Vender a alma, sugar o sangue
A grande força de “Sinners” está no facto de não ter medo de ser um filme com um olhar negro. Isso sente-se no humor, que não pede tradução, no ritmo, que obedece mais ao corpo do que à estrutura clássica, e na relação com a música, mais física, quase visceral.
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Existe uma lenda fundadora da música popular americana que atravessa décadas e continua a ecoar no cinema: a do guitarrista que vende a alma ao diabo numa encruzilhada em troca de um talento sobrenatural. A história está associada a Robert Johnson, figura mítica do blues, cuja curta vida e influência descomunal ajudaram a moldar a música moderna. Hollywood já havia romantizado esse imaginário em “Crossroads” (1986), transformando a tradição negra do blues numa espécie de rito de passagem quase folclórico, filtrado por um olhar branco curioso e respeitoso, mas inevitavelmente externo. Ali, o blues é fascínio, herança a ser decifrada, raramente experiência vivida no corpo.
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