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Prémio Saúde Sustentável: A palavra aos vencedores

Quatro exemplos de projetos vencedores do Prémio Saúde Sustentável que mostram como o reconhecimento pode alimentar as instituições e manter vivo o fogo da inovação.

Filipe S. Fernandes 28 de Setembro de 2020 às 15:00
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O Prémio Saúde Sustentável realiza-se desde 2012 e já premiou quase sete dezenas de instituições prestadoras de cuidados de saúde, divulgando e incentivando as melhores práticas para a sustentabilidade da saúde em Portugal. Numa viagem ao passado, ficamos a saber que a Farmácia da Cumieira, em Fafe, que em 2017 viu premiada a sua Preparação Individualizada da Medicação, continua com novos projetos e práticas que têm como principal objetivo servir os seus utentes conforme as suas necessidades. A USF da Baixa, em Lisboa, que inovou em Portugal com a Prescrição Social mostra como esta metodologia funcionou e deu resultados durante a pandemia e tem o sonho de que se reconheça o papel essencial da prescrição social nas políticas de saúde nacionais. O programa de gestão de caso para doentes crónicos com multimorbilidade da Unidade de Saúde Local do Litoral Alentejano ganhou mais recursos e maior visibilidade e tem feito formação para que haja outras experiências. A SPEM aproveitou a crise pandémica para se tornar mais digital, partilhar projetos com outras associações e entidades e preparar-se para ser a melhor IPSS para trabalhar.

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"A farmácia é a mão longa do SNS"

O serviço da Farmácia da Cumieira foi reconhecido pelo Infarmed.
O serviço da Farmácia da Cumieira foi reconhecido pelo Infarmed.

2017: 6.ª edição do Prémio Saúde Sustentável
Categoria: Cuidados Primários
Vencedor: Farmácia da Cumieira
Projeto: Preparação Individualizada da Medicação (PIM)

Três anos "depois, a farmácia continua a disponibilizar a PIM, sendo os lares de idosos os principais utilizadores deste serviço", diz Olga Baptista, diretora técnica da Farmácia da Cumieira em Fafe. A PIM é um sistema personalizado de dispensa de medicamentos para resolver o problema da falta de adesão terapêutica. Com o seu blister semanal ajuda a organizar a vida dos idosos polimedicados, que tomam mais de cinco comprimidos por dia.

O projeto arrancou, em janeiro de 2011, na unidade de cuidados continuados de Nespereira, em Guimarães, e foi manual até 2015, quando passou a usar uma plataforma digital. A expectativa de Olga Baptista era a de que o Prémio Saúde Sustentável pudesse "demonstrar a importância e a mais-valia deste serviço e, com isso, impulsionar a sua implementação a nível nacional".

No entanto, "infelizmente, nenhuma entidade local ou nacional demonstrou interesse em perceber os ganhos em saúde e redução de gastos gerados. Entretanto, houve uma pequena evolução, o serviço foi reconhecido pelo Infarmed e foram elaboradas normas para a PIM pela Ordem dos Farmacêuticos", conta Olga Baptista.

Como refere Olga Baptista uma das dificuldades de crescimento da PIM relaciona-se com o financiamento. "Este serviço tem um custo reduzido, mas a maioria dos utentes de balão, que mais beneficiariam dele, têm rendimentos baixos. Para este serviço chegar a um maior número de utentes é preciso um apoio financeiro local ou nacional", conclui.

Novos serviços

Durante o período mais crítico da pandemia de covid-19, para garantir que a farmácia se mantinha em funcionamento, a equipa foi dividida em duas que nunca se cruzavam, e adotaram todas as medidas previstas no plano de contingência da ANF. Para os utentes que tinham medo de se deslocarem à farmácia passaram a fazer entregas ao domicílio através de CTT Expresso ou pessoalmente, pelo "Drive-in - Vá à Farmácia".

Olga Baptista conta nos primeiros meses a afluência à farmácia foi elevada em busca de máscaras, desinfetantes e luvas. Estes produtos rapidamente esgotaram ou ficaram com preços exorbitantes. Para fazer face à rutura dos desinfetantes compraram matéria-prima "que nos permitiu preparar o manipulado na farmácia, de acordo com as normas da OMS" a preços acessíveis.

Os novos projetos da Farmácia da Cumieira refletem os tempos em que se vive, por isso estão a desenvolver serviços em parceria com os centros de saúde de forma a minimizar os efeitos colaterais da diminuição do número de consultas médicas. "Estamos a trabalhar na implementação do serviço de acompanhamento de doentes crónicos (hipertensos - Unidade de Apoio ao Hipertenso, diabéticos) e rastreios de algumas patologias (exemplo, cancro do cólon retal). Tudo isto em sintonia com os médicos de família", sublinha Olga Baptista.


Programa com mais recursos humanos

O prémio “deu muito alento às equipas”, afirma Adelaide Belo.
O prémio “deu muito alento às equipas”, afirma Adelaide Belo.

2018: 7.ª edição
Categoria: Projetos Especiais Integrados
Vencedor: Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano
Projeto: Programa de gestão de caso para doentes crónicos com multimorbilidade

O programa de gestão de caso da Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano (ULSLA) tem vindo a crescer e a sedimentar-se, diz Adelaide Belo, a médica coordenadora deste projeto. "Começámos com todos os enfermeiros gestores de caso em tempo parcial. Já temos três enfermeiros gestores de caso com todo o horário (35 h) atribuído ao programa".

Apesar de este projeto ainda não ter chegado a todos os concelhos, têm parcerias com programas da comunidade, participaram em conferências nacionais e internacionais com comunicações orais ou pósteres sobre a atividade do projeto e os seus resultados e deram formação a profissionais para início de outras experiências noutros locais.

Este plano implicou uma coordenação entre os cuidados de saúde primários, cuidados hospitalares e Segurança Social e em que o enfermeiro tem um papel central na ligação entre os doentes crónicos com multimorbilidade e os serviços, utilizando todas as tecnologias possíveis.

"O Prémio Saúde Sustentável deu muito alento às equipas. Foi um reforço muito positivo para os profissionais envolvidos. Tínhamos começado há cerca de um ano, com muitas dificuldades, essencialmente de recursos humanos, o que implicava um grande esforço das equipas, quer hospitalar, quer dos Cuidados de Saúde Primários, para o manter", sublinha Adelaide Belo.

Os dados do projeto

Acrescenta que foi muito importante porque deu credibilidade e visibilidade interna e externa ao projeto e tornou visível que é possível reorganizar a forma como se prestam cuidados, de um modo mais coordenado entre os vários níveis de cuidados.

Como Adelaide Belo mostrou, a coordenação dos cuidados permite uma prestação mais adequada às necessidades dos doentes e cuidadores. "Comparando os dados relativamente a 365 dias, antes da entrada no projeto há uma redução de cerca de 60% de idas ao serviço de Urgência e de 50% dos internamentos hospitalares e de 56% dos dias de internamento".

Com a crise pandémica, este projeto teve de se adaptar. Os enfermeiros gestores de caso, tal como outros, ficaram assoberbados de trabalho, dado que mantiveram a sua atividade no projeto e tiveram de ajudar noutros postos de trabalho, nomeadamente nas áreas covid dos Centros de Saúde e nos Serviços de Urgência Básicos de Alcácer e Odemira.

No período mais crítico não havia contacto presencial mas encontraram-se "outras formas de os manter controlados e acima de tudo calmos e confiantes de que alguém continuava a ter disponibilidade para eles", diz Adelaide Belo. Refere que ainda não têm "dados científicos", mas temos a perceção de que não houve um aumento significativo de idas ao Serviço de Urgência ou internamentos, por descompensações".


Uma resposta para todos os tempos

A USF da Baixa continua a ser um projeto local que depende da motivação dos envolvidos.
A USF da Baixa continua a ser um projeto local que depende da motivação dos envolvidos.

2019: 8.ª edição do Prémio Saúde Sustentável
Categoria: Cuidados Primários
Vencedor: USF da Baixa
Projeto: Prescrição Social

O primeiro projeto de Prescrição Social em Portugal teve início em 2017, sem fundos ou prémios para os profissionais ou entidades envolvidos e hoje abrange 30 mil habitantes de Lisboa através das Unidades de Saúde Familiar da Baixa e Almirante. Assim se mantém. "Continua a ser um projeto local, sem financiamento próprio, sem mais recursos humanos e dependente unicamente da motivação e compromisso dos profissionais e parceiros envolvidos desde o início", diz Cristiano Figueiredo médico de Família na Unidade de Saúde Familiar (USF) da Baixa.

Nascida para dar resposta às necessidades não médicas dos seus utentes, a Prescrição Social conseguiu concretizar uma verdadeira integração de cuidados entre a USF da Baixa e o setor social e solidário como associações, ONG, IPSS e até juntas de freguesia, "criando uma rede de prestadores de cuidados verdadeiramente centrada na pessoa e não na doença", diz Cristiano Figueiredo.

Através desta rede é possível uma pessoa com um problema de saúde ser atendida na USF da Baixa, mas se apresentar uma necessidade social, emocional ou prática, como desemprego, isolamento social, dificuldades na língua portuguesa, cuja resolução está fora do âmbito do SNS, a USF da Baixa encaminha para um parceiro na comunidade que ajude a pessoa a resolver o problema. "Esta ligação é mediada pelo assistente social da própria unidade de saúde, sendo um elemento fundamental para a concretização da Prescrição Social", descreve Cristiano Figueiredo.

O caminho certo

"Este prémio foi o merecido reconhecimento pelo tempo e energia investidos por todos e cada um de nós nesta iniciativa bottom-up. De certa forma, o prémio ajudou-nos a perceber que estávamos no caminho certo", diz Cristiano Figueiredo.

Todavia, sublinha que esperava que o Prémio Saúde Sustentável "ajudasse a escalar o projeto dentro do SNS, num crescimento centrífugo, isto é, começando pelo Agrupamento de Centros de Saúde Lisboa Central e alargando-se progressivamente para a restante Administração Regional de Saúde de Lisboa de Vale do Tejo".

"Durante o estado de emergência, a Prescrição Social conseguiu dar resposta a múltiplos pedidos de ajuda alimentar e na compra de medicação para os nossos utentes mais desfavorecidos, como desempregados e imigrantes, e vulneráveis, como idosos isolados, doentes com patologia mental grave, através duma articulação exemplar com a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior e outras associações locais", revela Cristiano Figueiredo.


A melhor IPSS para se trabalhar

A SPEM lançou entretanto o projeto Mover Montanha.
A SPEM lançou entretanto o projeto Mover Montanha.

2019: 8.ª edição do Prémio Saúde Sustentável
Categoria: Projetos Integrados Especiais
Vencedor: Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla
Projeto: Cuidados Integrados de SPEM

"Queremos construir uma empresa social, à parte da IPSS, em jeito de Serviços Partilhados de Solidariedade e Segurança Social (SP3S), que consiga prestar serviços a IPSS reduzindo os custos, partilhando recursos, pessoas, locais, instalações, etc. E, muito mais importante, queremos ser a melhor IPSS para se trabalhar", disse Paulo Gonçalves, vice-presidente da SPEM.

Este projeto vem na senda dos cuidados integrados que a SPEM presta com equipas multidisciplinares que fazem apoio social, domiciliário, psicológico, de nutrição, fisioterapia e um conjunto de atividades ocupacionais.

O impacto da covid-19 em março passado "foi um choque brutal. Obrigou-nos, como a quase todos, a fechar. Tínhamos e temos uma obrigação de continuar a ter colaboradores a ir a casa das pessoas para alimentação, medicação, terapias, transportes para acesso a cuidados de higiene e saúde imprescindíveis. E isso continuou. Um orgulho imenso nos nossos guerreiros insuperáveis que se mantiveram na linha da frente".

O impacto da pandemia

Esta nova forma de vida obrigou a SPEM a virar-se para o digital. "Todos os nossos serviços se transformaram. Com instalações encerradas, migrámos muito para o digital, mantendo o indispensável no terreno. A adesão foi incrível. Tivemos a maior celebração do mês de maio (30 de maio é o Dia Mundial da Esclerose Múltipla) de atenção à patologia. Desde conferências, concertos, aulas, exercícios, físicos e cognitivos, consultas, etc. O outro lado da moeda foi o impacto nas pessoas que deixaram de ter consultas médicas, tratamentos, etc., porque parou tudo. A pandemia acentuou as discrepâncias de acesso a cuidados. O digital consegue minorar mas demonstra-o claramente", refere Paulo Gonçalves.

Mas esta transformação permitiu que a SPEM se focasse em ideias que fazem sentido mas que não saíam do papel, contactando associações de doentes crónicos e entidades públicas e privadas. Além da entrega de medicamentos às Pessoas com EM (PcEM) e a Operação Luz Verde com a Ordem dos Farmacêuticos e a ANF, com a SPEM como pioneira, dinamizou um protocolo multiassociações de doenças do cérebro que junta associações de doenças do cérebro para partilha de recursos e boas práticas.

Lançou também o projeto Mover Montanha que se dirige "àqueles que têm de ir aos hospitais fazer perfusão (intravenoso em hospital de dia). Muitos não têm condições para as deslocações. Adicione-se os perigos da pandemia. Por último e mais importante, o estado em que ficam para ter de fazer viagem de regresso, por vezes em 3 ou 4 transportes públicos". O objetivo é demonstrar que é mais sustentável fazer com que um medicamento seja enviado de um hospital de referência de Lisboa para o hospital mais próximo do doente para que o tratamento seja feito em proximidade.

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