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Luís Marques Mendes 30 de Agosto de 2020 às 21:41

"Não vamos ter crise política nenhuma. É tudo teatro", diz Marques Mendes

As notas da semana de Marques Mendes no seu comentário habitual na SIC. O comentador fala sobre a entrevista de António Costa ao Expresso, o estado da pandemia, a Festa do Avante! e as eleições presidenciais dos EUA, entre outros temas.

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A ENTREVISTA DO PM AO EXPRESSO

 

  1. Surpreendeu-me a entrevista do PM ao Expresso. Vindo de férias, esperava ver um PM sereno, tranquilo e com ideias bem arrumadas. Esta entrevista, ao contrário, deixa-nos a sensação de um PM crispado, acossado, intranquilo e nervoso. Isso vê-se no conflito com os médicos e na ideia de uma crise política.

 

  1. Vamos por partes:
  2. Primeiro: a "guerra" com os médicos. Parece-me um erro.
  • É um erro em plena pandemia o Governo "comprar" uma guerra com os médicos. Um erro e uma injustiça.
  • E mesmo que haja culpas de alguns médicos em Reguengos; ou que seja questionável a legitimidade da OM para fazer esta investigação, uma coisa é certa: se não fosse esta auditoria ainda hoje não se conhecia nada do que se passou no Lar de Reguengos. A intenção parece ser esconder e não esclarecer.
  1. Segundo: a ideia de que se não houver um acordo à esquerda haverá uma crise política e vamos a eleições. Com todo o respeito, acho um disparate.
  • Primeiro: compreende-se que o PM dramatize para forçar um acordo. Mas acenar com uma crise política quando está a iniciar negociações não é dramatizar. É ameaçar. É tentar fazer chantagem. Não é nem bonito nem correcto. Catarina Martins reagiu com nível.
  • Segundo: este é um cenário de loucura. Ninguém no país compreenderia que se acrescentasse uma crise política a uma crise de saúde pública e a uma gravíssima crise económica e social. E o pior é ser o PM a ameaçar com a crise. Corre o risco de se dizer que está a assumir-se como factor de instabilidade quando uma das suas vantagens foi ser sempre um referencial de estabilidade.
  • Terceiro: isto é uma leviandade. Se houvesse uma crise política, só poderíamos ter eleições em Maio de 2021 e novo governo lá para Junho. Então pergunta-se: o país aguenta estar com um governo de gestão até ao Verão? Mais de meio ano? Em plena crise? Em tempo de presidência portuguesa da UE?
  • Finalmente, quem ganharia com eleições antecipadas? Com excepção do Chega, ninguém. O PS, se não conseguisse chegar à maioria absoluta (e nada o garante), sairia politicamente derrotado. O PCP e o BE, com eleições bipolarizadas, corriam o risco de baixar de votação. Para o PSD e para o CDS seria um pesadelo. Só o Chega ganharia. É disso que a democracia precisa? Não parece.

 

  1. Não vamos ter crise política nenhuma. É tudo teatro. O PM vai mesmo negociar um acordo à esquerda. E, nesta fase, um acordo, mesmo não sendo um bom acordo, é sempre preferível a uma crise política. No entretanto, fica a imagem de um PM acossado, nervoso e intranquilo. Porquê? Porque a crise é mais séria do que ele imaginava; porque tem um governo frágil e está cansado de o defender; porque está tenso com a falta de estabilidade para governar; porque tem uma dúvida existencial para resolver – saber se vai disputar ou não um novo mandato. Tudo isto o deixa intranquilo, crispado e nervoso. Mas deve evitar essa imagem. Não lhe é favorável. O país precisa de um PM seguro e tranquilo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A POLÉMICA DOS LARES

 

  1. A polémica entre o Governo e os médicos serviu sobretudo para que o essencial não fosse discutido. E o essencial são três coisas:
  2. Primeiro, por que é que sucedeu tudo o que sucedeu de tão grave no Lar de Reguengos? Temos a versão da OM. Mas faltam-nos as outras. Ninguém parece querer esclarecer.
  3. Segundo, o que é que está a ser feito para que estas situações não se repitam? A fiscalização vai ser mais apertada? Ninguém sabe nem explica!
  4. Terceiro, e mais importante: há que separar o trigo do joio.
  • Há lares de grande qualidade, sejam da responsabilidade das Misericórdias, das IPSS ou da iniciativa privada;
  • Mas há lares que são um autêntico submundo. Sem qualidade, sem regras e sem escrúpulos em relação aos idosos.
  • E tudo isto porquê? Porque falta investimento – investimento em novos lares, investimento na beneficiação de lares antigos e investimento numa rede eficaz de apoio domiciliário. Sobretudo na Grande Lisboa. Falta um plano de intervenção, como ainda esta semana recordou o Presidente da Misericórdia do Porto.

 

  1. Finalmente, um elogio. Há 15 dias critiquei a Ministra Ana Mendes Godinho pela sua entrevista ao Expresso. Hoje é justo elogiá-la por duas boas decisões. Primeiro, porque acabou de anunciar que a Segurança Social vai criar 18 brigadas de emergência para reforçar o pessoal nos lares mais afectados pela Covid 19. Depois, porque reforçou a fiscalização dos lares, em matéria de recursos humanos e de planos de contingência. Duas medidas acertadas.

 

 

 

O ESTADO DA PANDEMIA

 

  1. A situação da pandemia está a agravar-se. Os dados são claros:
  2. Situação no mundo: o número total de infetados está nos 25 milhões. Os EUA são o país líder (com mais de 6 milhões de infetados e 186 mil mortos).
  3. Situação em Portugal nos últimos 3 meses: No início de Junho tínhamos 313 casos por dia. Depois a situação agravou-se. O valor mais alto alcançou-se em fim de Junho com 369 casos por dia. A seguir uma melhoria. O valor mais baixo foi no início de Agosto (175 casos por dia). Em Agosto a situação melhorou muito. Esta semana deu-se uma nova inflexão – a situação agravou-se de novo. O que pode levar o Reino Unido a voltar a impor restrições a Portugal.
  4. Situação na UE: apesar do agravamento em Portugal, continuamos abaixo da média da UE (12º lugar). Porquê? Porque a situação na Europa piorou ainda mais que no nosso País. Basta ver a Espanha. O caso pior na UE.

 

  1. Algumas lições a tirar: apesar de a situação não ser de descontrole, convinha evitar duas coisas negativas – precipitações e sinais contraditórios.
  2. Precipitações: é o caso da abertura do ano lectivo. O que sudecerá numa escola se houver um caso positivo? Isola-se, fecha a escola, fecha parcialmente? Cada director decidirá. Mas convém uniformizar critérios. Evitar dualidade de atitudes e precipitações. O Ministério da Educação, e muito bem, solicitou à DGS a emissão de um parecer sobre o tema. Convinha que a DGS tornasse público o seu parecer a tempo e horas para que toda a gente conheça. É bom para pais, alunos, professores, todos.
  3. Sinais contraditórios: quando se diz às pessoas que não se pode facilitar, que até vamos reforçar o estado de contingência, que crianças em risco têm de fazer quarentena, e depois se autorizam milhares de pessoas na Festa do Avante ou se estuda a ideia de público nos estádios de futebol, de que é que se está à espera? Não há milagres!

 

A FESTA DO AVANTE

 

  1. É conhecida a minha posição – acho que este ano, excepcionalmente, a Festa do Avante não devia realizar-se, sobretudo na parte não política (ou seja, na parte dos festivais). Por razões de saúde pública e não por razões políticas; por razões de coerência com actividades análogas que também foram adiadas (concertos de Verão). E até para defesa da própria imagem dos partidos – é que quer o PCP queira quer não, aos olhos da opinião pública a ideia que fica é que há um tratamento de favor para um partido. E o PCP perdeu muita respeitabilidade com esta decisão. Tirando os seus militantes, ninguém compreende esta sua teimosia.

 

  1. Mas não tendo sido essa a decisão, é inacreditável o comportamento da DGS. É um mau exemplo.
  • A menos de uma semana da iniciativa parece que ainda não há decisão final. Pelo menos, não é pública. Quando a DGS teve meses para decidir. Ou é incompetência ou é teoria do facto consumado.
  • A uma semana do evento a DGS veio dizer que o assunto é complexo. Isso já sabíamos. Por isso é que se pediu a não realização da iniciativa. Só que a DGS não existe para fazer desabafos. Existe para resolver problemas.
  • A DGS tem tido um comportamento inacreditável. Escusava de se ter sujeitado ao puxão de orelhas que levou hoje do PR. Foi uma censura pública muito forte. Escusava de se sujeitar também à suspeita que, justa ou injustamente, existe na opinião pública de que neste processo há uma troca de favores entre o PCP de um lado, o Governo e a DGS do outro.

 

 

 

O REGRESSO DAS REUNIÕES NO INFARMED

 

  1. O Governo anunciou a retoma das reuniões do Infarmed (políticos com epidemiologistas), em moldes diferentes do passado. É uma boa decisão, mas com um modelo errado. A ideia de convergência de esforços entre decisores e epidemiologistas é, sem dúvida, uma decisão acertada. Resultou no passado e pode ter virtualidades no futuro.

 

  1. Um modelo errado – Eu já tinha dito que estas reuniões devem ser públicas do principio ao fim. O Governo decidiu agora que uma parte destas reuniões será pública. É a parte em que os epidemiologistas fazem as suas exposições iniciais. Até aqui muito bem. A partir daqui muito mal.
  • Primeiro, porque fica a sensação que o Governo tem medo de divulgar a parte em que falam os políticos e outros participantes;
  • Segundo, porque este secretismo da segunda parte da reunião só vai dar azo a especulações, polémicas e ruído;
  • Terceiro, e mais importante: assisti às anteriores reuniões do Infarmed, enquanto Conselheiro de Estado. A minha experiência diz-me que a parte mais útil, frutuosa e importante para as pessoas é a parte final, em que há perguntas e respostas. Justamente a parte que o Governo quer manter "secreta".

Este novo modelo ainda vai dar grande polémica. Não havia necessidade.

 

 

 

 

 

 

ELEIÇÕES NOS EUA

 

  1. A dois meses das eleições nos EUA o que temos? Uma radicalização política como nunca antes tínhamos visto. Duas Américas radicalmente diferentes. Dois candidatos que deixam muito a desejar – um é louco, outro é fraco. E, pela primeira vez, a hipótese de Trump perder as eleições – as sondagens dão cerca de 10 pontos de vantagem a Biden, embora Trump esteja em ligeira recuperação.

 

  1. As vantagens e vulnerabilidades dos candidatos:
  2. Joe Biden tem uma idade avançada e tem um currículo discreto. Mas tem a seu favor ser um moderado, não ter anti-corpos de relevo e saber que esta eleição é sobretudo um plebiscito (o voto é contra Trump ou a favor de Trump).
  3. Donald Trump tem em seu desfavor a gestão da pandemia, a situação económica e a questão racial. Mas é poder e candidato anti-sistema ao mesmo tempo, tem um eleitorado muito próprio, vai agitar o fantasma da "lei e da ordem" e dispõe de uma máquina de manipulação impressionante.

 

  1. Não é tempo de embandeirar em arco. Com o sistema eleitoral dos EUA é preciso muita atenção aos swing states (aqueles que tradicionalmente mudam de campo político, dos Republicanos para os Democratas ou vice-versa). Uma coisa é certa: se Trump perder, isso deve-se sobretudo à pandemia. Por isso, volto a dizer: já era tempo de o maldito vírus fazer algo de útil pela humanidade!!
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