fiado" na farmácia trocado por miúdos

Um grupo de estudantes de Ciências Farmacêuticas da Universidade do Porto colocou de pé um ambicioso projecto de voluntariado para que os doentes carenciados possam levantar e tomar os medicamentos sujeitos a receita médica.
"Fiado" na farmácia trocado por miúdos
Paulo Duarte
António Larguesa 02 de junho de 2016 às 12:08
Enfiada no histórico Palácio das Cardosas, que partilha com o luxuoso hotel InterContinental, a farmácia Vitália, desenhada em 1932 num estilo art-déco, esconde atrás dos balcões uma discreta lista de pagamentos em atraso, volumosa nos nomes, nos prazos e nos euros. Na empobrecida freguesia da Vitória, no núcleo histórico da Invicta, o fiado é um "fenómeno com muita dimensão", admite a farmacêutica, Paula Nadais. E vai além dos casos em que o crédito já está cortado e a receita do médico fica esquecida na carteira vazia. Desde o arranque do "Porto com + Saúde", em Março, começou a encolher a lista de devedores e de doentes que saltam a medicação, que integram o projecto-piloto da associação Cura+.

A par da Aliança e da Lemos, esta é uma das três farmácias parceiras do grupo de voluntariado criado em Outubro de 2015, que já tem perto de 80 elementos provenientes de vários cursos da Universidade do Porto. Liderados por Joana Carvalho, uma enérgica pacense de 22 anos, finalista do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas, fornecem gratuitamente medicamentos sujeitos a receita médica a portadores de doenças crónicas com carências financeiras graves. Essa referenciação é feita com o apoio do Centro Social e Paroquial Nossa Senhora da Vitória, uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) onde começa toda a logística comandada por Aléxis Sousa, um madeirense de 20 anos.

Inês Carvalho é uma das voluntárias que em três dias da semana vestem a bata para recolher donativos para pagar os medicamentos de quem não tem condições económicas.
Inês Carvalho é uma das voluntárias que em três dias da semana vestem a bata para recolher donativos para pagar os medicamentos de quem não tem condições económicas.
Paulo Duarte
É lá que é feita a entrega e gestão das receitas, gerando as listas de medicamentos que, três dias por semana, durante duas horas em cada farmácia, um batalhão de voluntários de bata empilha num púlpito singelo e improvisado. É dali que, até na cansativa semana da Queima das Fitas, Inês Carvalho interpela os clientes no final das compras ou enquanto esperam para ser atendidos. Apresenta a associação, fala do projecto, explica como podem contribuir - doar os medicamentos necessários ou efectuar um donativo em dinheiro - e ouve elogios de quem "[gosta] de ver os jovens a ter uma iniciativa diferente e de cariz social". Aos 19 anos, são duas as motivações: uma pessoal de "começar a ter uma noção" do que irá encontrar mais tarde em contexto profissional e outra mais altruísta de "ajudar de alguma maneira" a minorar um problema de uma dimensão que ignorava.

Donativos e 30 famílias

A estudante do segundo ano vê que "as pessoas que vão à farmácia e têm possibilidades de pagar nem sequer pensam neste assunto, não estão muito identificadas e ficam surpreendidas" quando confrontadas com essa realidade. Além dos individuais, a associação recolhe donativos, subsídios ou patrocínios junto de entidades públicas e empresariais, como a Fundação Manuel António da Mota. De cada vez que o Fundo é movimentado - e ele é financiado também com prémios, como o de 7.500 euros atribuído pela Associação Nacional de Farmácias -, segue a informação sobre os medicamentos que foram pagos com aquele montante.

A ideia partiu de Joana Carvalho, uma finalista de Ciências Farmacêuticas que preside à associação Cura+.
A ideia partiu de Joana Carvalho, uma finalista de Ciências Farmacêuticas que preside à associação Cura+.
Paulo Duarte
Independentemente da origem do dinheiro, no final do mês a Cura+ salda nas farmácias estas dívidas referentes à medicação para diabetes, colesterol ou doenças psíquicas, entre outras, que havia sido levantada directamente pelos doentes, apenas com um cartão identificador. "A pessoa que está ao lado na fila não tem essa percepção [de que o medicamento não é pago], tudo é feito de uma forma muito discreta", valoriza a farmacêutica Paula Nadais. O anonimato é mantido e o levantamento é feito pessoalmente, o que permite um aconselhamento farmacêutico normal, acrescenta Joana Carvalho.

No final dos primeiros três meses, em que assegurou o pagamento de cerca de 200 caixas de medicamentos, o número de agregados familiares apoiados vai passar em Junho de 20 para 30, sendo a meta chegar aos 60 no primeiro ano de actividade. Não será difícil, dados os elogios e a notoriedade gerados pelo trabalho voluntário destes miúdos do Porto, que evita um aumento de despesa para o Serviço Nacional de Saúde. Já há IPSS, farmácias e até grandes hospitais a fazer fila.

A Vitália, na baixa do Porto, é uma das três farmácias parceiras nesta fase.
A Vitália, na baixa do Porto, é uma das três farmácias parceiras nesta fase.
Paulo Duarte





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