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Sandra Clemente 10 de Maio de 2017 às 19:37

As tábuas do teu caixão

A dada altura do "A Amiga Genial", de Ferrante, uma personagem diz a outra acerca de uma terceira: "Tem a pior de todas as maldades, a superficialidade." Superficialidade. Foi precisamente isso que transpirou do PS e do Bloco de Esquerda a propósito das autárquicas no Porto.

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Um discurso saído das cavernas, tão oportunista que escandaliza, tão desligado do que no caso específico interessa, às autárquicas do Porto interessa o Porto naturalmente, que põe tristemente em causa a utilidade das organizações. As notícias de Macron ainda não chegaram aqui.

 

Depois de quatro anos de Rui Moreira no Porto, Paulo Pedroso, conselheiro do gabinete de estudos do PS, que governou a cidade com ele quatro anos, reparou, a cinco meses das novas eleições, que Rui Moreira é um conservador que quer afirmar a direita cosmopolita que existe no Porto e tem nele um excelente protagonista. E que - na linhagem do discurso tradicional e rançoso do Carlos César, Ana Catarina Mendes, e agora de Paulo Pedroso, que fala da direita do PS, sobretudo do PSD, cerca de 40% dos eleitores nacionais, como se de gente de mal se tratasse - quem se junta a esse tipo de gente deixou de ter o Porto, ou o país conforme o caso, por partido. Se tivesse, quereria apenas estar rodeado dos melhores e os melhores têm de ser socialistas.

 

O PS conhecia as origens de Rui Moreira e este secretariado nacional ignorou-o enquanto lhe deu jeito, independentemente do discurso que tem para o eleitorado que acha que vota nele. Se não conhecia é ignorante ou incompetente e, em qualquer dos casos, não sai bem. Mariana Mortágua e o BE também só hoje, depois da rutura com o PS, conheceram melhor o presidente da Câmara do Porto. A política-espetáculo de Rui Moreira, diz, evita a mobilização democrática - o eleitorado que não vota BE, nem PS, não é democrata - e quem alinha com ele queimando as pontes à esquerda não pode ter um projeto credível - por acaso no Porto, nas últimas autárquicas, mais de 60% do eleitorado acreditou noutros projetos. O bater no peito de Paulo Pedroso e de Mariana Mortágua pelo Porto incomoda-me profundamente. Pura e simplesmente porque a guerra deles é o controlo do PS e a esquerda. Os que lá vivem, ou em qualquer outro lado, são colaterais. Como eu ou o leitor.

 

Jurista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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