Hospital Litoral Alentejano: Onde o doente é visto como um todo

Programa de gestão de caso para doentes crónicos com multimorbilidade, um projecto que envolve vários serviços dispersos, permite "fazer melhor com menos" dinheiro.
Hospital Litoral Alentejano: Onde o doente é visto como um todo
O enfermeiro tem um papel central neste projecto que já permitiu reduzir consideravelmente as idas às urgências do hospital.
Inês Gomes Lourenço
João Barbosa 11 de outubro de 2018 às 15:10
Ainda é cedo para tirar conclusões definitivas sobre a avaliação global dos seus benefícios mas o "programa de gestão de caso para doentes crónicos com multimorbilidade" - vitorioso no Prémio de Saúde Sustentável, na categoria de Projectos Especiais Integrados - está a cativar pacientes do Litoral Alentejano.

Este programa, realizado em parte da área de abrangência do Hospital do Litoral Alentejano (HLA), une pacientes, cuidadores, valências médicas e de Segurança Social. Este serviço permite a coordenação de diversos serviços que têm estado separados. Adelaide Belo, a médica coordenadora deste trabalho, explica que, através desta iniciativa, o doente é visto como um todo e não parcelarmente.

Adelaide Belo diz existir uma necessidade clara de coordenação das actividades, nomeadamente devido às questões demográficas. Esta é uma resposta ao aumento da esperança de vida e das consequências que acarretam o envelhecimento, nomeadamente mais do que uma doença crónica.

Adelaide Belo salienta que não há ainda muitos dados para comparação, mas garante que se verifica uma poupança de 2.558 euros por doente equivalente/ano. "Fazemos melhor e com menos", diz. "Há uma evolução da medicina que leva a uma sobrevida das pessoas. Verifica-se um envelhecimento da população. Isto tem um custo, que é o aumento das doenças crónicas e o aumento da necessidade do cidadão em recorrer aos serviços de saúde", salienta a coordenadora do programa.

Para responder ao problema, o modo de operação comum, em que cada especialidade funciona separadamente, não serve para responder aos problemas destas pessoas, diz Adelaide Belo. No âmbito do Serviço Nacional de Saúde, "os cuidados estavam organizados em silos; cuidados de saúde primários, cuidados hospitalares e Segurança Social. Estes silos não falam uns com os outros. Este projecto o que faz é, essencialmente, reorganizar os serviços, de modo a que haja uma coordenação entre os vários níveis de cuidados".

O papel do enfermeiro

O enfermeiro tem, neste modelo, uma função de pivô e um papel fundamental, pois é quem operacionaliza a ligação entre os doentes e os serviços. O sistema implica que a comunicação seja fácil e para uma resposta rápida. Todos os elementos das equipas têm e-mails e pastas partilhadas. Têm acesso a computador com VPN, o acesso ao processo do doente na sua casa. Existe também a hipótese da realização de videoconferência. Pessoas em estado terminal ou institucionalizada estão fora do âmbito deste programa. Aos doentes, que podem estar abrangidos, é-lhes apresentada a hipótese de entrarem no programa.

Os pacientes têm um plano personalizado. Eles e os cuidadores são informados acerca das doenças, dos medicamentos e dos sinais de alerta de entrada em descompensação.

Os dados que podem ser comparados são, por agora, poucos, mas há indicativos: dos 43 doentes registou-se um recuo de 66,6% das idas à urgência hospitalar; menos 77,1% de idas ao serviço de urgências básico de Odemira; 52,4% dos internamentos, com redução da demora médica em dois dias.

Adelaide Belo licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa. É assistente graduada sénior de Medicina Interna, desde 1998 e exerceu diversos cargos de chefia em unidades de saúde.

O HLA serve os cinco concelhos do litoral alentejano, mas apenas Odemira e Santiago do Cacém, estão no programa, desde o começo deste ano. Adelaide Belo espera o alargamento total em Janeiro de 2019.

Toda uma equipa envolvida 

Os doentes crónicos com multimorbilidade da área de abrangência do Hospital do Litoral Alentejano são agora acompanhados como um todo. Este programa envolve médicos de medicina geral, medicina familiar, medicina interna e técnicos da Segurança Social.  Um programa que tem nos enfermeiros o ponto de união dos doentes, os cuidadores - habitualmente familiares - e os profissionais das diferentes áreas. Toda a equipa está provida de meios de comunicação integrados. Assim, consegue-se um contacto rápido entre todos os elementos. Esta iniciativa pretende responder ao crescimento das situações derivadas do aumento da esperança de vida e das implicações, ao nível da saúde, que daí derivam.