Santa Casa de Pedrógão Grande: Profissionalizar a relação com a pessoa cuidada

Unidade de Cuidados Continuados de Longa Duração e Manutenção desta misericórdia da região centro está a desenvolver um projecto de implementação da metodologia de cuidado Humanitude desde 2016.
Santa Casa de Pedrógão Grande: Profissionalizar a relação com a pessoa cuidada
A média de idades dos pacientes deste projecto, que envolve 34 colaboradores, é de 75 anos. Já foi atendido um doente com 104 anos.
Ricardo Almeida
Dora Troncão 11 de outubro de 2018 às 15:00
A metodologia Humanitude faz a diferença na forma como prestadores de cuidados de saúde e pessoas cuidadas se relacionam na Unidade de Cuidados Continuados de Longa Duração e Manutenção da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande. A profissionalização desta relação é a palavra de ordem. A forma como se olha, fala e toca a pessoa cuidada é estudada e uniformizada por todos os 34 colaboradores da unidade. A Humanitude é aplicada a pessoas com vulnerabilidade e dependência e é precisamente nestas que se notam os maiores ganhos.

Desde 2016 que a Unidade de Cuidados Continuados de Longa Duração e Manutenção da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande desenvolve um projecto de implementação da metodologia de cuidado Humanitude. Esta é uma metodologia relacional que vem dar resposta a uma preocupação dos cuidadores profissionais de saúde. "Muitas vezes, os profissionais têm a preocupação de fomentar a relação durante os cuidados, mas a relação não está devidamente profissionalizada na abordagem à pessoa vulnerável, dependente, frequentemente com processos demenciais e cognitivos associados", explica Liliana Henriques, enfermeira coordenadora da Unidade de Pedrógão Grande.

Existem quatro pilares fundamentais nesta metodologia - olhar, toque, palavra, aos quais se junta o pilar identitário que é a verticalidade. O que a Humanitude ensina é como profissionalizar a relação com a pessoa cuidada através da profissionalização destes pilares. O método é aperfeiçoado em permanência com o contributo de todos os 34 colaboradores. "Assim como um actor profissionaliza o corporal, a forma de falar e de se relacionar, os profissionais de saúde também têm de o fazer para se adaptar às pessoas que estão a cuidar", sublinha Liliana Henriques.

Sempre que substituímos alguém estamos a destruir e não a construir a Humanitude dessa pessoa. Liliana Henriques
Enfermeira coordenadora da UCCLD da Santa Casa de Pedrógão Grande 

Todavia, isto não significa que não há personalização no tratamento. "A base, a técnica da profissionalização, funciona sempre, conseguimos, através desta metodologia, que a pessoa cuidada se sinta mais pessoa", enfatiza a enfermeira. "Fazemos reuniões mensais em que tentamos perceber o que podemos melhorar, como podemos evoluir, o que funciona para uma determinada situação", detalha.

"Graças à metodologia Humanitude, além do reflexo positivo nas pessoas que estamos a cuidar, enquanto cuidadores sentimo-nos mais capacitados e confiantes porque temos o conhecimento e dominamos as técnicas", acentua.

"Sempre que substituímos alguém em algo que poderia fazer, estamos a destruir e não a construir a Humanitude dessa pessoa", diz ainda a coordenadora. Por este motivo, o quarto pilar da metodologia Humanitude - o da verticalidade - é "fundamental", acentua, porque "enquanto pessoas, a verticalidade sempre foi importante na nossa evolução e, na unidade, defendemos que a pessoa deve viver e morrer de pé porque a perda de verticalidade faz com que passe por uma espécie de luto por não se levantar ou caminhar, é destrutivo daquela pessoa". "A verticalidade é motivo de alegria porque significa que a pessoa consegue tomar banho de pé, levanta-se da cama, pode dar alguns passos e é muito importante na construção da identidade da pessoa, ao nível do impacto físico e emocional", acrescenta.

"Através desta metodologia fazemos com que a pessoa se sinta mais pessoa porque em casos com processo cognitivo-amnésico e demencial instalado, muitas vezes o que é mais primitivo está presente, conseguimos a manutenção das capacidades, ajudamos a manter e não perder com a mesma progressão e, mais uma vez, com muito enfoque na relação porque é mais fácil estabelecer uma relação com essas pessoas quando estão verticalizadas, ou seja, olho no olho", conclui.

Dos 18 aos 104 anos de idade 

Esta Unidade de Cuidados da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande acolhe pessoas dos 18 aos 104 anos de idade - sim, já tiveram um paciente com esta idade.  Desenvolve, desde 2016, um projecto de implementação da metodologia Humanitude, uma metodologia relacional que vem dar resposta a uma preocupação dos cuidadores profissionais de saúde, nomeadamente a profissionalização da relação com as pessoas cuidadas. Actualmente, a unidade dispõe de 34 colaboradores para cuidar de 32 pessoas. A média de idades dos pacientes na unidade é, neste momento, de 75 anos e as patologias vão desde as oncológicas à saúde mental, a processos demenciais, mas também síndromas cognitivo-amnésicos em diferentes graus de evolução.