Edson Athayde 06 de Março de 2017 às 19:50

As cem maneiras de se matar um gato

Queremos lucro acima de tudo ou lucro a proteger o planeta? Queremos lucro para a felicidade dos acionistas ou a promover uma empresa com colaboradores felizes? Queremos lucro e, até por isso, fazemos mau, feio e barato ou, muito por causa disso, fazemos bom, bonito e caro?

Esta é a sua vida. E ela não é um filme indiano, é um filme de terror.

 

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Depois de muitos anos, a sua carreira chegou a um ponto em que uma das maiores empresas do setor onde atua lhe contratou. Para coroar o bom momento, foi chamado junto a mais outros 14 executivos para uma semana de formação, num hotel caro e longe.

 

Ao chegar ao seu quarto, descobre que há lá um presente especial: um gato. Sim, um gato vivo, desses que miam, bebem leite num pires e ronronam quando dormem.

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A explicação para a existência do gato é simples: todos os executivos convidados vão receber um. Nos próximos dias, todos vão ter de cuidar dos bichanos e no fim do curso vai ser pedida uma tarefa a atestar que aprenderam uma lição.

 

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Na sexta-feira, depois de uma semana de convivência, é revelada a missão: matar o gato.

 

A empresa quer saber se é capaz de cumprir ordens, de colocar os interesses da organização acima de tudo, que é um executivo de fibra, daqueles que sabem que o mundo não é para fracos.

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Ao chegar ao quarto, Tareco (foi assim que você batizou o bichano) está sentado na sua cama, parece uma esfinge, com o seu olhar penetrante, o rabo hirto a abanar. Dentro do casaco, você traz uma faca amolada, com o logótipo da empresa gravado no cabo.

 

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Matar ou não Tareco. Você decide.

 

A história acima é baseado num caso real. Não aconteceu comigo, graças a Deus, foi numa empresa em França. Soube dela através de uma entrevista no Público a um psiquiatra especialista em patologias mentais relacionadas com o trabalho. Segundo o médico, dos 15 executivos que participaram na ação, 14 mataram os gatos. Houve uma única exceção, uma mulher que colapsou ao ser confrontada com o desafio.

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Há algumas semanas, estive a conferenciar no auditório de uma empresa ligada ao setor de recursos humanos. O tema era "como fazer employer branding".

 

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Para quem não está familiarizado com o tema, o conceito de "employer branding" engloba todas as ações que as empresas executam para melhorar a fama como boas empregadoras.

 

Antigamente era mais fácil. Fulano trabalhava num lugar e dizia que recebia em dia. Isto bastava para que a empresa fosse bem referenciada. Depois de 40 anos lá, um pouco antes de morrer, o trabalhador recebia uma caneta ou relógio e ficava feliz.

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Hoje em dia, as empresas têm de estar sempre a desdobrar-se em ações, presentes, comunicações variadas, festas, convívios, sem falar em ter posições de vanguarda em tópicos como a proteção do meio ambiente, dos direitos civis, de proteção das minorias e etc.

 

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Não estou a dizer que isso está mal. Estou apenas a constatar o trabalho insano que tudo isto dá, sem falar que é como enxugar gelo: nenhuma empresa consegue agradar a todos os seus colaboradores, ao mesmo tempo, todo o tempo.

 

Aleguei na palestra que o importante era a empresa descobrir qual a sua narrativa própria e ocupar-se em fazer com que ela fosse percebida por todos.

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Não vou aqui armar-me em falso moralista. O objetivo de todas as empresas é o lucro. Mas, convenhamos, só dizer isto não quer dizer nada. Até mesmo a gradação desse objetivo estabelece o começo da história.

 

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Queremos lucro acima de tudo ou lucro a proteger o planeta? Queremos lucro para a felicidade dos acionistas ou a promover uma empresa com colaboradores felizes? Queremos lucro e, até por isso, fazemos mau, feio e barato ou, muito por causa disso, fazemos bom, bonito e caro?

 

As pessoas não são todas iguais, as empresas também não tem de ser. Mesmo a pessoa mais bonita tem um dedo torto, um dente partido, um lóbulo da orelha maior do que o outro.

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Ter uma história empresarial para contar não significa mentir, nem tentar fazer-se de santo. As pessoas não são tão burras como às vezes as imaginamos.

 

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Já gora, há um ditado húngaro que diz que há cem maneiras de se matar um gato, mas só uma dá prazer ao gato.

 

O melhor mesmo é não matar o próprio gato nem o de ninguém. Acho que não se deve exigir muito de uma empresa hoje em dia.

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Ou como diria o meu tio Olavo: "A motivação no trabalho é a arte de fazer as pessoas fazerem o que você quer que elas façam porque elas o querem fazer."

 

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Publicitário e storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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