Cerâmica "parte a louça" e alerta o Governo: “Assim a indústria não fica. Sai"
Indústrias intensivas em energia, como a da cerâmica, a sufocar por causa do aumento dos preços do gás natural, critica aposta no mercado de carbono e lança grito de sobrevivência, alertando o Governo para “um risco crescente de desindustrialização e deslocalização produtiva”.
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A indústria portuguesa da cerâmica e da cristalaria é composta por mais de 1.260 empresas, que empregam mais de 18 mil pessoas e faturam 1,5 mil milhões de euros, tendo em 2024 gerado 876 milhões de euros em exportações para 164 mercados.
Asseguram um saldo comercial positivo de 574 milhões de euros, fixando a taxa de cobertura próxima dos 300%.
Neste setor, Portugal destaca-se ainda por ser o maior exportador da União Europeia e o segundo maior exportador mundial de cerâmica de mesa e uso doméstico (não porcelana).
Ora, é todo este universo industrial português que está neste momento sob alta pressão.
A sufocar por causa do aumento dos preços do gás natural, está agora a ser pressionada por outra matéria fraturante, que afeta todas as indústrias intensivas em energia, que tem que ver com o facto de o Governo não levantar o pé do acelerador relativamente à aposta no mercado de carbono.
A indústria cerâmica portuguesa alerta o Governo de estar a reforçar o papel do mercado de carbono sem acautelar os impactos reais na indústria, alertando para “um risco crescente de desindustrialização e deslocalização produtiva”.
Em causa está a posição defendida por Portugal, em linha com Espanha, que aposta no reforço das políticas energéticas e climáticas como motor de competitividade.
Para o setor, esta visão ignora um problema central: “Os custos estão a subir mais depressa do que a capacidade da indústria para se adaptar”, insurge-se a APICER (associação do setor), em comunicado.
“O aumento dos custos do carbono está a avançar mais depressa do que a tecnologia — e isso coloca a indústria numa posição impossível”, alerta a APICER.
Intensivo em energia e altamente exposto à concorrência internacional, sublinha que está comprometido com a transição energética, mas considera que o atual ritmo de aumento dos custos de carbono é desfasado da realidade tecnológica.
“Estão a exigir descarbonização sem existirem ainda soluções tecnológicas viáveis — isso não é transição, é pressão insustentável”, denuncia.
Segundo a associação, muitas das tecnologias necessárias para reduzir emissões de forma significativa ainda não estão disponíveis à escala industrial ou apresentam custos incomportáveis para as empresas.
A crítica centra-se no facto de o reforço do mercado europeu de carbono estar a traduzir-se num aumento direto dos custos de produção, sem que existam condições equivalentes para cumprir as exigências impostas.
“O Governo quer acelerar o mercado de carbono, mas está a ignorar um facto: estamos a impor custos que a indústria não consegue suportar nem tecnicamente cumprir”, aponta, considerando que esta abordagem “pode comprometer a capacidade de investimento e travar a própria descarbonização, ao reduzir a margem financeira das empresas”.
Esta indústria alerta ainda que o aumento dos custos de carbono ocorre num contexto de concorrência global “profundamente desigual”.
“Empresas europeias competem com produtores que operam com: menores custos energéticos, regras ambientais menos exigentes, normas sociais e laborais mais permissivas, menores obrigações de ‘compliance’ e segurança”, elenca, acusando que “a Europa aumenta os custos de carbono, mas continua a competir com países sem as mesmas regras ambientais, sociais e laborais — isso é uma distorção grave do mercado”, considera.
Na perspetiva da APICER, a combinação de custos elevados e concorrência desigual está já a ter impacto nas decisões empresariais. “Estamos a pagar carbono europeu para competir com produção sem carbono, sem regras e sem custos — assim a indústria não fica, sai”, avisa.
Um processo que, conclui, “pode traduzir-se numa transferência gradual da produção para fora da Europa, com consequências negativas para o emprego industrial, a balança comercial, a autonomia estratégica europeia e até para as emissões globais”
O setor defende que a política climática deve ser ajustada à realidade industrial, garantindo uma transição equilibrada.
“A política de carbono só funciona se houver energia competitiva, tecnologia disponível e condições de concorrência justa — hoje não temos nenhuma das três”, afiança.
A indústria cerâmica traça um conjunto de prioridades “claras” para o Governo português e a União Europeia: “Travar aumentos adicionais dos custos de carbono no curto prazo, garantir energia a preços competitivos para a indústria, reforçar mecanismos de defesa face à concorrência internacional e valorizar produtos produzidos na Europa com padrões elevados.”
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