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Aqui, um sorriso vale mais do que mil terapias

No Complexo de Santa Bárbara, da AMETIC, o bem-estar dos residentes é a grande prioridade dos profissionais de saúde e funcionários. Um objectivo que obriga a uma gestão rigorosa dos recursos, virada para a sustentabilidade e eficiência.

20 de Julho de 2015 às 15:46
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Os raios de sol das últimas horas da manhã iluminam a mesa que fica próxima da janela. É esse o lugar que Alice escolhe para comer a sopa servida ao almoço e trocar dois dedos de conversa com aqueles que já considera seus amigos. Há cinco meses escolheu o Complexo de Santa Bárbara, na Lourinhã, para viver, e para recuperar de uns problemas de saúde que já nem sabe explicar quais são. "É muito bom estar aqui porque sou bem tratada. Sinto-me como se estivesse num hotel", confessa a antiga escriturária. "Tanto que, quando me perguntam, já nem sei que problemas tenho".

A fruta e os vegetais frescos colocados em cima das mesas do refeitório denunciam a política da casa. No lar, a alimentação cuidada é uma prioridade. "A alimentação é muito caseira, e temos a preocupação de comprar a produtores da região", explica Isabel Beltrão, directora-clínica da unidade. "Queremos que as pessoas se sintam em casa, que pensem o menos possível que estão doentes, dependentes ou isoladas". É esse o grande objectivo do Complexo de Santa Bárbara, uma casa de repouso pertencente à Rede Nacional de Cuidados Continuados (RNCCI), que foi adquirida em 2010 pela AMETIC.

É muito bom estar aqui porque sou bem tratada. Sinto-me como se estivesse num hotel. Tanto que, quando me perguntam, já nem sei que problemas [de saúde] tenho. 
Alice, 70 anos, residente

A unidade, com 122 camas, conta, actualmente, com 75 residentes - cerca de metade privados e a outra metade da rede - com uma idade média de 82 anos. No entanto, o complexo também recebe pacientes mais jovens. "Temos pessoas de 35 ou 40 anos, que estão em convalescença depois de um AVC, de uma fractura, ou que sofrem de cancro", descreve a directora-clínica. "Depois temos as pessoas mais idosas, algumas em processo demencial ou de isolamento".

Aqui, um sorriso vale mais do que mil terapias

A casa de repouso conta com uma equipa de 51 funcionários, incluindo médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas e auxiliares, que trabalham, em conjunto, para o bem-estar físico e social dos utentes. O complexo tem 122 camas e conta, actualmente, com 75 residentes, que ocupam os alojamentos, individuais e duplos, ou as vivendas autónomas.

Aqui, um sorriso vale mais do que mil terapias

1300

Custo por utente

No Complexo de Santa Bárbara, o custo médio por utente ronda os 1.300 euros por mês. Nos cuidados paliativos, o valor é superior.

Num cenário verdejante, entre a serra e o mar, eleva-se o edifício principal - onde se concentram todos os serviços e a maioria dos alojamentos - e as 16 vivendas autónomas que compõem a unidade. A preocupação com o bem-estar dos residentes é visível não só nas comodidades oferecidas - como piscina, jacuzzi, ginásio - como na metodologia utilizada pelos profissionais de saúde. Aqui, privilegia-se o primado do sorriso. Os técnicos trabalham activamente com os doentes não só na parte física, mas também na parte social. "Os residentes vão lá fora e passeiam, não estão obrigatoriamente na cama, mesmo os mais dependentes", relata Isabel Beltrão. "Isso faz com que haja interacção e socialização. Muitas vezes, um toque, um olhar ou um sorriso basta para nos dar alento".

Os residentes vão lá fora e passeiam, não estão obrigatoriamente na cama, mesmo os mais dependentes. Isso faz com que haja interacção e socialização. Muitas vezes, um toque, um olhar ou um sorriso basta para nos dar alento.
Isabel Beltrão, Directora-clínica do Complexo de Santa Bárbara

Nesse sentido, a unidade de cuidados continuados desenvolveu uma metodologia psico-terapêutica alternativa, a que dão o nome de "mindfulness", que aposta numa série de exercícios de relaxamento e descontracção, para minimizar a terapêutica do comprimido e maximizar o bem-estar dos utentes. Os resultados, garante a directora-clínica, são mais do que satisfatórios. "Não só lhes dá muito mais tranquilidade, como as ajuda a interagirem umas com as outras", especifica.

Para Ana Júlia Ramalho, 82 anos, essa interacção é fundamental. "Estou aqui há cinco meses e gosto muito. Saímos daqui sempre que precisamos e convivemos muito uns com os outros", conta a ex-professora primária, que divide o quarto número 26 com a sua irmã, Amélia Ramalho, de 86 anos.

A falta de apoio e a desresponsabilização das famílias [são um problema para alguns residentes]. Temos casos em que a família deixou o seu parente e nunca mais apareceu. Outro problema é os valores das pensões, que são muito baixos. 
Verónica Candeias, Assistente social

As irmãs mantêm o contacto com a família e amigos. Mas não é assim em todos os casos. Verónica Candeias, assistente social no complexo, há dois anos, conta que "a falta de apoio e a desresponsabilização das famílias" é um problema para alguns residentes. "Temos casos em que a família deixou o seu parente e nunca mais apareceu", relata Verónica, acrescentando que as dificuldades financeiras também são uma realidade. "Os valores das pensões são muito baixos", concretiza a assistente social.

Com um custo médio mensal de 1.300 euros por cama, a crise não passou ao lado do Complexo de Santa Bárbara, obrigando a uma gestão ainda mais rigorosa dos recursos, focada na sustentabilidade e na eficiência operacional. "Com ar de brincadeira, costumo dizer ao meu pessoal que controlo isto ao pau de fósforo. Não faltando nada, tentamos ser rigorosos, porque só assim é possível manter estas unidades", argumenta Isabel Beltrão. As medidas implementadas, como a utilização de painéis solares e água dos furos, "já resultaram em poupanças significativas", garante.

Como fez mais com menos

Gastar o necessário, mas não estragar

O Complexo de Santa Bárbara não ficou à margem das dificuldades, e teve mesmo de baixar a mensalidade de alguns residentes para que eles se pudessem manter na unidade. O segredo, explica, Isabel Beltrão, é "gastar o que é necessário, mas não estragar". "Utilizamos todos os nossos recursos e tudo o que precisamos de forma racional", acrescenta a directora-clínica da AMETIC. A gestão dos recursos humanos também requer cuidados. "Não temos três elementos se precisamos só de dois", sublinha Isabel Beltrão. A empresa desenvolveu o SUSTIC, um sistema composto por cinco "clusters" - meio ambiente, equipa, instalações e equipamentos, economia e finanças, e conformidade legal - que actuam em conjunto para a prática da sustentabilidade e que são a base da gestão da empresa.

Pontos fortes

A instituição destacou-se pela  "abordagem holística aos cuidados continuados", tendo em conta as instalações, os serviços e as preocupações pela sustentabilidade financeira e ambiental.

Aqui, um sorriso vale mais do que mil terapias

Eficiência operacional

Na AMETIC, há uma grande preocupação com a sustentabilidade económico-financeira e com a eficiência operacional. No complexo são utilizados painéis solares e água de dois poços. A gestão dos recursos humanos também é cuidadosa.

Primado do sorriso

A AMETIC privilegia o primado do sorriso. Criou uma grelha de monitorização do humor e uma metodologia, 'mindfullness', para diminuir a utilização de comprimidos através de técnicas que aumentam o bem-estar, reduzindo a ansiedade, as insónias e a dor.

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