Armando Esteves Pereira 28 de Agosto de 2016 às 18:15

A montanha da Caixa

Os verdadeiros acionistas do banco publico, os contribuintes, só são chamados a pagar e nunca são ressarcidos dos erros de gestão.

I- Quando ouço um governante a dizer que a montanha de dinheiro que o Estado vai injetar na Caixa Geral de Depósitos não vai ter impacto no défice fico preocupado e meto a mão ao bolso para verificar a carteira, porque mais tarde ou mais cedo eu e todos os contribuintes portugueses seremos chamados a pagar a conta.

 

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Pode ser fácil omitir do défice os 2,7 mil milhões mais os 960 milhões de obrigações contingentes (as coco, que nome tão apropriado), mas a conta irá aparecer na crescente dívida pública.       

      

Uma das artes da governação em Portugal, comum a todos os governos, tem sido a omissão da verdadeira situação financeira do Estado no orçamento. Operações que costumam ser ruinosas para os contribuintes. Das escandalosas parcerias publico-privadas, autênticas concessões de rendas, ao endividamento de empresas públicas até manobras de contabilidade criativa que esconderam défices que agora são responsabilidade do Estado, como a nacionalização de fundos de pensões, os sucessivos governos de Portugal fazem escola na arte de escapar na revelação do verdadeiro estado das contas públicas. Verdadeiros Houdinis. O truque nem revela muita perícia, porque como se sabe os números das estatísticas quando devidamente torturados revelam aquilo que se pretende mostrar. O lixo pode-se esconder debaixo do tapete por algum tempo, mas chega a uma altura em que o tapete fica pequeno demais e tudo fica revelado. E os contribuintes pagam sempre com juros estas manobras de ilusionismo. O reforço de capital da Caixa não podia ser evitado até por causa das novas exigências europeias, critérios políticos que vão destruir o que resta dos pequenos bancos periféricos, mas há uma parte significativa destes milhões que são necessários por causa de colossais imparidades, geradas quer por erros estratégicos, quer por decisões dolosas na concessão de créditos ruinosos. E estas operações correm o risco de ficar branqueadas, porque os verdadeiros acionistas do banco publico, os contribuintes, só são chamados a pagar e nunca são ressarcidos dos erros de gestão.  

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II- A Caixa vai sofrer um brutal ajustamento de funcionários e de balcões. A lógica leva a que as agências com menos rentabilidade sejam as mais afectadas, mas tratando-se do banco público deve haver alguns critérios cautelares. Um deles terá de ser a permanência de balcões em todos os concelhos. Nas grandes cidades fecha um balcão, mas há outro a uma distância de três quarteirões, enquanto no interior o encerramento de um balcão significa a condenação dos clientes a peregrinações de dezenas de quilómetros. E não venham com o argumento das mudanças tecnológicas e do homebanking, pois as populações envelhecidas do interior nem sabem mexer, nem confiam no computador para tratar do seu dinheiro.      

 

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Por muito lamentável que seja, os bancos privados podem decidir onde querem estar, mas se a Caixa tem o estatuto de banco público e cobra por isso uma avultada quantia aos contribuintes, tem obrigações perante a Nação e um desses encargos tem necessariamente de ser a cobertura territorial de todo o país. Mesmo que algumas dezenas de balcões no interior não sejam rentáveis, há deveres que o Estado tem de fazer cumprir no banco que controla. E de qualquer modo esses eventuais prejuízos são apenas uma pequena gota de água do oceano de milhões que somos obrigados a pagar para o banco público.

  

Director-adjunto do Correio da Manhã

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Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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