Crimes sem castigo
Um dentista americano trivial matou em África um leão excecional. Não existissem as redes sociais e o sucedido não teria sido conhecido praticamente por ninguém. O jornalismo convencional não se comove com tais matérias.
Comove-se sim quando começa a receber muitos "tweets". A partir daí a indignação tornou-se viral. Invadiu a net, passou para os jornais e televisões. Porquê?
A parte mentalmente saudável da sociedade está farta destes comportamentos predadores, a que vulgarmente se chama caça, absolutamente inaceitáveis num tempo em que as espécies se extinguem a um ritmo catastrófico. Basta pensar que a taxa natural de extinção, aquela causada pela seleção natural descoberta e explicada por Darwin, é de cerca de cinco espécies ao ano. Neste momento, essa taxa, segundo estimativas conservadoras da World Wide Fund, provocada pela atividade humana, é de 30 espécies por dia.
Mas para lá da questão da biodiversidade, é cada vez menos aceitável que existam pessoas que se divertem a matar indefesos animais. Já o disse aqui e repito. Tenho para mim que a caça é uma atividade criminosa, como outras, e os caçadores gente malformada e tão delinquente quanto outra. O facto de a sociedade atribuir licenças para chacinar animais não retira maldade aos atos praticados. Nestas coisas não existem meios-termos. A fronteira entre mal e bem é claríssima e todos a entendem perfeitamente. Quem mata um animal por diversão, seja ele uma lebre ou um leão do Zimbabué, está a cometer um ato bárbaro, inútil, altamente prejudicial para o equilíbrio ecológico e, por tabela, para a própria espécie humana.
O processo que conduzirá ao fim da caça está em marcha. Para já limita-se a espécies em vias de extinção ou protegidas em reservas. Mas um dia afetará toda a vida animal. Até porque isto anda tudo ligado, como disse o poeta e a biologia demonstra.
Não sendo uma atividade de primeira necessidade, a caça alimenta sobretudo o grande negócio das armas e é uma forma pueril de exibição de estatuto social para gente imbecilizada. Só mesmo um psicopata gosta de pendurar a cabeça de um leão na parede da sua casa e convidar amigos para apreciar um tal macabro troféu. Infelizmente, o mundo está cheio deste tipo de pessoas. Viu-se com o ex-rei de Espanha, mas todos conhecemos energúmenos do mesmo calibre. Tanta vez gente com posses, já que o exercício não sai barato, e educação mais do que suficiente para saber o mal que pratica em nome do mais abjeto egoísmo.
Indo, portanto, direito ao assunto. A caça, toda ela, tem de ser banida. É a própria atividade em si que está profundamente errada e não pode ser tolerável no século XXI. Não basta dizer que matar um leão é chato, mas uma codorniz já não faz mal. Não existe nenhuma razão natural para justificar uma tal prática. Aqueles que defendem que a caça protege os animais são refinados cómicos. Aqueles que declaram gostar muito de animais e por isso os abatem a tiro são no mínimo cínicos, ainda que seja mais razoável considerar que se trata de debilitados mentais.
Mesmo no domínio económico, hoje tão preponderante em tudo, está por demonstrar que a caça tenha qualquer utilidade para a sociedade. Se no caso do leão abatido pelo dentista fica claro que ele rendia muito mais vivo do que morto, no que se refere às chamadas "espécies cinegéticas", artifício cínico da linguagem que se traduz por espécies que se podem chacinar, a relação custo-benefício está por fazer. Os que vendem armas ganham certamente, mas em que é que isso beneficia o resto da população? No caso português, os dados falam em cerca de 120 mil caçadores. Ou seja, 1,2% da população que anda armada aos tiros pelos campos, a matar tudo o que mexe. Bem sabemos como a fiscalização não funciona. Falar de uma cultura enraizada é uma falácia que assenta nesse habitual argumento da tradição a que se recorre quando se quer justificar a barbárie.
Termino com uma informação que mostra bem a incongruência da nossa sociedade e dos poderes que a governam. Walter James Palmer, o dentista que assassinou o leão Cecil, pode vir a ser acusado por um tribunal dos Estados Unidos. Mas não por matar o leão, mas porque subornou alguém. É disto que está feito o nosso mundo.
Artista Plástico
Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico
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