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Luís Marques Mendes 05 de Junho de 2022 às 20:52

Marques Mendes: Acordo com Montenegro para aeroporto?

No seu espaço de opinião habitual na SIC, o comentador Marques Mendes fala sobre a inflação galopante, a intervenção de Cavaco Silva e o novo aeroporto,, entre outros temas.

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A INFLAÇÃO GALOPANTE

 

  1. O El Pais diz hoje que a inflação é um furacão. E tem toda a razão. Também em Portugal. O INE informou que a inflação em Maio chegou aos 8%. Na linha com o perfil europeu. A primeira conclusão a tirar é esta: o objetivo do Governo de uma inflação de 4% no conjunto do ano provavelmente já está incumprido. A inflação este ano vai ficar mais próximo de 6% que de 4%.

 

  1. Esta questão não é estatística. Ela afeta, e muito, a vida das pessoa Vejamos alguns exemplos:
  • produtos alimentares que tiveram subidas brutais desde o início da guerra: pescada fresca: + 49%; óleo alimentar vegetal: + 47%; salmão: + 41%; bife de peru: + 22%; gás de garrafa (1º trimestre): 25%.
  • E o mesmo se diga dos combustíveis: a gasolina teve desde o início do ano um aumento de 22% e o gasóleo 19%. É brutal.

 

 

  1. Esta inflação galopante é um problema sério para as pensões e os salários, seja no sector público, seja no privado. Em termos reais, trabalhadores e pensionistas vão ter uma significativa perda de rendimento. Uma redução substancial do seu poder de compra.
  • E, como o Governo optou por não actualizar pensões e salários face à inflação, há duas coisas que se impõem fazer: reforçar os apoios às famílias mais pobres e mais vulneráveis; aumentar as ajudas para as empresas mais afetadas pelo custo de vida.
  • Estamos perante o maior problema do País e do Governo. Um problema económico e social. Mas também político. É a primeira vez que o Governo PS reduz rendimentos em vez de os aumentar.

 

A INTERVENÇÃO DE CAVACO SILVA

 

  1. Goste-se ou não se goste de Cavaco Silva, há uma conclusão evidente: quando ele fala ninguém fica indiferente. Meio país aprecia. Outro meio rejeita. Mas ninguém deixa de comentar. Poucos políticos se podem gabar deste estatuto.

 

  1. Cavaco Silva falou para o PM, para o PSD, para o País e para a história.
  2. Primeiro, falou para António Costa e falou com autoridade. O PM tinha-o provocado no discurso de posse, comparando as suas maiorias absolutas a poder absoluto. Cavaco respondeu-lhe à letra. Recordou a Costa que ele não tem obra marcante ao fim de sete anos de Governo. Que o País está a caminho da cauda da UE. Não foi meigo. Cavaco Silva, no plano da atitude, é muito parecido com Mário Soares. Vai à luta. Gosta de um bom combate. Não se fica. E colocou o PM à defesa.
  3. Segundo, falou para o PSD. A novidade não é criticar Rui Rio. A novidade é apoiar Luís Montenegro. Não é normal Cavaco apoiar um líder do PSD na oposição. Nunca o vi fazer isso. Mas percebe-se que o faça: num momento em que o PSD chegou ao estado a que chegou, Cavaco Silva quer ajudar o partido a recuperar. Ele sente que tem a responsabilidade moral de ajudar o PSD. Afinal, foi o líder que mais vitórias deu ao PSD; aquele que mais tempo governou; e o que mais diz ao PSD profundo.
  4. Terceiro, falou para o País e para a história. Tem esse direito e esse dever. Cavaco Silva tem um capital político invulgar que lhe advém da governação, entre 1985 e 1995. É a marca mais forte da sua vida política: duas maiorias de mais de 50% de votos; o período de maior convergência de Portugal face à UE (12,6 pp); o País a crescer em média 4% ao ano, sempre acima da Espanha e da UE; o 14.º mês para pensionistas e reformados; o tempo em que mais se reformou. Na minha opinião, o melhor PM da democracia. Com este legado, o estranho seria que Cavaco ficasse calado. Até porque estranhamente o PSD pouco fala desse período.

 

NOVO AEROPORTO: ACORDO PS/PSD?

 

O PM disse anteontem que está à espera de Luís Montenegro para decidir o local do novo aeroporto: será mesmo assim?

  1. Para decidir o local do novo aeroporto é preciso fazer um Estudo de Impacte Ambiental Estratégico. Ora a verdade é que esse Estudo ainda nem sequer começou. E depois de iniciado leva cerca de 9 meses a realizar.

 

  1. Pior ainda. Quem ganhou o concurso para fazer esses Estudo foi um consórcio onde está uma empresa pública espanhola que gere o aeroporto de Madrid. Manifestamente se vê que não pode fazer este Estudo. Tem um claro conflito de interesses. O aeroporto de Madrid tem interesses que conflituam com o aeroporto de Lisboa. Era o que faltava que fosse o Estado espanhol a intervir numa questão estratégica de Portugal.

 

  1. Assim sendo, pergunta-se: o que quis dizer o PM? Estava a faltar à verdade? Julgo que não. Acho que a intenção dele é outra: tentar um acordo com Luís Montenegro para evitar fazer o Estudo Ambiental Estratégico e assim voltar à solução Portela + Montijo. Aguardemos os próximos capítulos.

 

100 DIAS DE GUERRA

 

Uma guerra que se previa rápida transformou-se em guerra longa. Já passaram 100 dias. Sabe-se como tudo começou e conhece-se a crise económica e humanitária que gera. Mas não se sabe como e quando acaba esta guerra. Os principais destaques:

Putin está com cancro?

  • Voltaram as notícias de que Putin está muito doente.
  • Serviços secretos ocidentais garantem-no. Rússia desmente.
  • Para já, não há provas. Só especulações.
  • Não seria de estranhar um meio termo entre ambas as versões.

O impasse militar

  • A Rússia voltou a endurecer no Donbass.
  • Controla cerca de 20% da Ucrânia.
  • Mas não tem qualquer objetivo alcançado.
  • E tem mais mortes em 100 dias do que em 10 anos no Afeganistão.
  • Ucrânia mais armada: EUA e Reino Unido enviam rockets de médio alcance.

A revolução energética

  • UE corta com o petróleo russo. A seguir vem o gás.
  • Vai ter de diversificar fornecedores de energia.
  • África vai ser alternativa forte (tem petróleo e gás).
  • Porto de Sines vai ganhar maior relevância.
  • No futuro terá mais valor estratégico que Base das Lajes.

 

O JUBILEU DA RAINHA

 

  1. A monarquia deve muito a Isabel II. Seja-se monárquico ou republicano, há duas coisas que é impossível não reconhecer: primeiro, que a rainha é um caso invulgar de simpatia e consenso, em todas as idades, em todas as classes sociais, no Reino Unido e em todo o mundo; segundo, que, num tempo em que as monarquias têm perdido credibilidade por causa de vários escândalos, Isabel II tem sido um exemplo único de prestígio e de serviço público.

 

  1. Não tendo mais do que poderes de representação, Isabel II tem sido, todavia, determinante para a unidade do Reino Unido e da Commonwealth em momentos especiais. Destaco três desses momentos, cheios de significado:
  • Em 1972, quando o Reino Unido aderiu à CEE. Perante as dúvidas dos Estados da Commonwealth de que o Reino Unido mudava de prioridades políticas, Isabel II teve uma intervenção decisiva para reforçar a unidade.
  • Em 1979, a rainha decidiu, sem falar previamente com o Governo, ir a Lusaca presidir a uma importante reunião da Commonwealth. Os membros africanos ameaçavam abandonar a comunidade por causa da ausência de sanções do Reino Unido à Rodésia. Isabel II foi decisiva para a união.
  • Em 2017, com o Brexit. O Reino Unido dividiu-se ao meio. Uma vez mais, Isabel II teve que falar aos britânicos e pedir união.
  • Palavra final: com o fim do reinado de Isabel II há o sério risco de as forças independentistas da Escócia e os movimentos nacionalistas na Irlanda do Norte ganharem força. O Reino Unido pode dividir-se. Pode deixar de ser o que é hoje. A rainha é o grande factor de união.
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