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A colaboração em busca de uma vacina para a covid-19

Na situação concreta da covid-19, o que se está a assistir é a um modelo de colaboração entre parceiros que, pela sua natureza, se considera que concorrem entre si, o caso da indústria farmacêutica, diz Céu Mateus da Universidade de Lancaster.

Filipe S. Fernandes 23 de Setembro de 2020 às 12:00
Filipa Mota e Costa, diretor-geral da Janssen, salienta o grau de colaboração no combate à pandemia. Ricardo Ruella
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"A principal diferença tem sido de facto o grau de colaboração. Mesmo numa corrida contra o tempo como esta, que é um imperativo de saúde pública mundial, não se tomaram atalhos, nem se excluíram etapas, estando a ser cumpridas escrupulosamente todas as fases de um ciclo de desenvolvimento de uma vacina. A organização e colaboração dos vários intervenientes é que tem sido extraordinária", refere Filipa Mota e Costa, diretora-geral da Janssen.

"Na situação concreta da covid-19, o que se está a assistir é a um modelo de colaboração entre parceiros que, pela sua natureza, se considera que concorrem entre si, o caso da indústria farmacêutica", explica Céu Mateus, professora catedrática de Economia da Saúde na Universidade de Lancaster.

Mas na sua opinião não haverá alterações estruturais na forma como se desenvolve a inovação em saúde. Foi uma aliança num momento em que se percebeu, segundo a analogia de Céu Mateus, que uma corrida de estafetas permitia obter resultados mais depressa e a repartição dos ganhos seria boa para todos do que uma corrida individual. Pode permitir "perceber que fases do processo de desenvolvimento de medicamentos é possível acelerar e quais são as barreiras aos mesmos e compreender que processos podem ser agilizados e flexibilizados".

A nova estratégia de inovação

Por sua vez Hélder Mota Filipe, professor associado na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, considera que não é inédita esta conjugação de esforços entre as empresas da indústria farmacêutica e os institutos de investigação e universidades com conhecimento diferenciado nas diversas áreas da ciência necessárias para o desenvolvimento de uma vacina com as características pretendidas contra a covid-19.

A covid-19 tornou mais óbvio para toda a sociedade o valor da inovação em saúde. Céu Mateus
Professora catedrática de Economia da Saúde na Universidade de Lancaster
"O paradigma do desenvolvimento de novos medicamentos tem vindo a mudar nas últimas décadas. Anteriormente as empresas desenvolviam a inovação utilizando praticamente apenas a sua capacidade científica instalada, mas, atualmente as companhias farmacêuticas agregam conhecimento proveniente de outras empresas, de universidades ou institutos de investigação. Foi esta a situação que observámos também no processo de desenvolvimento destas vacinas", concluiu Hélder Mota Filipe.

"A covid-19 tornou mais óbvio para toda a sociedade o valor da inovação em saúde, não só nas suas dimensões mais óbvias (vacinas, novos medicamentos, novos tratamentos ou novos meios de diagnóstico e terapêutica) mas em áreas menos evidentes mas de elevado impacto", afirma Céu Mateus.

Para Hélder Mota Filipe, a pandemia "estimulou claramente uma aceleração de investigação e desenvolvimento na área das vacinas e também na identificação do potencial terapêutico de medicamentos já disponíveis para outras utilizações terapêuticas". Além disso, a pandemia testou a capacidade de adaptação dos mecanismos regulamentares de avaliação e autorização de entrada no mercado de novos medicamentos em situação de pandemia.

A inovação não é para todos

O que é esta crise pandémica tornou evidente foram as ferramentas de comunicação que podem ter contribuído para reduzir o impacto da pandemia na saúde mental. Ajudaram a fazer consultas, como as teleconsultas (áudio ou videochamada), a usar ferramentas digitais como os tablets para dar resposta às necessidades dos doentes, que estavam em isolamento nos hospitais, ou as chamadas (áudio ou vídeo) entre doentes a morrer de covid-19 e a família para que as pessoas não estivessem sozinhas. "Não eram inovações pensadas de raiz para a saúde", conclui Céu Mateus.

"Inovação crucial na área da saúde prende-se com melhorias nos sistemas de recolha de dados e aqui as soluções virão da engenharia, nomeadamente das áreas de sistemas de reconhecimento de voz", diz Céu Mateus. Recorda que "contra tudo o que se possa pensar, nos Estados Unidos, a máquina de fax foi agora, em 2020, fundamental para transmitir dados de registos clínicos eletrónicos entre médicos. Parece uma piada, mas é a realidade".

O desenvolvimento de robôs também será crucial, "nomeadamente em contextos de doenças infecciosas, uma vez que os robôs não se infetam". Céu Mateus sublinha ainda que "a interoperabilidade dos programas informáticos que existem nos serviços de saúde tem sido esquecida. Contudo, ter muitos dados sobre os doentes em 50 programas diferentes não é a mesma coisa que ter um sistema de informação".

"Nunca tantos medicamentos inovadores tinham entrado no mercado como nos últimos anos", refere Hélder Mota Filipe. Mas este grande aumento na inovação terapêutica não foi homogéneo. "Muita e relevante inovação tem acontecido, por exemplo, na área da oncologia ou das doenças virais. Pelo contrário, praticamente não se tem observado inovação na área dos antibióticos."
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