Pedro Fontes Falcão
Pedro Fontes Falcão 25 de setembro de 2019 às 20:45

Não há bife para o almoço?

Sendo verdade que a discussão destes temas pode ser fonte de ódios e divisões sociais que podem deixar feridas (relembro o caso da eutanásia), por outro lado, geralmente as revoluções só são feitas quando há fortes divisões.

Tem gerado muita polémica a decisão do reitor da Universidade de Coimbra que afirmou, na cerimónia de receção aos estudantes deste novo ano académico, que pretendia remover a carne de vaca do menu das cantinas universitárias no início de 2020, argumentando que é um dos primeiros passos importantes para a universidade alcançar a neutralidade carbónica até 2030.

 

Não vou analisar nem discutir a decisão do Prof. Amílcar Falcão (que, embora partilhemos o mesmo último apelido, não somos da mesma família), mas apenas a refiro porque creio que será uma das primeiras muitas decisões a que começaremos a assistir (sobre diversos temas) e que irão gerar muita polémica.

 

Primeiro, porque não é uma decisão nacional. Se o fosse, implicaria (supostamente) discutir aprofundadamente o tema, ouvir a opinião dos principais "stakeholders", criar eventual nova legislação e resultante discussão no Parlamento, como aconteceu, por exemplo, com o tema do imposto sobre as bebidas açucaradas e adicionadas de edulcorantes.

 

Segundo, porque tendo em conta a autonomia dada a muitas entidades, cada vez mais decisões podem ser tomadas individualmente por cada entidade. E basta uma decisão em milhares de entidades públicas (como foi agora o caso, pelo menos do meu conhecimento) para gerar polémicas.

 

Esta decisão teve a grande vantagem de pôr as pessoas a discutir o tema. Pode argumentar-se que não era preciso tomar a decisão para discutir o tema, mas na realidade a tomada da decisão (que ainda poderá ser revertida, dado que só está previsto ser implementada em janeiro do próximo ano) incentiva muito mais a discussão do tema.

 

Sendo verdade que a discussão destes temas pode ser fonte de ódios e divisões sociais que podem deixar feridas (relembro o caso da eutanásia), por outro lado, geralmente as revoluções só são feitas quando há fortes divisões. E se isto se tratar de uma revolução para se conseguir a sustentabilidade do planeta, então pode "haver sangue".

 

Neste contexto, gostaria de referir primeiro que, à semelhança da revolução do 25 de Abril, espero que esta revolução também seja relativamente pacífica. Segundo, que se estude bem os temas antes de se tomar decisões. E terceiro, que por causa deste caso não se lembrem de tomar a decisão de reduzir drasticamente a autonomia de muitas entidades públicas para evitar decisões que poderão ser polémicas.

  

Gestor e Docente Universitário

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