ACES do Cávado III: Barcelos cria GPS para doença pulmonar

Para responder ao subdiagnóstico da doença pulmonar obstrutiva crónica, o Agrupamento de Centros de Saúde do Cávado III melhorou a gestão do percurso do utente, desde o diagnóstico até à reabilitação respiratória.
ACES do Cávado III: Barcelos cria GPS para doença pulmonar
Este projecto começou a ser pensado há dois anos, após Sofia Leal trocar um cargo de gestão no Centro Hospitalar de S. João pela direcção do ACES de Barcelos e Esposende.
Paulo Duarte
António Larguesa 11 de outubro de 2018 às 15:20
O prestador é que tem de ir ter com o utente; não é ele que deve andar perdido no sistema à procura dos cuidados de saúde. Foi este o princípio que esteve na base do projecto implementado no Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Cávado III para melhorar a gestão do percurso do utente com doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), que atinge principalmente pessoas com mais de 40 anos e é caracterizada por sintomas como tosse, expectoração e cansaço fácil, que nem sempre são valorizados até pelos profissionais de saúde. "Era preciso que nos colocássemos nos seus sapatos e percebêssemos, desde o início, do que é que precisava e como podíamos chegar a ele", explica a directora executiva, Sofia Leal.

Confrontado com um subdiagnóstico (2% vs. 14,2% a nível nacional) nos concelhos de Barcelos e Esposende, provocado também pela fraca sensibilização para a doença, o ACES minhoto decidiu integrar os níveis de cuidados - havia uma fragmentação das intervenções nas diversas especialidades e entre os cuidados primários e os cuidados hospitalares - e definir o percurso real e mais adequado para o utente, desde o diagnóstico até à fase da reabilitação. Volvidos dois anos desde o arranque do projecto, num quadro comparativo entre Abril de 2016 e de 2018, a percentagem de utentes com diagnóstico de DPOC confirmado com espirometria subiu de 26% para 40% e dobrou para 8% a proporção de utentes com registo do abuso de tabaco.

Responsável por uma perda gradativa da qualidade de vida - assumida como normal e tolerável devido ao consumo de tabaco -, à falta de diagnóstico, medicação e controlo desta doença, as agudizações acabam por trazer também custos desnecessários para o serviço de saúde, com idas às consultas, urgências e internamentos. Era este o "hábito" de Helena Veiga, uma professora na reforma, que corria para o médico de família sempre que se prolongavam as tosses ou constipações e pioravam os ataques de bronquite, sobretudo no Inverno. Até que há quatro meses foi diagnosticada com DPOC, relatando inclusive que "o facto de dar um nome à [sua] doença também é bom porque obriga a lidar com o problema de outra forma".

Era preciso que nos colocássemos nos sapatos dos utentes e percebêssemos, desde o início, do que precisava e como chegar a ele.  Sofia Leal
Directora executiva do ACES Cávado III Barcelos/Esposende

Aos 65 anos de vida (e 50 de fumadora) viu uma médica e uma enfermeira desenharem um mapa terapêutico e motivarem-na a ir a uma consulta de cessação tabágica. Usou o aconselhamento nutricional, experimentou o serviço de psicologia e teve sessões de cinesiterapia no domicílio para ajudar a respirar melhor. E começou também a preencher o Plano Individual de Cuidados.

Inspirado no plano disponível no Portal do Cidadão e adaptado depois à DPOC - e em formato de papel para atender à população infoexcluída -, este boletim acompanha o doente em todas as consultas e serve também de ligação entre os profissionais das várias especialidades: médico, enfermeiro, nutricionista, psicólogo, enfermeiro de reabilitação ou pneumologista.

Uma das "insuficiências" detectadas durante este processo foi na área da reabilitação respiratória, tendo o ACES Cávado III solicitado e conseguido financiamento para construir e equipar um gabinete, um dossiê que ainda está em fase de implementação.

A enfermeira Edite Brito, especializada nesta área, sublinha que, além das vantagens ao nível do controlo da dispneia, da intolerância ao esforço e sensação de cansaço, este novo espaço será relevante para fazer "a literacia do doente". "Temos um momento privilegiado porque [o utente] vai frequentá-los três vezes por semana durante 12 semanas e é um momento óptimo para gerir a sua doença, saber lidar com os sintomas e também prevenir as agudizações", acrescenta.

Gerir percurso do utente com DPOC 

Este projecto do ACES Cávado III dirige-se à pessoa com a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), uma das principais causas de mortalidade, morbilidade e de perda de qualidade da vida em Portugal. Consciente de que o diagnóstico e tratamento precoce destes doentes são "imprescindíveis para uma correcta abordagem e eficácia na melhoria dos sintomas", este agrupamento que serve 153 mil habitantes dos concelhos de Barcelos e Esposende apostou num acompanhamento mais próximo e humano do utente com DPOC, capaz de diminuir o impacto da progressão da doença. Na prática, envolveu a reorganização da prática clínica, a introdução de processos de melhoria contínua e ainda uma visão integradora de níveis de cuidados, envolvendo até os hospitalares.






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