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Leonel Moura - Artista Plástico leonel.moura@mail.telepac.pt
15 de Novembro de 2013 às 00:01

Das bestas-quadradas

A ilusão de que os mercados vão premiar o "bom" comportamento dos portugueses não é só uma falácia,é uma perfeita aldrabice. Até o inenarrável Rui Machete percebeu o problema.

Tenho um vizinho que é uma besta-quadrada. O termo, com alto valor acrescentado literário, que matematicamente significa uma besta ao quadrado, aplica-se perfeitamente a uma criatura que chega invariavelmente a meio da noite, faz imenso barulho nas escadas que escala muitas vezes aos tombos, para finalizar a apoteótica entrada batendo com a porta com uma violência inusitada, desnecessária, numa ação própria de um cérebro a que não se dá muito uso. Pior ainda, de vez em quando convida outros como ele para festas que duram até de madrugada, com uma música estupidamente alta, repetitiva, insuportável e muita gritaria à mistura. Já chamei a polícia duas vezes. Apanhado em flagrante teve de pagar uma multa, para no dia seguinte ameaçar com pancada. O epíteto é mesmo apropriado, acreditem.

Ao que parece existe uma besta-quadrada em cada prédio. Vários amigos contaram-me as suas histórias. Em comum temos alguém que não tem o mínimo respeito pelos seus vizinhos, perturba todos, com barulho, porcaria ou agressividade. Gente que não tem a mínima noção da convivência e contra a qual é muito difícil agir. Chama-se a polícia e no dia seguinte está tudo na mesma. O custo e a lentidão da justiça demovem qualquer um da aventura. Enfim, não se pode fazer nada. Pelo menos para quem não quer descer a um similar nível de bestialidade.

Este desabafo não é gratuito. Portugal é o meu prédio. Temos um governo que se comporta como uma besta-quadrada, inferniza toda a gente, não respeita nada nem ninguém. E os portugueses que não têm sequer o recurso de chamar a polícia para, pelo menos, ser aplicada a respetiva multa, não podem fazer nada. Desesperam.

Mas não falta mérito a este governo. Ao contrário do que alguns afirmam a comunicação funciona perfeitamente. Conseguiu deitar todas as culpas para o anterior governo, conseguiu fazer passar a mensagem de que não há alternativa à austeridade e agora acena com mais uma fantasia. A de que os sacrifícios são necessários para se chegar a Junho de 2014 e à libertação do jugo da troika. Como se esse dia mudasse alguma coisa. Aliás, o mais provável é que a situação piore.

Não é preciso ser economista nem "rocket scientist", como dizem os americanos, para se perceber que se não tem sido possível resolver os problemas financeiros com dinheiro relativamente barato e garantido, como é que se vão resolver com juros muito mais altos? A ilusão de que os mercados vão premiar o "bom" comportamento dos portugueses não é só uma falácia, é uma perfeita aldrabice. Até o inenarrável Rui Machete percebeu o problema.

Assim como a única solução no meu prédio é conseguir que a besta-quadrada se vá embora, no país a solução também é mais do que evidente. E só se pode esperar que não venha outro como ele, mesmo se em vez de música da pesada se passe para música pimba. Coisa que não está de todo garantido no país. Até ao momento o PS não promete muito melhor.

Por isso, também, se fale agora de um novo partido à esquerda pela mão do eurodeputado Rui Tavares. À partida tem imenso potencial. Ao contrário do PC e do Bloco o novo partido é pró-Europa e apresenta-se disposto a uma coligação com o PS. Para quem pensa nestas coisas a oportunidade é aliciante. Uma significativa votação no novo partido obrigaria o PS a manter-se à esquerda evitando a tentação de se encostar à direita. Resta saber se há eleitores suficientes que sigam este raciocínio. Para além do óbice maior. O próprio Rui Tavares. É uma pessoa simpática, culta e civilizada, com boas ideias, mas não tem carisma. É um intelectual, bom a escrever textos, mas incapaz de falar ao povo, dizer coisas simples e compreensíveis. Não o vejo a fazer comícios. Não o vejo capaz de mobilizar jovens e classe média.

Pessoalmente preferia ter o Rui Tavares como vizinho do que o António José Seguro. Mas quem sou eu? Gosto de ler, gosto de sossego para poder pensar, preciso de dormir bem pois levanto-me todos os dias às sete da manhã cheio de vontade de trabalhar.

Artista Plástico

Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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