Carlos Maia conta com uma experiência profissional de 22 anos e é o responsável pela prestação de serviços profissionais pela PwC às empresas de seguros em Portugal, Angola e Cabo Verde.
Qual é a análise que faz à situação actual do sector segurador em Portugal?
Segundo a ASF, a produção dos seguros em Portugal ascendeu a 10,8 mil milhões de euros em 2016, cerca de 14% face a 2015. O decréscimo significativo na produção do ramo vida, cerca de 23%, resulta, essencialmente, da diminuição na comercialização de produtos de capitalização (aforro), como consequência da entrada em vigor do regime de Solvência II e dos respectivos requisitos de capital associados à venda de produtos de poupança com taxa garantida. A actual curva de taxas de juro, baixa, não alicia a comercialização de produtos com taxas garantidas. Os requisitos de capital associados a estes produtos são significativos.
Nos ramos reais, o crescimento da produção de cerca de 5% deverá estar intrinsecamente ligado ao crescimento do produto interno bruto, sendo o desvio positivo em 2016 explicado pelo aumento da tarifação dos acidentes de trabalho. Continua a existir uma competição muito agressiva no segmento de ramos reais, a qual condiciona as margens técnicas obtidas, não permitindo, num contexto de baixas taxas de juro e reduzidas margens financeiras, a obtenção de retornos sobre os capitais próprios atractivos. Neste enquadramento, mantém-se a tendência de concentração nestes ramos, que permita a obtenção de economias de escala e o consequente incremento do retorno sobre os capitais investidos..
Quais são os principais desafios para o futuro?
O sector enfrenta alguns desafios importantes, os quais deverá encarar como oportunidades, de forma a assegurar a cobertura de riscos com excelência, melhorando o grau de satisfação dos segurados, incrementando o retorno dos capitais investidos pelos accionistas e motivando a contratação de talentos.
Outros desafios são antecipar a evolução tecnológica ("big data", "blockchain", sensores, robótica, …), desenhando produtos inovadores, criando estratégias multicanal (agentes / corretores, bancasseguros, smartphones, tablets) que permitam endereçar as necessidades de consumidores mais interventivos (e digitais), com "menores custos de produção" (em parceria com /ou integrando "insurtechs"); captar talentos na área da análise de informação não estruturada, que permitam a construção de tarifas mais adequadas aos riscos a cobrir; Melhor modelização de riscos catastróficos e ambientais; assunção de novos riscos (ex: cibernético); actuar de uma forma mais activa como entidades catalisadoras da prevenção da concretização de riscos (de acidentes rodoviários, problemas de saúde, etc.), monitorando os comportamentos dos segurados, através de dispositivos tecnológicos e aconselhando a práticas que impliquem menos riscos; oferecer produtos de aforro que complementem a pensão, previsivelmente mais reduzida, da segurança social, tendo naturalmente em atenção uma gestão activo - passivo equilibrada e os requisitos de capital de solvência II e aproveitando os benefícios fiscais associados a uma tributação mais reduzida, à saída, deste tipo de produtos; embutir o "compliance" com os requisitos regulatórios (exemplos: novo regime de solvência II, novo normativo de relato financeiro (IFRS 17), nova directiva de distribuição, novo regulamento geral de protecção de dados europeu) no processo de negócio (de produção e comercialização) de seguros.