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Manuel Falcão - Jornalista 23 de Dezembro de 2020 às 10:50

2021

Daqui a uns dias começa um novo ciclo eleitoral. Teremos as eleições presidenciais daqui a um mês, a 24 de Janeiro.

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Os políticos e as fraldas devem ser mudados pela mesma razão
Eça de Queiroz

2021
Daqui a uns dias começa um novo ciclo eleitoral. Teremos as eleições presidenciais daqui a um mês, a 24 de Janeiro. Estas são eleições muito peculiares - não entre escolher candidatos, mas referendar um estilo de viver e assumir a Presidência. Marcelo mudou a forma sem mudar as regras, surpreendeu muitas vezes, abusou do sentimento, tornou-se o primeiro Presidente da República da era dos smartphones. Sem "selfies", o seu mandato teria sido diferente na forma de se relacionar com as pessoas. As sondagens dão-lhe grande distância sobre os outros candidatos, mas estas eleições têm uma particularidade - são as primeiras em tempo de pandemia, vão decorrer com constrangimentos de movimento e de acção. Marcelo já tinha feito, na sua anterior eleição, uma campanha austera, vai agora ser ainda mais rigoroso. Os outros candidatos serão comparados com ele se saírem da linha. Se houvesse um rival a sério, seria interessante ver como se desenrolariam as candidaturas que disputassem a vitória. Assim, trata-se apenas de referendar um estilo que poupou a António Costa muitas dores de cabeça. Verdade seja dita que oposição é coisa que não existe, está desaparecida em combate há uns tempos e não se vê que a curto prazo que se possa assumir.

Mas o ano eleitoral vai também trazer, lá mais para o Outono, as eleições autárquicas - e aí as guerras vão ser ferozes. A ver vamos como a pandemia evolui e como poderão então ser as campanhas eleitorais. Mas é certo que provavelmente muitas Câmaras mudarão de titular, é provável que o Chega venha a governar alguns concelhos, e a grande incógnita será saber o que acontece em Lisboa e no Porto. Em Lisboa, Medina, apesar da péssima gestão que fez da cidade, pode vir a ganhar por falta de adversário credível. E, no Porto, Rui Moreira está debaixo de fogo. O resultado das autárquicas poderá ter influência no evoluir da geringonça - e essa é uma das dúvidas que só esclareceremos lá para o fim de 2021. Havendo saúde, vai ser um ano animado.

Semanada

l O Sindicato do SEF criticou a nomeação de um militar para dirigir o serviço, argumentando que aquele organismo tinha "30 anos do mais civilista serviço de imigração da Europa" l o mesmo Sindicato ainda não se pronunciou sobre as denúncias de práticas sistemáticas e repetidas de violação dos direitos humanos por agentes da instituição, nomeadamente no Aeroporto de Lisboa l a Ordem dos Advogados denunciou à Provedoria de Justiça graves atropelos do SEF na regularização de imigrantes l o número de casais com ambos os elementos inscritos nos centros de emprego aumentou 15,9% em Novembro face ao mesmo mês do ano passado l há 166 hotéis à venda, devido às quebras verificadas no sector do turismo l o médico que denunciou o homicídio do cidadão ucraniano pelo SEF no Aeroporto foi despedido do Instituto de Medicina Legal l Portugal é dos países europeus com maior fatia do crédito sob regime de moratória, 23% l o Banco Alimentar Contra a Fome recebe mais de 50 pedidos de ajuda por dia l um relatório da OCDE indica que se ignora o número exacto de médicos que trabalham em Portugal, existem apenas estimativas l Quase 30% dos alunos de 11, 13 e 15 anos não gostam da escola, a segunda coisa de que menos gostam é das aulas (35%), e 85% dos inquiridos considera a matéria aborrecida l um terço dos portugueses já teve apoios sociais por causa da pandemia l em dez anos, as escolas do básico e do secundário perderam mais de 370 mil alunos.

Dixit
O mandato e a legislatura resultaram, porque ambos precisavam vitalmente um do outro, Marcelo e Costa, Presidente e Governo. Nunca se tinha ido tão longe no entendimento.
António Barreto

Crime & Castigo
Tenho uma queda por policiais. Isso e livros sobre História. Mas reconheço que os policiais são uma coisa à parte. Fui alimentado a livros da colecção Vampiro durante a adolescência e a coisa deixou marcas profundas. Um dos grandes policiais editados este ano em Portugal é "Terra Alta", o livro de Javier Cercas que venceu o Prémio Planeta em 2019. Pode alguém querer fazer justiça? A vingança é legítima? Estas são as questões de fundo que lançam a narrativa do livro, marcada por personagens fortes. A obra relata a epopeia de um homem em busca do seu lugar no mundo. "Terra Alta" conta como um crime terrível abala a pacata comarca que lhe serve de título: os donos da sua maior empresa aparecem barbaramente assassinados. Quem toma conta do caso é Melchor Marín, leitor compulsivo e jovem polícia que chegou de Barcelona quatro anos antes. Sobre os ombros carrega um passado obscuro que o converteu numa lenda junto das forças policiais, mas que ele acredita ter enterrado sob uma vida feliz, como marido da bibliotecária da povoação e pai de uma menina chamada Cosette, tal como a filha de Jean Valjean, o protagonista de "Os Miseráveis", o seu livro preferido. Nascido na região de Cáceres, Javier Cercas, 58 anos, está traduzido em mais de 30 línguas e ganhou vários prémios ao longo da carreira. Na sua escrita surge sempre a evocação de um imperativo moral que cria heróis improváveis, e "Terra Alta" é um bom exemplo disso mesmo. Aproveitem estes dias de confinamento e divirtam-se com a investigação deste crime.

Os grandes encontros
"Coimbra - A Cidade e as Sombras" é o título da exposição que assinala os 40 anos dos Encontros de Fotografia ali iniciados em 1980 por iniciativa de Albano da Silva Pereira. Ao longo dos anos, a organização dos Encontros apostou, na época de forma pioneira, na divulgação da fotografia, acompanhando o seu entendimento e evolução ao longo destas quatro décadas. Os Encontros trouxeram a Portugal nomes importantes da história da fotografia, mas também realizaram encomendas específicas que permitiram criar um novo olhar sobre Coimbra e sobre outras regiões. Até 27 de Fevereiro, será possível ver obras de nomes como António Júlio Duarte, Bernard Plossu, Augusto Brázio, Inês Gonçalves, Paulo Nozolino ou George Krause, e também de artistas plásticos como Rui Chafes ou Paulo Brighenti, entre outros. A exposição distribui-se por três núcleos intitulados "Coimbra", "Ao Espelho da Sereia" e "Coração da Ciência", apresentando uma retrospectiva de três projetos que fazem parte da história dos Encontros de Fotografia, resultado de uma seleção de obras, pertencentes à coleção do CAV, feita por Albano Silva Pereira.

Outros destaques: em Braga, na Zet Gallery, João Louro apresenta "About Today", uma seleção de cerca de dezena e meia de trabalhos, produzidos entre 1995 e 2019, na sua generalidade de exibição inédita; e, em Lisboa, o Círculo Eça de Queiroz apresenta obras da sua colecção, a maior parte formada durante os anos em que António Ferro dirigiu o Secretariado da Propaganda Nacional (SPN) e patrocinou o Segundo Modernismo Português. Ali estão trabalhos de Canto da Maia, Bernardo Marques, Leopoldo de Almeida, úlio de Sousa, Estrela Faria e Paulo Ferreira - artistas ligados às Exposições de Arte Moderna do SPN, às grandes feiras internacionais de Paris e de Nova Iorque e à Exposição do Mundo Português.

Arco da velha
Esta semana surgiram mais relatos de agressões feitas por agentes do SEF no Aeroporto de Lisboa antes e depois do assassinato de Ihor Homeniuk, e a Inspeção-Geral da Administração Interna admitiu ter encontradopráticas desumanas e ilegalidadesno funcionamento daquela força policial.

Um disco luso-canadiano
Lucy Hockings é uma jornalista neozelandesa que vive em Londres e trabalha para a BBC. Foi a entrevistada da "newsletter" da Monocle de sábado passado, uma das minhas leituras de fim de semana. A entrevista segue um modelo onde se pergunta que revistas lê, que noticiários ouve, que livros está a folhear e que música ouve. A resposta de Lucy deixou-me curioso - um disco de um grupo chamado Mira Pardelha, que ela caracteriza como luso-canadiano e que integra o seu próprio marido. O disco chama-se "About Land", fui ouvi-lo no Spotify. O álbum foi criado entre Lisboa e Londres por um colectivo de músicos portugueses e canadianos que existe desde 1998. Nesse ano, os músicos canadianos Jason Breckenridge e Ian Brimacombe partilhavam habitação em Lisboa e foram entrando na tradição musical da cidade e do país com o apoio de vários portugueses. Agora, duas décadas depois da ideia original, Breckenridge e Brimacombe revisitaram as suas memórias lisboetas e fizeram finalmente um disco, com o auxílio de músicos locais, entre os quais a vocalista Benedita Barbosa e mais alguns músicos que vivem em Londres. O disco tem raízes na música folk do Canadá, mas inclui fortes influências portuguesas, como se comprova em temas como "Rosa dos Ventos" ou "Entre O Céu E O Chão". Trata-se de um pop elaborado, com dez temas, onde se faz também ouvir a influência de sonoridades brasileiras, como em "For Prester John", no qual se sente que alguém andou a ouvir os Mutantes. É curioso ouvir como músicos de outras nacionalidades constroem canções cantadas em português e como a voz de Benedita Barbosa é surpreendente. O Spotify serve para isto - descobrir o que não se conhece.

O bolo de todas as estações
Imagino que pudessem estar à espera que me colocasse na guerra dos bolos-reis. É um debate curioso: Bolo-rei ou essa modernice chamada Bolo-rainha? Por este andar, proíbem o sexo no nome dos bolos, digo-vos eu. Não pensem que vou falar do clássico Bolo da Confeitaria Nacional, nem tão pouco do moderno Bolo da Gleba. Também não falarei de sonhos, nem de filhoses. Em contrapartida, vou falar de um bolo de todo o ano que, na minha modesta opinião, tem o expoente máximo na Pastelaria Versailles, ao Saldanha. Trata-se do Caracol, indiferente às questões de género e sem se preocupar com a extinção das frutas cristalizadas, que é o pecado original do Bolo-rainha. Sempre achei que existem pontos de contacto na textura da massa e no seu recheio, entre o Caracol da Versailles e o Bolo-rei. O Caracol, a acompanhar uma chávena de bom café, é dos melhores começos de dia que se pode imaginar. Bate os "donuts" imperialistas aos pontos e deixa os maneirismos dos "croissants" a boa distância. O seu único rival, e mesmo assim tem dias, é o bolo de arroz. Mas, eu por mim, prefiro o Caracol, disponível todo o ano e sempre o da Versailles.


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