José Veiga Sarmento
José Veiga Sarmento 09 de dezembro de 2019 às 17:48

Joacine perdeu a Palestina

Se houve a ilusão de que a retirada militar de Gaza abria caminho a um entendimento entre Estados, rapidamente o pesadelo voltou a impor-se. O Hamas não queria ser vizinho de Israel, queria simplesmente acabar com Israel.

Joacine absteve-se na condenação de Israel. Não bastava a dificuldade de não conseguir comunicar na Assembleia da República que é o templo da palavra; desta vez, não conseguiu sequer votar contra Israel, algo que é, como se sabe, uma condição existencial básica de qualquer extrema-esquerda nos dias de hoje. Estes mistérios não são de explicação fácil. Até porque para esta última falha, ter-lhe-ia sido preciso apenas levantar um dedo. Mas mesmo assim, não conseguiu.

 

Vale a pena relembrar que a solidariedade com os povos oprimidos da Palestina resulta, no entanto, do produto de uma narrativa fantasiosa que parte da premissa de que Israel conquistou a pátria da Palestina. Todos sabemos que a fé dispensa a confirmação factual. A fé é um acto individual, apesar de normalmente ser praticado em grandes grupos. A fé faz com que se aceite como inquestionável, algo que dispensa o selo da realidade. Para parte da esquerda ocidental, a fé na justeza da causa palestina, é por isso indiferente aos factos e à verdade histórica. Convém, por isso, recordar alguns dos factos históricos, acessíveis em qualquer consulta na internet:

 

1948, Criação do Estado de Israel

 

Em 29 de Novembro de 1947 foi colocada à votação nas recentemente criadas Nações Unidas, uma recomendação para que a Inglaterra – a potência administrante da Palestina (que por sua vez fazia parte do ex-império Otomano conquistado pelos aliados na 1.ª Guerra Mundial) – implementasse um plano de partição com vista à independência do estado de Israel. O resultado da votação, 33 a favor, 13 contra e 10 abstenções, consagrou a criação do moderno Estado de Israel, num recorte de território estranhamente irregular, mas que dava aos judeus, pela primeira vez em dois mil anos, um solo nacional, um refúgio para a criação de uma pátria, uma casa para os sobreviventes do genocídio nazi.

 

O território da Palestina era já desde os finais do século XIX um destino de emigração de judeus, animados pelo movimento político sionista, que aí se instalavam, comprando terras e exercendo as suas profissões, num Estado que foi Otomano até ao fim da I Guerra Mundial, passando depois a território árabe sob administração inglesa. Judeus e árabes conviveram normalmente até à declaração de 1947 das Nações Unidas, solução que não foi aceite pelos árabes. O que aos olhos do mundo era o mínimo que se poderia fazer para com as vítimas da mais louca saga assassina da História da Humanidade dirigida a um povo foi, no entanto, inaceitável para os árabes, instalados nessas terras há mais de mil anos. Com a declaração de independência a 14 de Maio de 1948, a resposta dos árabes dá-se logo no dia seguinte, numa acção militar com o objectivo de expulsar os judeus da Palestina. Os pacíficos vizinhos de ontem transformavam-se, de um dia para outro, em inimigos assassinos que durante 10 meses iriam travar escaramuças, havendo, de um lado, forças militares árabes, e do outro, cidadãos judeus transformados à pressa em guerrilheiros. Mesmo sem organização nem preparação, os judeus foram capazes de derrotar os árabes e conquistar de facto o direito a estabelecer o seu país no território que lhes havia sido atribuído pelas Nações Unidas. A partir daí, os judeus não tiveram dúvidas de que a sua existência dependeria de um exército com força suficiente para os proteger dos vizinhos. Os recortes das fronteiras da ONU deixaram, no entanto, uma grande exposição de pessoas e bens israelitas ao alcance das espingardas árabes. Apesar do ambiente hostil, tanto geográfico como humano, Israel vai crescer para se tornar uma potência económica regional, agrícola e industrial, e também militar. Os árabes que viviam como bons vizinhos nas terras que passaram a ser do novo Estado de Israel, vão fugir em massa em 1948, para campos de refugiados no Líbano, Síria e Jordânia, onde ainda hoje subsistem populações deslocadas dessa altura.

 

1967, A Guerra dos Seis Dias

 

Em Junho de 1967 uma coligação árabe, que compreendia a Síria, o Egipto, a Jordânia e o Iraque, e que contava com o apoio do Kuwait, da Arábia Saudita, da Argélia e do Sudão, prepara-se para destruir Israel quando foi surpreendida pela acção da aviação israelita que vai destruir a força aérea e os aeroportos egípcios. De imediato, Nasser ordena a evacuação do Sinai, sendo os exércitos egípcios aí estacionados, então em fuga, desbaratados pelas forças israelitas. A Jordânia, que tinha sido levada a crer que os egípcios estavam a levar a melhor, dá o início ao ataque, acabando por pedir logo de seguida, um cessar-fogo. O exército israelita na sequência destas movimentações militares, passou a ocupar os montes Golã, a faixa da Jordânia até à margem direita do rio Jordão, a egípcia faixa de Gaza e toda a península do Sinai. A desorganização árabe numa operação mal preparada termina numa humilhação total. Os chamados territórios ocupados, à excepção do pequeno, mas crítico, Monte Golã, nunca foram no entanto anexados, mantendo-se como territórios sob administração militar, até que uma solução política pudesse vir a ser adquirida. A verdade era que, em resultado do insucesso da agressão árabe, Israel tinha agora um forte argumento territorial para negociar o direito à sua sobrevivência.

 

1973, A Guerra do Yom Kippur

 

No dia da festa religiosa mais importante do calendário israelita, os exércitos do Egipto e da Síria, fortemente armados e treinados pela União Soviética, dão início a uma operação militar destinada a resolver de vez com a existência do Estado de Israel. Desta vez, a organização e a surpresa estava do lado dos árabes. A desforra da derrota de 1967 teria de ser absoluta e definitiva e ao fim de uma semana de batalhas, a derrota de Israel parecia iminente e o próprio herói da Guerra dos Seis Dias, o General e ministro da Defesa Moshe Dayan preparava-se para aceitar o pior. Valeu a intervenção da já idosa primeira-ministra, Golda Meir, no incitamento à resistência total, e o quadro militar mudou com a movimentação das tropas do General Ariel Sharon, que cortaram a ligação da coluna egípcia à sua fonte de abastecimento. Uma parte do exército israelita passa para o outro lado do canal do Suez e tem, assim, o Cairo à vista. Aqui entram em cena os Estados Unidos que com Kissinger, impõe aos israelitas a contenção e promove a salvação da face dos árabes, nomeadamente dos egípcios. A Guerra termina com uma vitória militar total israelita, mas numa solução política que vai permitir aos egípcios considerar que a sua intervenção foi heroica, de tal forma que ainda hoje se celebra no Egipto esta guerra como uma grande vitória. Aliás foi numa das cerimónias de comemoração desta data que o Presidente Sadat, suposto herói da Guerra de 1973, vai ser assassinado por um muçulmano que não lhe perdoa a assinatura dos acordos de Camp David uns anos mais tarde.

 

1978, Acordo de Camp David

 

Em Setembro de 1978, o Presidente Carter dos Estados Unidos, ao fim de mais de um ano de conversações, consegue reunir o Presidente egípcio Anwar Sadat e o primeiro-ministro de Israel, Menachem Begin, num acordo de paz entre o Egipto e Israel, que virá a consubstanciar-se no Tratado de 1979. Este tratado, que irá devolver o Sinai ao Egipto, prevê o estabelecimento de uma autoridade autónoma na Cisjordânia e em Gaza, reconhecendo os legítimos direitos do povo palestino e definindo as regras para o estabelecimento das relações entre Israel e os seus vizinhos. A situação de Jerusalém não foi nessa altura objecto do acordo. Apesar dos gestos históricos de amizade entre Sadat e Begin, as relações entre os antigos inimigos não foram resolvidas, situação que irá ser agravada com o assassinato de Sadat em 1981. As esperanças colocadas por Israel em obter o direito ao respeito pelos vizinhos desfaziam-se mais uma vez nos ódios seculares. 

 

1993, Acordos de Oslo

 

Os Acordos de Oslo, promovidos pela administração Clinton e assinados entre o Governo Israelita de Ytzhak Rabin e Shimon Peres e a Organização de Libertação da Palestina de Yasser Arafat, vão estabelecer um processo de progressiva transferência de poder na Cisjordânia e em Gaza para, em primeiro lugar, uma administração provisória a cargo da OLP e depois, para a administração que viesse a ser escolhida em resultado de eleições livres. Ytzahk Rabin vai pagar um preço idêntico ao que vitimou Sadat, pois será assassinado em 1995 por um extremista judeu que não perdoa o acordo de devolução do poder às autoridades palestinas, que aliás vão continuar a ignorar qualquer comprometimento quanto à segurança de Israel.

 

2005, Retirada Unilateral de Gaza

 

Não tendo havido avanços para a devolução da Cisjordânia – a braços com constantes revoltas e uma nova Intifada – vem, em 2003, o primeiro-ministro israelita Ariel Sharon propor a retirada unilateral de Gaza, medida adoptada pelo Governo em 2004 e pelo Parlamento em 2005. Os militares israelitas vão então sair de Gaza que fica sob a direcção total do partido de Arafat até à realização de eleições promovidas pela União Europeia; esta eleições vão no entanto dar a vitória ao partido extremista Hamas, apoiado pelo Irão, que, subsequentemente, irá expulsar ou assassinar a administração Arafat. A faixa de Gaza, suportada financeiramente pela União Europeia em comida e bens de primeira necessidade e por armamento pelos países do Golfo, não irá cumprir o sonho ocidental de ver nascer uma nova Suíça do Mediterrâneo. Pelo contrário, transforma-se numa plataforma de militarização e fanatização da população, em que a única razão de existência é a destruição de Israel e a expulsão dos judeus. Hoje em Israel, o balanço desta magnanimidade militar, tem um gosto muito amargo e contribuiu para o afastamento do poder dos pacifistas. Se houve a ilusão de que a retirada militar de Gaza abria caminho a um entendimento entre Estados, rapidamente o pesadelo voltou a impor-se. O Hamas não queria ser vizinho de Israel, queria simplesmente acabar com Israel.

 

O resto da história é a actualidade, com os mísseis de Gaza a cair sobre os civis em Israel, os ataques à bomba e com arma branca sobre as populações civis perpetrados por palestinianos e depois sempre a automática resposta de força esmagadora por parte do exército de Israel. Esta é aliás a parte que merece a atenção dos media ocidentais e dos movimentos de esquerda que promovem a causa Palestina, ignorando que está igualmente em causa a existência de Israel. Entre estes dois mundos, de um lado uma democracia onde o sistema judicial não tem problema em perseguir o primeiro-ministro com acusações de corrupção, e do outro, um universo nebuloso dominado pelo fanatismo religioso que não conhece regras nem respeito pela vida humana, há quem prefira o segundo. É uma opção que mereceria um pouco mais de reflexão.

 

Presidente da APFIPP

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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