Passaporte de vacinas? Não, obrigado
A Comissão Europeia avançou com uma ideia peregrina: restringir as viagens intraeuropeias apenas aos que apresentem um certificado comprovando que receberam a vacina contra a covid-19.
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Aparentemente parece uma proposta sensata, pois incentiva os governos a acelerar a vacinação e protege os países com baixa incidência impedindo-os de importar mais casos.
De facto os povos de países cujos governos não conseguirem, por inépcia, vacinar as pessoas vêm-se impedidos de viajar. Em contrapartida os países cuja população já esteja vacina terão mais liberdade de movimentos. Parece ser uma forma inteligente de colocar um desafio aos governos, como o português, que têm muitas dificuldades em montar uma logística de inoculação de vacinas rápida e eficiente para que mudem de atitude.
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Mas será assim? A verdade é que quando um empresário têxtil tiver que ir a uma feira na Itália, quando uma equipa de futebol tiver que jogar no estrangeiro, quando um assessor ministerial tiver de ir a uma reunião em Bruxelas, quando um artista tiver que atuar para emigrantes, quando um Professor tiver que assistir a uma conferência na Alemanha, todos eles vão mover mundos e fundos para serem vacinado e se poderem deslocar. Vão ultrapassar as prioridades de vacinação definidas e que têm como objetivo salvar vidas vacinando primeiro as pessoas de maior risco.
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Recordemos que Portugal tem um histórico de estabelecimento de prioridades erradas na vacinação e que teve de ser a União Europeia a impor ao nosso Governo a política de "salvar vidas" em vez da prioridade de "vacinar as forças de segurança e políticos" que estava a ser implementada.
Recordemos também que os que mais precisam da vacina, os mais velhos e os doentes são, em geral, os que menos viajam para o estrangeiro.
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É, pois, de esperar que, se um passaporte deste género vier a existir, as prioridades sejam sistematicamente violadas para permitir que assessores ministeriais, empresários, futebolistas, desportistas, artistas, professores e outros possam viajar passando à frente dos que realmente precisam de ser vacinados e à custa de mais mortos.
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Naturalmente para passar à frente dois caminhos são possíveis: o Governo aprova exceções à regra atual, ou os que querem viajar arranjam um esquema fraudulento para serem vacinados. O mais provável é que assistamos às duas alternativas.
Eis como uma boa ideia da Comissão Europeia pode ser transformada num país em que a corrupção abunda numa péssima ideia, numa medida contraproducente, capaz até de provocar mortes desnecessárias e evitáveis.
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