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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 01 de Dezembro de 2016 às 19:05

Aviso à geringonça

É incontornável. O processo da Caixa Geral de Depósitos correu mal, muito mal. Não vale a pena disfarçar ou desvalorizar. Foram cometidos erros imperdoáveis. Poucos escapam ilesos desta trapalhada.

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O maior erro, o erro fundador, é do Governo. Escolheu mal. Procurou alguém tido por muito competente no setor bancário, mas não tratou de avaliar se tinha competência para gerir um cargo de alta visibilidade. Não tem. António Domingues não fazia, não faz, a menor noção do que é a exposição pública. A carta de demissão demonstra-o. É patética.

 

Não é obrigatório que o presidente da Caixa seja um político profissional. Nem deve. Mas é fundamental que perceba o tempo em que vivemos. A exposição mediática faz parte de qualquer atividade de interesse público. Neste caso, estamos a falar de um cargo de elevado interesse público. O homem não percebeu. Tratou de negociar um salário quase cinco vezes superior ao do Presidente da República, mas não se preocupou em garantir que o merecia. A forma desastrosa como geriu este processo prejudicou a Caixa e o país.

 

O Governo também andou mal ao deixar arrastar o processo ao longo de meses. Envolveu-se em contradições, permitiu que a oposição ganhasse uma causa quando anda com tão falta delas. As ondas de choque vão continuar.

 

A restante esquerda portou-se como devia. Criticou o elevado salário, a não entrega dos documentos exigíveis, a falta de sentido de serviço público do gestor. É quem sai melhor deste filme.

 

Há que tirar lições. Para já espera-se que a segunda escolha seja mais criteriosa, rápida e sem ambiguidades.

 

Mas é preciso ir mais longe. Este episódio demonstra como o imponderável ameaça a gestão política. Desta vez foi um homem sem perfil. Amanhã será outra coisa qualquer. A boa prestação da coligação, a popularidade do Governo, não deve iludir a realidade. De um momento para o outro tudo pode correr mal. Tanto mais que, com a aprovação do Orçamento, o acordo à esquerda fica praticamente concluído. Os rendimentos foram repostos. Algumas leis foram alteradas. É muito para quem sofreu a estratégia de empobrecimento da direita que, não tenhamos dúvidas, continuaria caso a geringonça não tivesse aparecido. Mas é pouco para tanto que está por fazer.

 

A geringonça tem rapidamente de passar a máquina. Não digo que se altere o princípio de autonomia de cada partido. É a força do acordo. Mas é preciso avançar para novas causas. Não podemos continuar mais três anos a falar da reposição dos rendimentos. Há que passar para o enriquecimento do próprio país.

 

Não será tão consensual como aumentar pensões. Mas é preciso iniciar esse debate. O que propõe a esquerda para que Portugal melhore significativamente os seus padrões de vida e de competitividade? Aposta na educação, já sabemos. Mas que educação? É hoje evidente o desfasamento entre o que se ensina nas escolas e a realidade de um mundo em acelerada revolução tecnológica. Aposta na indústria nacional, dirá o PC. Sim, mas que indústria? A antiga, da segunda revolução industrial, ou a da quarta com a automação extensiva? É que esta é altamente rentável e, já agora, é inevitável, mas não cria postos de trabalho. Aposta na agricultura. Sim, mas que agricultura? A da lavoura ou a das biotecnologias?

 

Em suma, gostava de ver a esquerda debater e apresentar propostas concretas sobre o impacto da revolução tecnológica nas nossas sociedades. Trata-se de um debate essencial para o nosso futuro coletivo. Mas também para o futuro da própria esquerda.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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