Mário Negreiros 30 de Agosto de 2005 às 14:28

Se a TVI é Portugal?

O recurso persistente do “Expresso” à famosa “uma fonte” - nesse caso, “uma fonte do PSD” - priva-nos de conhecer a cara de quem disse, a propósito da promessa de venda da TVI aos espanhóis da Prisa, que “teremos 30 por cento da audiência portuguesa a rec

O recurso persistente do "Expresso" à famosa "uma fonte" - nesse caso, "uma fonte do PSD" - priva-nos de conhecer a cara de quem disse, a propósito da promessa de venda da TVI aos espanhóis da Prisa, que "teremos 30 por cento da audiência portuguesa a receber o impacto de uma cultura diferente".

Não chega a estar explícito mas o contexto autoriza a dedução de que terá sido com ar preocupado que "a fonte do PSD" terá dito isso. No mesmo contexto, é de se supor que, aos olhos da "fonte do PSD", a programação da TVI reflicta a cultura portuguesa, que, como tal, deve ser protegida de "impactos" de culturas "diferentes".

PUB

A ideia de que, a esta altura, culturas "diferentes" ainda nos "impactem" e de que devamos nos proteger desses "impactos" é, em si mesma, muito discutível. Mas mesmo que se admita que somos muito puros e, portanto, vulneráveis aos "impactos" das culturas "diferentes", convinha separar o que em nós deva ser preservado daquilo que em nós não vale a ponta de um corno - nomeadamente, a programação da TVI - e que, portanto, deva ser alvo desejável de todos os impactos do mundo. Fazer da TVI uma bandeira da afirmação patriótica portuguesa consegue, ao mesmo tempo, ser um insulto à Pátria e um indício veemente de que o patriotismo é mesmo o último refúgio do canalha.

Se a opção é entre o "impacto" de uma "cultura diferente" e as porradas de mau gosto, sensacionalismo, desrespeito, boçalidade, indecência e falta de escrúpulos com que a TVI nos agride todos os dias, que venham as culturas "diferentes".

Verdadeiramente estranha é a celeridade com que o Estado português, na pessoa do seu governo, antecipou a renovação da concessão da TVI. Trata-se de uma emissora que, notoriamente, violou os critérios que supostamente orientam a concessão de licenças de exploração de canais de televisão, e o mínimo que merecia era uma desconfiança tão grande ou maior do que a que o Estado me devota a mim, mero e bruto cidadão.

PUB

A "fonte do PSD" desconfia que o governo tenha acelerado as coisas para facilitar o acordo entre a Media Capital e a Prisa. Se essa versão se confirmar pode-se acusar o governo de sacrificar os meios em nome dos fins, o que é sempre muito feio, mas nem por isso se poderá falar mal dos fins - impor o "impacto" de uma cultura "diferente" à TVI é fim nobilíssimo a perseguir. O que é estranho é que bastava não renovar a concessão para, com meios legítimos, atingir o mesmo fim.

PS: Tenho amigos que trabalham na TVI e tomo Miguel de Sousa Tavares como o melhor e mais livre comentador da televisão portuguesa.

PPS: O que fazem os andaimes montados pela Câmara de Oeiras há cerca de um mês e meio (a três meses das autárquicas) à volta do abandonado Palácio do Egipto se, até hoje, que me tenha apercebido, ninguém trabalhou neles?

PUB

PPPS: Quanto custam três meses de aluguer de um andaime?

PPPPS: Colados aos andaimes, folhas de papel pedem "o favor" de não estacionar junto aos mesmos. Junto aos mesmos é, muito antes de os andaimes lá terem sido postos, um passeio onde sempre foi proibido estacionar.

Pub
Pub
Pub