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Luís Marques Mendes 02 de Janeiro de 2022 às 21:18

Marques Mendes: Podemos ter eleições a meio da legislatura

No seu espaço de opinião habitual na SIC, o comentador Marques Mendes fala sobre os números da pandemia, os debates eleitorais e faz as suas expectativas para 2022.

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O ESTADO DA PANDEMIA

 

  1. Estamos numa fase sensível: de alguns sectores, há um certo sentimento de alarmismo; de outros,uma certa intenção de desvalorizar o que está a suceder. Nem 8 nem 80. Não há razões para alarme. Mas ainda é cedo para desvalorizar.
  • O número de novos casos cresce muito. A Ómicron é muito transmissível e estamos a fazer quatro vezes mais testes que há um ano. Mas o número de infetados e de óbitos está muito longe do que tínhamos há um ano.
  • Mesmo que comparemos a evolução dentro dos hospitais nos últimos 15 dias, já com o efeito da Ómicron, o resultado é semelhante: o número de internados cresce de forma marginal.
  • Se não há motivo para alarme social, também é cedo para desvalorizar o fenómeno Ómicron. Vejamos: o Instituto Superior Técnico prevê que o pico desta fase ocorra só entre 20 e 24 de Janeiro; que o número de internamentos possa chegar aos 2200; que doentes em UCI possam chegar aos 225; que o número de óbitos possa chegar aos 25/30 por dia. Nada que se compare com há um ano. Mas a justificar atenção. 
  1. A solução neste momento passa por três questões essenciais: comunicação, manutenção das medidas em vigor e vacinação.
  2. Comunicação: mais do que nunca é essencial uma comunicação eficaz e não errática. Dois exemplos do que não deve suceder:
  • Primeiro: a DGS determinou que o período de isolamento se reduz de 10 para 7 dias. Médicos e doentes, todos ficaram a saber. Só que ninguém sabe quando a medida entra em vigor. Confusão total.
  • Segundo: a linha Saúde 24 falhou. Não atende muitas das chamadas telefónicas. Então é preciso haver explicações muito simples e concretas de como é que cada doente deve agir. Na Dinamarca ou no RU os sites respetivos, numa única página, explicam tudo o que um doente deve fazer. Cá dentro é tudo complicado. Por que não introduzir um SIMPLEX na DGS?
  1. Manutenção das medidas em vigor: entretanto, as medidas que estão em vigor e que serão reavaliadas no próximo dia 5 deverão manter-se durante mais algumas semanas. Uma questão de cautela.
  2. Vacinação: é preciso vacinar com a terceira dose as pessoas com mais de 60 anos. Temos 73% desta população vacinada ( 2,9 milhões de pessoas). 
  1. Entretanto, na África do Sul, o país onde "nasceu" a Ómicron, houve uma mudança radical de estratégia. As autoridades Sul Africanas consideram, face aos novos dados do conhecimento, que a estratégia de confinamento deve dar lugar à estratégia da mitigação.
  • Assim, decidiram: os doentes assintomáticos não precisam de ficar em isolamento. Basta o uso de máscara. E as pessoas que tiveram contacto com casos positivos deixam de estar em quarentena. E só precisam de fazer teste, caso venham a ter sintomas.
  • Em Portugal talvez não seja má ideia debater o tema. E levá-lo até a uma próxima reunião do Infarmed.

 

A MENSAGEM DE MARCELO

 

  1. A mensagem de Ano Novo do PR foi sobretudo uma mensagem de esperança. Esta escolha do PR julgo que tem a ver com duas razões:
  • Primeira razão: "puxar" pelo ânimo e pela auto-estima dos portugueses. Semear expectativas positivas. Gerar confiança no futuro. Num tempo de grande fadiga pandémica, esta escolha é acertada. Os portugueses precisam de ter esperança num "virar de página".
  • Segunda razão: o PR não tinha grande alternativa. Não tinha hipóteses de abordar nenhuma questão de fundo porque está condicionado: condicionado pelas eleições e pelo pós-eleições. Por um lado, tem um dever de neutralidade nas eleições; por outro lado, não pode diminuir o seu espaço de manobra para intervir a seguir às eleições, fazendo pontes e aproximando os partidos.
  1. Posto isto, acrescentaria o seguinte: o PR precisa de fazer mais tarde, a seguir às eleições, um discurso de fundo sobre os grandes desígnios futuros do país. O que ambicionamos alcançar: na economia, na coesão social, na educação, no ambiente. Nas mais relevantes questões nacionais. Este discurso não podia ser agora. Mas talvez possa ser no próximo 25 de Abril.

 

SONDAGEM SIC/EXPRESSO

 

  1. Para o PS: a sondagem é boa mas suscita preocupações. É bom ter nesta ocasião 38% de votos, ao fim de seis anos de governo, incluindo dois de pandemia. Mas este resultado tem algo de enganador: é que o PS está a descer nas intenções de voto. Algo de semelhante a Medina, nas autárquicas
  1. Para o PSD: a sondagem não é brilhante mas alimenta boas expectativas. Não é brilhante para o partido a um mês das eleições ter apenas 31% de votos e estar a 7 pontos do PS. Mas, se o resultado não é brilhante, a tendência é boa: é uma tendência de subida. Foram cinco pontos de recuperação num único mês
  1. Para os pequenos partidos – onde há bons e maus resultados – vai começar agora a sua "via sacra": com a bipolarização que se vai acentuar entre PS e PSD, os pequenos partidos vão encolher ou vão encolher ainda mais. Estas eleições são muito diferentes das de 2019.
  • Há dois anos sabia-se antecipadamente o vencedor. Agora está tudo relativamente em aberto, o que favorece os dois grandes partidos.
  • Há dois anos, por esta ocasião, o número de indecisos não era alto. Neste momento é muito elevado.
  • Há dois anos praticamente não houve voto útil. Agora, a forte bipolarização entre PS e PSD dará origem a muito voto útil. À esquerda e à direita. Os "sacrificados" serão os partidos mais pequenos.

 

DEBATES ELEITORAIS

 

  1. Começam hoje os 30 debates eleitorais. Uma verdadeira overdose. Os destaques principais:
  2. A incógnita: O Livre. É a primeira vez que o Livre está nestas andanças. Provavelmente nas eleições em que tem menos espaço para crescer.
  3. Quem mais vai ganhar com os debates? Provavelmente o Chega e a IL. São partidos que precisam de visibilidade e suscitam curiosidade em vários "nichos" de mercado eleitoral. Acresce que os seus líderes são acutilantes.
  4. Quem mais pode perder? O BE e o PCP. O PCP porque Jerónimo de Sousa não é um grande debatente. De resto, é o que faz menos debates. Ao contrário, Catarina Martins debate bem mas o Bloco vai se afectado com muito voto útil no PS.

 

  1. O debate mais importante é, obviamente, entre o PS e o PSD. Costa e Rio têm pontos fortes e fracos.
  2. Pontos fortes – O ponto mais forte de António Costa é a experiência governativa. São muitos anos de governo. O ponto mais forte de Rui Rio é a acutilância política. Nestes momentos ele costuma ser um político assertivo e acutilante.
  3. Pontos fracos – O ponto mais fraco de António Costa é o desgaste do governo, o cansaço que existe em relação ao governo. O ponto mais fraco de Rui Rio é a falta de propostas alternativas concretas. Rui Rio tem diagnóstico, tem orientações gerais mas na maior parte das áreas falta-lhe concretizar. De resto, ainda não apresentou Programa Eleitoral. Isto pode ser uma fragilidade.

 

PREVISÕES PARA 2022

 

  • Que tipo de ano vai ser 2022? Será um ano de recuperação. Mas também um ano de muitas INCERTEZAS:
  • Incertezas estratégicas: a crise entre o Ocidente e a Rússia, por causa da Ucrânia, que pode levar a um conflito sério; a relação entre os EUA e a China, agora que a China voltou a ser a grande ameaça dos EUA; as divisões na UE, de que as questões das Migrações e do estado de direito são exemplos perigosos.
  • Incertezas económicas: a crise energética e a crise das matérias-primas; mas, sobretudo, a subida da inflação. É uma questão que pode transformar-se num problema estrutural. Um imposto escondido que pode levar a subidas das taxas de juro. Um risco para o Estado e para os empréstimos dos particulares.
  • Incertezas pandémicas: ninguém sabe quando termina a pandemia. E, sem estar terminada, o risco de restrições que afectam a economia é grande.
  • Incertezas políticas: é sobretudo, a questão da estabilidade política em Portugal. Sem estabilidade, a nossa recuperação pode ser mais difícil.

 

  • Que tipo de governo vamos ter? De maioria? De coligação? Minoritário?
  • Primeiro, o que não vamos ter. Não vamos ter um governo de maioria absoluta de um só partido (não há condições para isso). Não vamos ter uma nova geringonça (ela não ressuscitará com António Costa). Não vamos ter um governo de bloco central. É uma solução que Costa e Rio rejeitam.
  • Segundo, o que vamos ter. Muito provavelmente um governo minoritário, do PS ou do PSD. Liderado por Costa ou Rio. Com um apoio precário na AR. O que significa que podemos ter um governo de curta duração (dois anos). Com o risco de novas eleições a meio da legislatura.

 

  • A economia vai crescer acima de 5%? É muito provável. Tendo em conta a recuperação económica global e a ajuda da bazuca europeia.
  • Mas isso não é grande notícia. A grande questão é outra: vamos ou não crescer mais que os nossos concorrentes, os países de leste? Vamos ou não inverter a tendência de perda dos últimos 20 anos?
  • O drama de Portugal está claro nestes dois quadros: segundo as previsões da OCDE, entre 2019 e 2023, a Irlanda crescerá 40,7% e Portugal apenas 7,2%. Todos os países de leste, menos a República Checa, crescerão mais que Portugal. Vamos inverter estes dados?

 

  • A justiça vai acelerar? A justiça que não é mediática funciona globalmente bem e continuará a funcionar (com excepção dos Tribunais Administrativos e Fiscais que são um "cancro"). A justiça mediática vai continuar muito activa mas deixará ainda muito a desejar: é provável que Rendeiro seja extraditado para Portugal e que acabe o processo de Tancos; mas noutros grandes casos, como a falência do BES ou a Operação Marquês, não será ainda em 2022 que teremos decisões finais.

  • Quem vai ganhar as Presidenciais no Brasil e em França? E a Itália?
  • No Brasil, em Outubro, o mais provável vencedor é Lula. Leva neste momento, uma vantagem enorme sobre Bolsonaro nas sondagens.
  • Em França, a luta é mais renhida. Há uma candidatura surpresa cheia de força – a republicana Valérie Pécresse. É muito provável que ambos, Macron e Pécresse, passem à segunda volta. Uma boa notícia para a UE e para a democracia – evita-se o risco da extrema direita. Uma notícia menos boa para Macron: corre o risco de não ganhar à Sra. Pécresse.
  • Em Itália, pode haver, já em Fevereiro, uma reviravolta: Mario Draghi pode deixar de ser PM para ser PR (aqui a eleição é no Parlamento). Uma pena para a UE: Draghi faz falta no Conselho Europeu.
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