António Moita 03 de Dezembro de 2018 às 19:30

A vacina dos deputados

Talvez fosse boa ideia, numa Assembleia da República que tudo quer investigar, que nos explicassem como é que isto aconteceu. Para que sirva de vacina aos deputados e não volte a acontecer.

Pensávamos nós ter o sistema imunológico preparado para evitar qualquer doença potencialmente grave que o nosso Parlamento estivesse a incubar e eis que somos surpreendidos com a notícia de que os deputados, num inexplicável exercício de excesso de zelo, entendem que os portugueses precisam de se precaver contra a meningite B, o rotavírus e o HPV sendo este último apenas para rapazes.

 

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Não se sabe bem que luz terá iluminado bloquistas e comunistas e feito arrastar atrás de si sociais-democratas, para abrir um precedente grave de consequências imprevisíveis. Confundir estudos técnicos com decisões políticas e, sobretudo, intuir necessidades em áreas tão delicadas como as da saúde pública sem ouvir quem de direito são procedimentos que gostaríamos de ver arredados da prática partidária.

 

É verdade que uma vez o orçamento aprovado na generalidade, Mário Centeno permitiu que os deputados se fossem entretendo com a elaboração de centenas de propostas que mais não eram do que a oportunidade de cada um falar para as suas clientelas. O Parlamento virou um jardim de infância e os deputados mais pareciam crianças a brincar aos orçamentos. De substancial não saiu nada de realmente importante para os contribuintes ou para o Governo.  Apenas o IVA das touradas e dos concertos e a obrigação de sentar à mesa Governo e sindicalistas em representação dos professores trouxeram momentos de alguma tensão com o Governo e em que foi ilusoriamente ilustrada a força do poder legislativo. Nada de grave, portanto.

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Mas a história das vacinas é uma "brincadeira" bem diferente e perigosa. Ao desprezar todas as regras que deveriam ter sido seguidas em matérias desta relevância, a maioria dos deputados mostrou estar disposta a tudo para brilhar, para criar a ilusão nos eleitores que estão a trabalhar em sua defesa ou ainda, o que seria gravíssimo, para sob a capa do interesse público se tornarem agentes dos interesses de uma indústria poderosa como a farmacêutica. A ser verdade o que se tem dito e escrito, apenas a indústria foi ouvida nesta matéria. Quem teria de se pronunciar, a Direção-Geral de Saúde e a Comissão Técnica de Vacinação, não o fez porque nem sequer isso lhes foi pedido. A Ordem dos Médicos considera um erro. Já percebemos que felizmente tudo isto vai dar em nada, isto é, mesmo havendo dinheiro para vacinas estas não vão ser incluídas no Plano Nacional de Vacinação. Mas talvez fosse boa ideia, numa Assembleia da República que tudo quer investigar, que nos explicassem como é que isto aconteceu. Para que sirva de vacina aos deputados e não volte a acontecer.

 

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Jurista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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