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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 28 de Janeiro de 2016 às 19:25

O vírus ZiKa e Portugal

O meu amigo Francisco George, diretor-geral da Saúde, veio por estes dias à televisão dizer que o nosso país não corre perigo com o vírus Zika. Tenho o maior apreço pela sua pessoa e trabalho.

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Com aquele ar de cientista saído de um álbum do Tintin é extremamente competente, além de muito afável. No entanto, fiquei com algumas dúvidas. Garante ele que o mosquito Aedes aegypti, que transmite o vírus, não anda por cá. Mas como explica então que tantos portugueses apresentem claros sintomas de alguma forma de microcefalia?

 

Basta olhar para as recentes eleições presidenciais. Nunca se viu tão diminuto uso do cérebro na escolha de um Presidente da República. Venceu quem menos exigiu ponderação e raciocínio. Venceu quem usou o emocional contra o racional. Bastou a Marcelo Rebelo de Sousa andar displicentemente pelo país, em conversas triviais e atos banais. Bastou-lhe o serviço das televisões, o tempo de antena, as reportagens sem assunto alinhadas para o vazio mental. Durante a campanha não se lhe ouviu um único pensamento digno de registo, uma ideia sobre algo relevante. O povo votou num gesto mecânico. A comprová-lo, Marcelo teve os votos mas não o entusiasmo. Nunca se viu uma noite eleitoral tão tristonha. Até Cavaco Silva, no seu tempo, teve de vir agradecer à populaça de braços ao alto. Para não falar das festivas vitórias de Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio. A noite de Marcelo mais pareceu um velório ou, para não ser tão mau, uma enfadonha aula de cátedra. Com local a condizer.

 

A falta de cérebro não afetou só a campanha de Marcelo. A de Maria de Belém foi ainda pior. É difícil conceber um empreendimento mais desastroso. Desde o momento do anúncio até à despedida foram só asneiras atrás de asneiras. Começou por falar em excesso das suas próprias qualidades, acabou a queixar-se das salas vazias e da falta de apoio do seu partido. Pelo meio atacou quem não devia e facilitou a vida ao verdadeiro adversário. Foi triste e nem a própria merecia um tal destino.

 

Nem o campo de Sampaio da Nóvoa está isento de falta de discernimento. Não com o aval do próprio, ao que se sabe, mas há já quem se agite para criar um "movimento cívico" que parasite o nome, o homem e o "tempo novo" sem que se perceba com que intento. Criar mais um pequeno partido? Um grupo de jantaristas? Relançar uma nova campanha a cinco anos de distância e tanta coisa, tanta coisa a acontecer até lá, num mundo em acelerada mudança?

 

Mas onde a microcefalia está a provocar os maiores danos é na própria direita e em particular no PSD. Há duas semanas escrevi aqui que Passos Coelho seria a primeira vítima do Presidente Marcelo. Não me enganei, desculpe-se a imodéstia. Por estes dias tornou-se uma evidência para muita gente que já fala abertamente do assunto. Passos tem de sair. A bem ou a mal. Conhecendo-se o estilo da personagem será muito provavelmente a mal. Pelo que este partido corre sérios riscos de tumulto interno nos próximos tempos. A questão aliás é cristalina. Marcelo precisa de um PSD mais ao centro já que de outra forma não pode derrubar o Governo de António Costa, nem que seja para dar lugar ao grande e nefasto centrão. Não se vai para Belém sem uma agenda.

 

De tudo isto, e mais coisas que aqui não cabem, percebe-se bem que o vírus Zika há muito que ataca este pequeno país. Os portugueses vão mostrando uma declarada incapacidade de pensar o seu próprio futuro. Durante quatro anos engoliram a treta da troika. Acreditaram que gastaram demais, que o país estava na bancarrota, que era precisa austeridade. Muita austeridade para eles, não para os bancos como se sabe. Enganaram-se com as falsas promessas, com a saída limpa, com os cofres cheios, com a devolução da sobretaxa e outras historietas infantis. Muitos continuam dominados por um sentimento de culpa, culpando-se a si mesmos, mas sobretudo culpando todos os que imaginam ser possível e muito desejável que Portugal se desenvolva, se eduque, se cultive, que mostre iniciativa e criatividade e já agora se dê ao respeito perante uma Europa em franca decadência.

 

Não é seguramente com uma redução da massa encefálica que o conseguiremos.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico
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