Outros sites Cofina
Notícia

Adalberto campos Fernandes: “Pobreza e doença sempre andaram de mãos dadas”

Adalberto Campos Fernandes defende "um plano proativo multissetorial capaz de responder com eficácia às necessidades de saúde dos cidadãos", mas também a defesa da equidade em saúde.

Filipe S. Fernandes 09 de Setembro de 2020 às 13:00
Adalberto campos Fernandes professor associado na escola nacional de saúde pública João Relvas
  • Assine já 1€/1 mês
  • ...
A importância de investir em saúde ficou provada com esta pandemia pois se "dúvidas houvesse a esse propósito, elas foram integralmente desvanecidas", afirma Adalberto Campos Fernandes, professor associado na Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa e ministro do Saúde entre 2015 e 2018. Licenciado em Medicina tem ainda experiência como gestor hospitalar em passagens pelo Hospital de Santa Maria, o Hospital Pulido Valente e o Centro Hospitalar de Lisboa Norte, além do SAMS Prestação Integrada de Cuidados de Saúde e do HPP Parcerias Saúde-Hospital de Cascais.

Qual foi o maior impacto desta pandemia de covid-19 no Serviço Nacional de Saúde em termos de acesso, financeiros, capacidade de investimento?
O impacto da pandemia, no sistema de saúde português, foi muito intenso. A resposta imediata, fruto do desconhecimento da doença e do seu impacto, levou à suspensão ou à diminuição de grande parte da atividade assistencial normal. O acesso foi significativamente prejudicado. Por outro lado, grande parte dos recursos foram desviados para a resposta covid-19. Esta circunstância acarretou dificuldades muito grandes, ao nível do acesso, que urge corrigir, quer no reforço dos meios próprios do Serviço Nacional de Saúde quer por um pacto de cooperação com o setor social e o setor privado tendo em vista a urgente recuperação.

Que balanço faz da resposta e consequência da pandemia e como é que o SNS pode retomar a sua atividade no que se refere às consultas e aos tratamentos de outras doenças que, entretanto, foram sendo adiados e que no caso de uma segunda onda podem voltar a ser postergados?
A resposta inicial foi muito positiva e fez justiça à grande utilidade social do Serviço Nacional de Saúde e ao enorme empenho e qualidade dos nossos profissionais de saúde. Neste momento, em que temos pela frente o inevitável aumento do número de casos positivos da covid-19, a que se poderão associar as infeções pela gripe sazonal, deveremos ter um plano proativo multissetorial capaz de responder com eficácia às necessidades de saúde dos cidadãos.

A importância de investir em saúde ficou provada com esta pandemia? É suficiente aumentar o investimento e/ou é necessário mudar o sistema de saúde para que possa ter capacidade de resposta em todas as situações, tanto às pandémicas como à prevenção e aos cuidados em saúde?
Se dúvidas houvesse, a esse propósito, elas foram integralmente desvanecidas. É fundamental reforçar o dispositivo global de saúde pública tanto em recursos humanos como em meios de apoio tecnológico. Ao mesmo tempo, creio que todos percebemos que, afinal, em situações como a que vivemos, a saúde precede a economia. É fundamental considerar prioritário o investimento em ensino, formação, investigação e desenvolvimento em saúde. Um sistema de saúde forte e competente é um poderoso instrumento de defesa das populações, do seu bem-estar e, consequentemente, do desenvolvimento económico e social dos países.

A equidade no acesso à saúde pode estar mais em risco com a crise económica? Como poderá ser atenuada?
Certamente, sim. Pobreza e doença sempre andaram de mãos dadas. Não apenas a saúde física, mas também, e sobretudo, a saúde mental. Os impactos da quebra de rendimento, do desemprego, da desvalorização pessoal e profissional representam fatores de risco muito importantes na qualidade vida das pessoas. Neste contexto, aumenta também o risco de agravamento das desigualdades e, consequentemente, do risco de diminuição da equidade em saúde.
Mais notícias