Adolfo Mesquita Nunes 05 de Junho de 2017 às 19:27

A galinha dos ovos de ouro 

Devemos olhar para o turismo como indústria, como economia, como área de inovação e conhecimento. Ou seja, devemos estar na vanguarda das políticas de turismo.

Mais de metade do saudado crescimento que tivemos no primeiro trimestre, o tal de 2,8%, vem do turismo.

 

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Convinha retirar algumas conclusões desse facto.

 

Em primeiro lugar, o turismo representa hoje, mais do que nunca, uma vocação estrutural do país e da nossa economia. É bom que assim seja, visto que temos mais recursos turísticos do que muitos dos países com que economicamente competimos, e isso é sinal de que os estamos a aproveitar (não, os dados não sustentam que o nosso turismo esteja a crescer assim por causa da crise do Médio Oriente, por mais apetecível que o argumento possa ser).

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Tendo esta vocação estrutural, devemos ser mais do que um mero destino turístico. Devemos olhar para o turismo como indústria, como economia, como área de inovação e conhecimento. Ou seja, devemos estar na vanguarda das políticas de turismo: adaptados às novas tecnologias, aderindo às modernas formas de promoção e gestão de destinos, inovando no acesso e no aproveitamento do "big data", transformando-nos num destino inteligente, capaz de oferecer novas formas de estar e experimentar um destino.

 

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Assumindo o turismo como vocação estrutural da nossa economia, continuaremos a criar postos de trabalho que vão muito além da hotelaria e da restauração. Pensemos em marketing, publicidade, em novas aplicações, em novas ferramentas de geolocalização e de "mapping", no "big data", na estatística, tudo um sem-fim de áreas que podem crescer e criar oportunidades se deixarmos de ter complexos com esta coisa de sermos um país com um turismo robusto. 

 

Isso só se consegue se conseguirmos manter uma posição aberta à diferença, à mudança, à inovação. Se começarmos a desconfiar da iniciativa privada, se começarmos a querer proteger a oferta que está, deitaremos tudo a perder. Nenhuma economia, sobretudo numa área tão sensível à criatividade e inovação, consegue crescer no meio de excessivas limitações e desconfianças.   

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Em segundo lugar, o turismo representa hoje, mais do que nunca, condição essencial, vital, para o crescimento económico, para o equilíbrio da nossa balança, para a robustez da nossa consolidação orçamental. Sem ele, estaríamos muito pior.

 

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Tendo este papel de condição essencial, devemos ter mais cuidado na revisão ou reversão de políticas que permitiram a Portugal afirmar-se, tornar-se um caso de estudo na Organização Mundial de Turismo e subir seis lugares em quatro anos no "ranking" da competitividade do Fórum Económico Mundial.

 

Nenhuma política é imutável, nenhuma deve estar a salvo de adaptações e evoluções, e é evidente que há muitíssimo a fazer na gestão urbana do desafio turístico, mas é necessário um cuidado suplementar quando o turismo desempenha este papel essencial na economia.

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Convinha pois que algumas das ideias que por aí andam (mais no Parlamento do que no Governo, diga-se), e que passam por reverter simplificações e flexibilizações e liberalizações que permitiram à economia crescer e a muita gente encontrar destino profissional, fossem criteriosamente estudadas. Repete-se muitas vezes que é preciso não matar a galinha dos ovos de ouro. Pena é que muitos dos que usam essa frase sejam os primeiros a propor medidas que nunca resultaram em lado algum e que acabarão, elas próprias, por dar cabo da galinha. Nada contra a mudança de políticas, convinha era que se estudassem as consequências.

Em terceiro lugar, se o turismo tem este papel determinante na composição do nosso crescimento, seria mais justo fazer realçar o papel do sector privado neste crescimento, sem o qual o turismo não teria o comportamento que teve, em vez de querer criar a ilusão de que ele corresponde integralmente a uma qualquer mudança de políticas.

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Advogado

 

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Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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