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Manuel Falcão - Jornalista 13 de Março de 2015 às 10:10

A esquina do Rio

Ao longo da sua vida política, Cavaco Silva tem sido sempre fiel a um princípio: diz umas coisas que provocam umas explosões, que são percepcionadas fora do seu círculo de uma determinada maneira e que causam um determinado efeito político.

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Back to basics

Normalmente, são necessárias três semanas de preparação para fazer um bom discurso de improviso.
Mark Twain

 

 

Prefácio

Ao longo da sua vida política, Cavaco Silva tem sido sempre fiel a um princípio: diz umas coisas que provocam umas explosões, que são percepcionadas fora do seu círculo de uma determinada maneira e que causam um determinado efeito político. Depois vem, todo cândido, afirmar que não disse nada do que os comuns mortais entenderam, muito menos quis dizer o que quer que fosse, e jura ter falado apenas de abelhas e passarinhos enleados num jardim.


Cavaco, já se sabe, nunca erra, é apenas incompreendido. Por estes dias, assistimos a mais um destes episódios, com o prefácio que escreveu para "Roteiros IX", a nona compilação de intervenções sem grande história que faz ao longo dos meses. Já não é a primeira vez que, ao vazio genérico dos textos publicados, Cavaco Silva resolve adicionar picante nos prefácios onde dá a sua visão do mundo, numas análises que são uma espécie de "50 Sombras de Grey" da política. A cerca de um ano das presidenciais, resolveu pregar o que entende serem as qualidades necessárias ao desempenho, como ele o vê, da função de Presidente da República e, entre elas, destacou a experiência internacional.


Da direita à esquerda, vários candidatos a candidatos afirmaram que a descrição feita lhes assentava que nem uma luva - todos, à excepção de Durão Barroso que seria, porventura, a figura que melhor se encaixaria no retrato-robô desenhado. Não vou comentar o facto de o Presidente da República em exercício se dedicar a encontrar um herdeiro para a função mais a seu gosto, mas não resisto a citar Marcelo Rebelo de Sousa: "os portugueses precisam é de alguém que resolva os problemas cá dentro". Que a campanha eleitoral já tinha começado, já se sabia. Mas que a direcção de campanha tinha gabinete em Belém é que é a notícia da semana.

 

 

Semanada

• Um ministro demitiu-se por ter mentido no Parlamento - mas foi na Holanda  o ex-ministro das Finanças, Vítor Gaspar, agora no FMI, afirmou que só soube do que se passava no BES "pela imprensa especializada internacional"  Faria de Oliveira, presidente da Associação Portuguesa de Bancos, disse, na comissão parlamentar de inquérito ao caso do BES, que não entendia "que se tenham esquecido questões da maior importância, como a responsabilidade de cumprir as normas da actividade bancária"  António Vitorino ocupa cargos em órgãos sociais de 12 empresas  PSD e PS continuam em queda quanto a intenções de voto nas mais recentes sondagens publicadas  António Capucho defendeu a convocação de eleições antecipadas na sequência da polémica sobre as dívidas de Passos Coelho à Segurança Social  a compra de imobiliário relacionado com vistos gold atingiu 55 milhões de euros em Fevereiro, uma subida em relação aos 46 milhões registados em Janeiro  investidores chineses lideram o acumulado de investimento desde o início do programa de vistos gold, com 1.777 aquisições de imobiliário, seguidos por 74 brasileiros e 70 russos  há mais de dez mil processos parados nos tribunais desde o bloqueio do Citius; as doações feitas através da declaração de IRS a instituições de solidariedade social quadruplicaram entre 2011 e 2014, atingindo agora mais de 12 milhões de euros e envolvendo cerca de 400 mil contribuintes  o mercado mundial de obras de arte aumentou as vendas em 26%, em 2014, para um total de 14 mil milhões de euros, dos quais 524 milhões foram peças de Andy Warhol.

 

 

Folhear

Ao pegar na edição "As Flores do Mal", um título roubado à obra de Baudelaire, e aqui baseado em textos de Fernando Pessoa e em fotografias de Pedro Norton, fiquei na dúvida se havia de o colocar na secção "Folhear" ou "Ver". Esta edição, magnífica, da Guerra e Paz, com capa de madeira gravada a fogo, tanto pode ser vista como um livro que se folheia ou uma exposição que se percorre. Em "Um Livro de Vícios", a apresentação onde o editor, Manuel S. Fonseca, aborda o critério de escolha dos textos de Pessoa e dos seus heterónimos aqui representados, ele faz notar que o verso "Dêem-me de beber que eu não tenho sede!" é a chave para a compreensão da selecção de textos de Pessoa que foi feita, todos a falar de vícios - e "ópio tenho-o eu na alma", é outro dos versos marcantes desta obra. Pedro Norton aventurou-se aqui a sair da sua clandestinidade fotográfica, pelos vistos um segredo bem guardado. Norton tem o bom senso de recusar o conceito de ilustrar as palavras de Pessoa - e tem razão porque as suas fotografias ensaiam uma história, pessoal, a olhar para o seu próprio universo -, "só eu vejo aquilo daquela maneira", conta Pedro Norton, um gestor há muito ligado à comunicação social. Na realidade, esta história tem 51 histórias, ou, se quiserem, 51 fotografias - que vão do íntimo ao provocatório, do pensamento à acção, da descoberta ao refúgio. É uma edição exemplar baseada numa ideia original e perturbante. Deliciosamente perturbante.

 

 

Dixit

Portugal só vai dar passos grandes no sentido de reformar o Estado quando cair no próximo resgate.

Daniel Bessa, Economista, ex-ministro

 

 

Ver

Retratos bem diferentes em duas exposições. "Mulheres na Ciência" agrupa retratos feitos por Luísa Ferreira a 20 investigadoras de diversas áreas e estará no Pavilhão do Conhecimento, durante um ano, onde receberá várias novas imagens ao longo do tempo - até se reunir todo o material para um livro que será editado em Março de 2016. Outra exposição de retratos, mas bem diferente, é a que foi feita por iniciativa da revista Máxima, reunindo imagens de homens que aceitaram o desafio de serem fotografados de saltos altos - "100 Homens Sem Preconceitos" - músicos, artistas plásticos, actores, jornalistas, desportistas (como Gonçalo Sousa Uva, na imagem), todos figuras públicas que foram retratados com stilettos propositadamente concebidos para esta série de pés masculinos por Luís Onofre. A exposição está no CCB até 2 de Abril e um livro, cujas receitas revertem para a Associação Laço, reúne as imagens que a Máxima foi produzindo e divulgando e que estão expostas.

 

 

Gosto

Do exemplo de persistência e força de vontade de Nelson Évora, que superou lesões muito duras, recuperou e sagrou-se Campeão Europeu do triplo salto, apesar de muitos o terem dado como acabado para a alta competição.

 

 

Não gosto

Os alunos que não escreverem segundo o novo acordo ortográfico vão perder até 25% da nota do seu exame, mesmo que escrevam correctamente na grafia portuguesa.

 

 

Ouvir

Muita gente conhece o baterista Jack DeJohnette sobretudo pelo seu trabalho com nomes como Keith Jarrett ou Miles Davis e com a sua Special Edition Band. Mas DeJohnette começou por tocar piano em Chicago, no início dos anos 60, ao lado de saxofonistas como Henry Threadgill e Roscoe Mitchell. Foi então que conheceu o pianista Muhal Richard Abrams, um músico que teve enorme influência no free jazz com a Association For The Advancement of Creative Musicians, e com a sua Experimental Band. Mais tarde, DeJohnette evoluiu para a bateria, onde ganhou fama.
Foi com os músicos da fase inicial da sua carreira, e com o baixista Larry Gray, que DeJohnette se juntou de novo, em 2013, então com 71 anos, para actuar no Chicago Jazz Festival. O resultado está em "Made In Chicago", gravado ao vivo nessa ocasião, e que é uma espécie de viagem às origens musicais destes pioneiros. Disco intenso, por vezes pouco confortável, mas enérgico. A sua faixa final, "Ten Minutes", é um exemplo de improvisação e de energia criativa. CD ECM, na Amazon.

 

 

Arco da velha

António Costa viveu durante dois anos num apartamento duplex, na Avenida da Liberdade, cuja construção teve parecer negativo dos técnicos da Câmara Municipal de Lisboa, mas que foi autorizado pelo vereador Manuel Salgado.

 

 

Provar

Hoje dedico-me ao petisco, a propósito do monocasta Syrah, "Lybra", da Quinta do Monte d'Oiro. O syrah vai bem com queijos intensos e este em particular acompanha bem um Azeitão ou um queijo amarelo da Beira Baixa. Mas a minha preferência vai claramente para um Serpa bem curado, daquele que se parte em lascas fininhas. A combinação de um bom vinho tinto com um queijo artesanal, saboroso e intenso, é das melhores coisas que me podem oferecer. Substitui uma refeição mais elaborada e o corpo frutado do syrah, se esmaga queijos delicados, harmoniza bem com alguns dos nossos melhores queijos de ovelha. Este syrah "Lybra" provém de uma vindima manual, com desengace sem esmagamento, e estagiou entre 12 a 14 meses em barricas de carvalho francês. É um vinho jovem e vivo que nas grandes superfícies pode ser encontrado abaixo dos 10 euros. E é companhia garantida para uma boa conversa.

 

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