Manuela Arcanjo 14 de Janeiro de 2014 às 00:01

A saúde dos portugueses

Durante décadas, os prestadores dos sectores privado e social foram encarados como complementares ao SNS. O actual governo apenas garante que devem ser salvaguardados os cuidados aos mais carenciados, muitos dos quais também não recorrem aos serviços públicos por não disporem de dinheiro para transportes e medicamentos.

 

O sector da saúde tem estado, desde a semana passada, nos diversos meios de comunicação social. Face à divulgação de tempos de espera inaceitáveis para a realização de exames de diagnóstico ou de acesso a serviços de urgência hospitalar, o Ministério da Saúde divulgou os resultados de mais uma inspecção e, claro, de mais indícios de fraude na área dos medicamentos.

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Estes últimos não são uma novidade: sempre que foram realizadas inspecções ou auditorias (envolvendo também a relação do Estado com algumas entidades dos sectores privado e social) foram encontradas actuações ilícitas. Donde, nada de novo.

O que pode parecer novidade é o facto de o actual ministro da Saúde (MS) ser o "braço financeiro" numa área essencial ao bem-estar dos cidadãos e ao desenvolvimento do país. Os maus resultados desta opção já começaram a ser sentidos por muitos portugueses, nos hospitais, centros de saúde e farmácias. Mas como contrariar a adjectivação de "bom ministro" e o argumento "a Troika obrigou"?

A necessidade de reduzir – sem selectividade – o número de funcionários públicos e a despesa em remunerações atingiu fortemente o Serviço Nacional de Saúde. O forte fluxo de aposentações, mesmo com penalização da pensão, levou à saída de largos milhares de profissionais; a não contratação para substituição e/ou o miserável pagamento a alguns profissionais (recordemos os 3 euros/hora para enfermeiros) determinou a saída por emigração de outra larga fatia de profissionais.

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A política do medicamento foi, e bem, orientada para a contenção da despesa mas num grau que determinou que faltem muitos medicamentos nas farmácias.

A redução da dotação do OE em quatro anos consecutivos, mesmo com os hospitais-EP a usarem o seu capital social para despesa corrente, não determinou apenas uma redução do desperdício identificado uma década antes pelo Tribunal de Contas. Aquela redução determinou a realização de menos actos (médicos e outros), o aumento dos tempos de espera, a escassez de dispositivos clínicos e até de água e produtos de higiene.

Em vez de se controlar, sempre, a regularidade de actuação do sector convencionado o MS optou, de novo, por baixar ainda mais a tabela de preços. Deve desconhecer que esta opção não só pode "aguçar o engenho" de alguns como limita fortemente o acesso aos utentes do SNS, afinal todos nós.

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Mas nem tudo está mal no reino da saúde. O brutal aumento dos prestadores privados, por mera coincidência em muitas das áreas onde se procedeu ao fecho de serviços públicos, e a expansão financeira quase inexplicável de alguns permite concluir que os dinheiros públicos são escassos para o SNS, mas suficientes para uma substituição silenciosa e progressiva.

Durante décadas, os prestadores dos sectores privado e social foram encarados como complementares ao SNS. O actual governo apenas garante que devem ser salvaguardados os cuidados aos mais carenciados, muitos dos quais também não recorrem aos serviços públicos por não disporem de dinheiro para transportes e medicamentos.

Tudo isto era previsível. Mas tem existido um manto de silêncio. Onde estão as vozes dos partidos da oposição? Onde estão as vozes mais respeitadas dos especialistas em saúde?

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Professora universitária (ISEG) e investigadora. Economista.

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