[622.] O caso do vídeo dos preservativos Control
A mente humana é muito complicada. O vídeo duma "acção" da marca de preservativos Control no festival NOS Alive originou um "caso". Mas vejamos primeiro o anúncio televisivo da marca, uma presença habitual sem que haja qualquer notícia de queixa de espectadores.
O reclame mostra um casal em manobras eróticas na cama. Como de costume nestes anúncios, não ficam totalmente nus, cada qual com a sua cuequinha. Não há preservativo à vista e muito menos a sua colocação no devido lugar. Não. Só carinho, a sugestão de que há ali amor. Sendo um anúncio de preservativos, ninguém hesitará em vê-lo como preliminares do acto sexual. O anúncio preserva o "gosto" e bons costumes actuais, esteticizando a relação física com edição e planos elaborados e actores em gestos elegantes. Em resumo, usando a linguagem cinematográfica.
Bem diferente é o vídeo do entretenimento da Control no festival NOS Alive. Sem palavras, só com uma música superiormente irritante, mostra durante três minutos um passatempo em que casais tinham de simular relações sexuais sobre uma bola de borracha, perante um público divertido gravando as imagens. Ganhava quem simulasse mais "penetrações por minuto". Entre os dedicados e os divertidos, os "casais", todos vestidos, simulam a penetração. O vídeo, de tipo caseiro, sem qualquer qualidade cinematográfica, acumulando extractos da simulação de cada par, motivou protestos nas redes sociais e a censura pela própria marca, com um pedido de desculpas no Facebook.
No reclame, ficcional, a relação sexual é substituída pelos preliminares; o par está de cuecas; não se vê nenhum preservativo. No vídeo do festival, também não há preservativos há vista e os pares estão vestidos, mas simulam a penetração sexual.
O reclame não choca. É hoje vulgar. Mostra menos do que muitas cenas de filmes ou até reportagens sobre feiras eróticas nos noticiários à hora de almoço. O vídeo choca porque é rude e porque não é ficção, é a reprodução de cenas ocorridas com jovens num festival nacional. Os rapazes e as raparigas são identificáveis (no anúncio da Control a identificação não só é quase impossível, como seria irrelevante por serem actores; o que lhe interessa mostrar é o erotismo dos corpos em contacto, não as caras dos actores). Ao contrário dos actores do anúncio, os jovens brincam com a simulação da relação sexual, de que fica excluída a hipótese do amor. A relação sexual reduz-se a um movimento físico desengonçado, trapalhão, risível. Sem embelezamento estético, o vídeo assemelha-se à pornografia.
O que chocou foi, assim, a redução da relação sexual ao que ela basicamente é: um acto físico. No reclame, isso é iludido com a técnica cinematográfica e com a hipótese do amor entre as personagens. No vídeo a crueza é a essência do que se vê.
Ao retirar o vídeo dos seus lugares internéticos, a Control cedeu ao número dos que protestaram, contrariando a sua natureza industrial e de comunicação. O que a marca fabrica são acessórios para usar nos actos físicos sexuais. A sua comunicação, incluindo no Facebook, inclui inúmeras mensagens que acentuam o sexo enquanto actividade sexual (com prazer), sem menção à hipótese do amor entre os que o praticam. São, todavia, mensagens com embrulho estético e alguma ou muita ficção. O vídeo da acção no festival aborreceu por não ser ficção, por não criar o universo sentimental, alternativo às manobras sexuais, por não mentir: era um "reality video" com "look" estético porno, e os queixosos não querem cá disso. Dentro das suas cabeças, querem sexo com amor e carinho, querem os preservativos associados aos sentimentos. A mente humana é muito complicada.
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