Síndrome do Mundo Mau explica Brexit
Foi o medo da imigração, e não a imigração em si, a desencadear os votos a favor do Brexit, concluem os analistas. O paradoxo tornou-se evidente mal os resultados eleitorais foram escrutinados e revelaram que aqueles que vivem em zonas com mais emigrantes foram aqueles que se opuseram à saída da UE, enquanto as regiões menos afetadas se manifestaram estrondosamente a favor da rutura.
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Por outro lado, ficou bem patente que sair da Europa foi a opção dos mais velhos, contra a dos mais novos: votaram a saída 60% dos eleitores com mais de 65 anos e a maioria dos que têm mais de 45 anos. Abaixo desta idade, foram muitos mais os que queriam ficar, em especial os que têm entre 18 e 24 anos, com 73% de votos. E foi também essa a opção dos mais qualificados, ao contrário daqueles que possuem menos habilitações académicas.
Estava eu a ler tudo isto, quando me ocorreu: e se, afinal, o Brexit fosse, entre muitas outras coisas, evidentemente, uma consequência do Síndrome do Mundo Mau?
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Tento explicar. Síndrome do Mundo Mau é um termo cunhado por George Gerbner, um teórico da comunicação, para justificar porque é que as pessoas que vivem mais sozinhas e sofrem uma forte exposição aos media têm uma visão muito mais pessimista do mundo e o consideram um lugar mais perigoso do que aquilo que realmente é. E habitado por gente que não é de fiar. Imagem do mundo que leva estes espetadores a manifestar uma "expectativa de vitimização", termo também de Gerbner, que reforça a fobia e o isolamento.
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Imagine-se em casa a ver noticiário sobre noticiário de atentados e crimes, terrorismo, emigração e refugiados, apresentados tantas vezes como se fossem um só assunto, as mesmas imagens constantemente repetidas, dando a ilusão de um contínuo de violência, e não terá dificuldade nenhuma em entender como a mente se torna terreno fértil para xenofobias. Por contraponto, a "população ativa" comprova a todo o minuto que o mundo não é um território minado, conhece pelo nome os "emigrantes" e os "estrangeiros", percebe que não são facínoras porque trabalham, vivem e vão à escola ao seu lado. Mais ainda, graças à facilidade de acesso dos jovens europeus às universidades inglesas, é forte a probabilidade de ter grandes amigos entre os que vieram de fora, como também é provável que tenha feito um Erasmus fora da ilha.
É evidente que também os que votaram contra a saída olharão com preocupação para uma emigração crescente - 330 mil novos emigrantes só em 2015 -, mas serão menos manipuláveis por discursos primários e nacionalistas.
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Posto isto, decidi ir procurar mais umas achas para a minha teoria, ou seja a "arma do crime". Afinal quanto tempo de televisão veem os britânicos? Quem tem mais de 45 anos assiste por dia, em média, a três horas e 42 minutos de programação, número que cresce para cinco horas e 40 minutos para lá dos 65 anos. São muitas horas... No outro extremo, na faixa dos 16 aos 24 anos, consome-se menos de metade, ou seja, duas horas e meia de televisão.
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Mas com a má notícia vem a boa: os velhinhos acabam por morrer (eu incluída) e vem aí uma geração mais aberta aos outros. Agora só resta esperar que façam valer as suas convicções.
Quanto a nós, maiores de 50 anos, fica o aviso: se nos fecharmos em casa em frente à televisão, com uma mantinha pelas pernas, também vamos ser apanhados!
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Jornalista
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Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico
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