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O futuro da mobilidade à boleia da General Motors 

Faz agora 30 anos, uma pequena empresa tecnológica tentou que a IBM, um dos gigantes do setor nessa altura, investisse no seu desenvolvimento, tomando em contrapartida uma posição minoritária no seu capital. A IBM nunca chegou a investir nessa pequena empresa.

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Mas essa pequena empresa, de nome Microsoft, veio a tornar-se um dos gigantes empresariais da nossa era, tendo sido em larga medida a responsável pela destruição de grande parte do valor do mercado de produção de computadores, que a IBM dominava.

 

Na semana passada, uma situação equivalente teve um desfecho muito diferente. A General Motors (GM) anunciou o investimento de 500 milhões de dólares na Lyft, a empresa de "partilha de veículos e boleias" que é uma das grandes competidoras da Uber a nível internacional, apesar de ainda não ser muito conhecida em Portugal. A GM fica com uma posição minoritária na empresa, que está avaliada em 5,5 mil milhões de dólares. Este investimento acontece a par de outras iniciativas e experimentação dos grandes construtores internacionais de automóveis em diversas soluções e aplicações de partilha de carros e bicicletas através da internet. De facto, este conjunto de decisões, e este movimento da GM em particular, sugere o reconhecimento por parte do setor de que a nossa relação com os veículos e com o transporte está à beira de potencialmente uma enorme mudança de paradigma. O futuro da mobilidade, especialmente nas cidades e nas áreas densamente povoadas, vai ser muito diferente do que acontece hoje, muito mais partilhado e autónomo, sem recurso a veículos próprios e privados.

 

Mas, este acontecimento tem uma segunda implicação importante. Poderíamos questionar porque é que a GM deverá ajudar a desenvolver uma empresa e um mercado que tem o potencial para destruir grande parte do seu mercado e do seu valor, tal como aconteceu com a Microsoft relativamente à IBM. Neste sentido, o investimento de uma empresa tradicional como a GM na Lyft é também a manifestação de uma importante alteração na lógica de desenvolvimento empresarial do mundo moderno. Ao longo dos últimos anos, temos observado fenómenos de disrupção de setores inteiros por parte de empresas e modelos de negócio inovadores. Além do caso dos sistemas operativos e dos computadores, conhecemos bem casos como a fotografia digital face à analógica, a venda de livros na internet que destruiu as livrarias tradicionais, entre muitos outros exemplos.

 

A crescente prevalência destes fenómenos está a fazer com que as empresas estabelecidas reconheçam que, apesar de raras e incertas, não é possível contrariar estas disrupções. Assim sendo, a melhor estratégia é desenvolver uma abordagem de investimento, como se de uma opção se tratasse. São realizados pequenos, mas promissores investimentos em empresas e modelos de negócio com forte potencial, ainda que muito incertos, em particular se estes puderem ter o potencial para afetar significativamente o futuro do setor e empresa investidora. Se esse caminho vier a dar frutos, a empresa está presente no novo mercado. É uma abordagem ambidestra, em que as empresas têm de gerir o seu modelo de negócio atual, ao mesmo tempo que se preparam para modelos de negócios do futuro. Esta abordagem obriga as empresas a desenvolver competências e formas de se relacionar com o mercado muito diferentes do que tem sido histórico, com muito maior abertura e flexibilidade.

 

Mas esta abordagem, sendo essencial para a sobrevivência no atual contexto de globalização e disrupção tecnológica, pode ser também muito lucrativa. Para ter uma ideia do racional do investimento da GM, basta saber que o Citibank estima que, até ao ano de 2020, o potencial lucro no mercado das redes de mobilidade autónomas pode valer cerca de 100 mil milhões de dólares, duas vezes mais do que o atual mercado de vendas de automóveis tradicional. Se assim for, este investimento da GM poderá ser um dos melhores que a empresa fez em toda a sua história.

 

Diretor da Católica-Lisbon School of Business & Economics 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

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