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“Para acabar com a pobreza de forma sustentável, temos de o fazer num planeta habitável”

Ed Mountfield, vice-presidente e CFO da MIGA, o braço de garantias do Grupo Banco Mundial, defendeu que o capital privado e o bem público não são opostos, mas complementos indispensáveis.

02 de Junho de 2026 às 16:42
Fenrnado Costa
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Na conversa com a pró-reitora da Universidade NOVA de Lisboa, Júlia Seixas, Ed Mountfield defendeu que o combate à pobreza só será sustentável se for feito num planeta habitável, sublinhando o papel do capital privado no financiamento de projetos de desenvolvimento e de transição energética.

Num mundo confrontado simultaneamente com crises climáticas, conflitos geopolíticos e pressões sobre o financiamento ao desenvolvimento, o Grupo Banco Mundial alterou a sua missão. “Durante décadas, o objetivo foi acabar com a pobreza. Hoje compreendemos que só o podemos fazer de forma duradoura se o fizermos num planeta habitável”, afirmou Ed Mountfield, vice-presidente e diretor financeiro da MIGA, a entidade do Grupo Banco Mundial responsável por garantias e seguros contra riscos políticos, em diálogo com Júlia Seixas, professora catedrática da Universidade NOVA de Lisboa.

Ed Mountfield começou por contextualizar o trabalho da instituição que representa, fundada há 38 anos com apenas 366 milhões de dólares de capital público, e que acaba de ultrapassar o marco histórico dos 100 mil milhões de dólares em garantias acumuladas, metade das quais emitidas nos últimos sete anos. “Utilizámos capital público de forma altamente alavancada, trabalhando com a indústria seguradora para distribuir o risco e esticá-lo ainda mais”, explicou.

Equilibrar o curto e o longo prazo

Questionado por Júlia Seixas sobre como conciliar as pressões de curto prazo dos investidores privados com metas climáticas que se estendem por décadas, Mountfield explicou que “parte da razão de ser de uma entidade como a MIGA é precisamente ajudar a fazer essa ponte”. O vice-presidente reconheceu que os investimentos em energias renováveis têm períodos longos de retorno e que, nos mercados emergentes, os riscos políticos tornam esse financiamento ainda mais difícil de obter. “O nosso objetivo é ajudar a fechar essa lacuna e mobilizar capital privado para responder a problemas de bem público.”

Sobre o financiamento climático global, Ed Mountfield rejeitou a narrativa de uma “lacuna de financiamento” e a ideia de que há sempre falta de dinheiro. “O problema não é a quantidade de financiamento. É a qualidade. Precisamos de financiamento de longo prazo, paciente e comprometido com a sustentabilidade, não de capital que se limita a circular dentro do próprio sistema financeiro.”

África é um risco ou uma oportunidade?

Quase um terço da carteira da MIGA está concentrado nos países mais pobres do mundo, muitos deles em África e em contextos de fragilidade ou conflito. Mountfield deu como exemplo uma parceria recente com a CrossBoundary Energy, que está a investir em 100 minirredes elétricas em 20 países africanos diferentes. “Em vez de fazermos pequenas iniciativas isoladas, estamos a tentar ganhar escala, com o objetivo de ligar 300 milhões de famílias à eletricidade até 2030.”

“Estamos abertos a trabalhar com Portugal. Somos uma organização à procura de bons projetos e estamos disponíveis para ser parceiros na gestão dos riscos soberanos em África”, afirmou. O responsável recordou ainda que Portugal tem uma forte tradição de engenharia e laços históricos com países lusófonos como Angola e Moçambique, onde a MIGA tem programas de grande escala, mas reconheceu que a presença portuguesa na carteira da instituição ainda é “muito, muito pequena”.

Otimismo de olhos abertos

No final da conversa, a professora Júlia Seixas pediu uma projeção para os próximos cinco a dez anos e a resposta foi cautelosa, mas esperançosa. “Quando se trabalha numa organização cuja missão é acabar com a pobreza num planeta habitável, somos obrigados a ser otimistas.” Ed Mountfield reconheceu os riscos do momento, como os impactos do conflito no Médio Oriente nos preços dos fertilizantes e dos alimentos, a pressão sobre os países frágeis e a tendência para o populismo e o protecionismo comercial. Mas sublinhou que África tem “uma população jovem e dinâmica, minerais críticos em abundância e recursos de esperança que precisamos de transformar em progresso real”.

“Os investidores estão a perceber que depender de combustíveis fósseis, com todas as disrupções de abastecimento que existem, pode não ser a decisão mais inteligente”, concluiu.

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