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Luís Marques Mendes 10 de Janeiro de 2021 às 21:34

Marques Mendes: Debate com Ventura “foi o melhor de toda a vida política de Marcelo”

As habituais notas da semana de Marques Mendes no seu comentário na SIC. O comentador fala sobre o novo confinament, o processo de vacinação, o adiamento das eleições, os debates televisivos, a polémica com a Ministra da Justiça e a invasão do Capitólio.

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NOVO CONFINAMENTO?

 

  1. Comecemos pelos factos. A situação é muito preocupante:
Número de infetados – Esta não é apenas a pior semana de sempre. O número de infetados por dia quase duplicou em relação à semana anterior.

Número de internados e de óbitos – A pior semana de sempre.

Novos casos por Região – O Norte e a LVT têm 70% do total de casos do país.

 

  1. Por que é que chegámos até aqui? Três razões essenciais:
Primeiro, um certo relaxamento por causa das vacinas. A expectativa da chegada das vacinas levou as pessoas a relaxar.

Segundo, o surgimento de novas estirpes do vírus, mais agressivas em termos de contágio. Outra das razões apontadas pelos especialistas.

Terceiro, o facilitismo do Governo e dos partidos no período de Natal. Não explica tudo mas explica muitos dos novos casos. O que o Governo e os partidos fizeram no Natal foi uma certa leviandade. Os especialistas recomendaram medidas de contenção. Os políticos resolveram facilitar. O resultado aí está: a situação agravou-se. Voltámos a correr atrás do prejuízo.

 

  1. O que se segue agora? Com início na próxima quinta-feira, haverá um novo confinamento geral provavelmente de um mês – 15 dias, renovados por mais 15 dias, com algum alívio na segunda quinzena – semelhante ao de Março/Abril, com algumas excepções: por exemplo, as escolas e os dentistas não encerrarão actividade. Os tribunais agirão em teletrabalho.
  • Chegados onde chegámos, provavelmente não há alternativa. É o mal menor. Doutra forma, o SNS entra mesmo em colapso. Mas não nos iludamos. É mais uma "pancada" séria na economia e na situação social.
  • Mas há aqui mais uma falha. Se é urgente agir, por que é que só há decisão na próxima semana? Por que é que não se agiu já esta semana? Cada dia que passa a situação piora. É difícil compreender.

 

PROCESSO DE VACINAÇÃO

 

  1. Duas semanas de vacinação, duas conclusões: primeiro, o processo está a correr bem; segundo, até anteontem , dia 8, tomaram a primeira dose da vacina 74.099 pessoas. Mas só estarão vacinadas quando tomarem a segunda dose.

 

  1. Em matéria de vacinas, há algumas boas novidades:
Vacina da ModernaFoi aprovada esta semana. Na próxima semana já vamos receber 8 mil doses; na última semana de Janeiro, mais 11 mil doses; até ao fim do 1º trimestre, 240 mil doses. É pouco mas é o que haverá.

Vacina da PfizerOs recebimentos são feitos semana a semana; até ao fim de Janeiro receberemos 399 mil doses; até ao fim do 1º trimestre, 1 milhão e 200 mil doses. Já é melhor.

Vacina da AstrazenecaSe for aprovada este mês, a perspectiva é de recebermos até ao fim de Março 1 milhão e 400 mil doses. Seria fantástico.

 

  1. No entretanto, uma informação e uma sugestão:
A informação é que está assegurado que os profissionais de saúde do sector privado e social serão vacinados durante o mês de Janeiro.

A sugestão é esta: a DGS nas conferências de imprensa que costuma fazer deveria passar a fazer, uma vez por semana, o ponto da situação da vacinação: quantas pessoas estão vacinadas, quantas vacinas estão recebidas, quais os passos seguintes.  

 

 

ADIAR AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS?

 

  1. O quadro eleitoral é atípico: não há grandes condições para fazer campanha eleitoral; e a abstenção pode ser invulgarmente elevada. Só que adiar eleições pode ser ainda pior:
Primeiro: adiar quanto tempo? Uma semana, duas, três? Mas quem garante que entretanto a situação melhora e o confinamento acaba? Ninguém.

Segundo: adiar por mais tempo? Um mês, dois meses? Mas isso colide com a Constituição e uma revisão constitucional é um processo complicadíssimo.

Terceiro: uma solução destas exigiria praticamente a unanimidade de posições entre partidos e candidatos. Muito difícil.

 

  1. Neste quadro, julgo que é importante garantir:
Primeiro: que no dia das eleições não há confinamento;

Segundo: que nesta eleição há muito mais mesas de voto que nas demais eleições, para evitar filas, aglomerações de pessoas e contágios;

Terceiro: que os idosos que estão confinados em lares votam lá e não têm de se deslocar a Assembleias de voto. Até por uma razão de coerência. Na vacinação, o Governo decidiu, e bem, que a vacinação dos idosos é feita nos lares onde habitam. Em coerência, nas eleições devem ser as assembleias de voto a ir aos lares em vez de irem os idosos às assembleias de voto. 

 

 

OS DEBATES TELEVISIVOS

 

  1. Foram globalmente interessantes; geraram boa expectativa; ajudaram a substituir uma campanha atípica; bem moderados.

 

  1. Quanto aos candidatos:
  • Vitorino Silva – Igual ao que se lhe conhece: espontâneo e genuíno.
  • João Ferreira Cumpriu os seus objectivos. Fez os possíveis e impossíveis para fidelizar o eleitorado do PCP.
  • Marisa Matias Foi a maior desilusão destes debates. Esteve muito aquém do fulgor de há 5 anos. E foi vítima do voto do BE no último OE.
  • Tiago Mayan Foi a boa surpresa. Não tem grande notoriedade, experiência política e traquejo mediático. O que é normal. Mas mostrou coragem, frontalidade e pensamento político. Tem potencial de crescimento.
  • Ana Gomes Esteve em bom nível na generalidade dos debates. Mas cometeu dois erros desnecessários: o primeiro, a ideia de ilegalizar o Chega. É um favor que faz a André Ventura; o segundo, a ideia de comparar António Costa a Vitor Orban. Um completo exagero. É uma afirmação que nem é verdadeira nem lhe é útil para captar eleitores socialistas.
  • André Ventura Perdeu face às expectativas mas ganhou nos seus nichos de mercado. Ventura tinha expectativas altas. Está a crescer nas sondagens, é o único candidato que é líder partidário e tem traquejo dos debates de futebol. Mas mostrou debilidades: falta-lhe solidez, pensamento e substância política. Não tem uma causa. Uma ideia de fundo. Só tem casos. É muito pouco para um líder e acaba por cansar.

- Mesmo assim, pode ter um bom resultado: primeiro, porque beneficia com as tontices da esquerda que quer proibir o Chega; depois, porque, sendo o candidato anti-sistema, beneficia do voto de protesto dos que estão descontentes; finalmente, porque fala para nichos de mercado e não para o eleitorado em geral.

  • Marcelo Rebelo de SousaEsteve bem nos vários debates. Esteve muito bem no debate com André Ventura. Com estratégias diferentes:

- Nos debates com Marisa e João Ferreira, usou sobretudo a arma da simpatia para seduzir eleitores à esquerda;

- No debate com Ana Gomes, explorou as críticas de Ana Gomes ao PM para consolidar apoios no eleitorado socialista;

- No debate com Ventura, fez o que Macron fez a Le Pen no debate das presidenciais francesas. Derrotou-o no plano das ideias. Foi o melhor debate de toda a vida política de Marcelo.


A POLÉMICA COM A MINISTRA DA JUSTIÇA

 

  1. O Governo tem muita sorte. A sorte de nenhum partido exigir um inquérito parlamentar. Se houvesse um inquérito parlamentar, este assunto podia ser fatal para o Governo. Sobretudo para a Ministra da Justiça.

 

  1. Vamos aos factos desta semana:
Primeiro: A explicação do PM. É uma explicação que não colhe: o PM diz que a carta enviada para Bruxelas era irrelevante. Isto é atirar poeira para os olhos. Então, se era irrelevante, por que foi enviada? Por que é que foi a Ministra a ter a ideia de a enviar? Não. A carta foi enviada para reforçar o candidato escolhido pelo Governo. E foi feita na base de dados falsos.

Segundo: a desautorização da Ministra: na semana passada, a Ministra deu a entender que não sabia da carta e das "mentiras" da carta. Esta semana foi desautorizada e desmentida pelo Director-Geral que se demitiu: afinal, a Ministra sabia de tudo; até foi ela que deu orientações quanto ao conteúdo da carta; até havia cópia da carta no seu gabinete. "Zangam-se as comadres, sabem-se as verdades". A verdade não é bonita para a Ministra.

Terceiro: a Ministra disse na AR que pensou em pedir a demissão. Esta confissão diz tudo. Pensou em pedir a demissão porque percebeu que o assunto era grave, porque foi publicamente desautorizada, porque sente "culpas no cartório". O que a salvou foi a Presidência Portuguesa da UE. Se o PM aceitasse esta demissão, isto era um "caso" na Europa. Obrigava a rever todo o processo e manchava a imagem de Portugal.

 

  1. Finalmente, há que dizer:
O PM andou mal ao acusar Paulo Rangel e Poiares Maduro de conspirarem contra Portugal. Só por distração democrática se pode dizer uma coisa destas. Em Portugal há liberdade de opinião.

O PSD também exagerou com a ideia peregrina de uma queixa-crime. Ainda bem que os visados tiveram a lucidez de declinar essa ideia.

O Mº Pº também não sai muito bem neste filme. Perante um documento oficial com declarações falsas devia ter aberto um inquérito. Até o Presidente do Sindicato dos Magistrados do Mº Pº falou em crime. Só que o Ministério da Justiça é o Ministério da Justiça. O respeitinho tem muita força!



A INVASÃO DO CAPITÓLIO

 

  1. Um Presidente louco – como aqui várias vezes designei Donald Trump – não quis sair da presidência dos EUA sem fazer a pior e a mais grave das loucuras: incentivar a invasão do Capitólio.
  • Já não vai haver nem tempo nem condições para ele ser destituído ao abrigo da 25ª emenda ou para concretizar um processo de impeachment.
  • Mas seria bom que a justiça americana o levasse a tribunal. Afinal, ele foi o autor moral deste crime que, além do mais, teve um dano brutal na imagem dos EUA em todo o mundo.

 

  1. Para o futuro ficam, a meu ver, três conclusões:
A primeira: politicamente falando, Trump está "morto e enterrado". A ideia de voltar a ser eleito Presidente é ficção científica.

A segunda: os Republicanos vão pagar um preço sério por estes quatro anos de loucura e por sempre terem ratificado a acção de Trump.

A terceira: Biden tem aqui um desafio enorme e uma oportunidade notável.
  • O desafio enorme é unir os americanos. Os EUA são hoje uma nação profundamente dividida e radicalizada.
  • A oportunidade notável é a de, depois de ter assegurado maioria no Senado, poder concretizar uma forte agenda reformista. Se o não fizer, só se pode queixar de si próprio.

 

 

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