Lisboa e o fim da "silly season": welcome home, Madonna!

É oficial. Estão a chegar ao fim as férias de verão e regressamos à cidade, deixando para trás as praias e os dias longos de lazer.
Jornal de Negócios
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Clara Raposo 04 de setembro de 2018 às 19:07

De volta à vida real, ao trabalho, ao centro da ação, à cidade, a Lisboa (no meu caso). É também o fim da chamada "silly season", aquele período do ano em que tudo parece funcionar a meio gás e em que as notícias e os grandes temas em debate tendem a resvalar para o incerto, talvez para o frívolo, e, até, para o acessório. Este verão não foi exceção, embora alguns temas de verdadeiro interesse tenham marcado presença, em particular nos últimos dias.

De entre os temas sérios que escaparam à "silly season" nos media, fiz uma curta seleção – na qual refleti com muita calma num mês de agosto em que, sendo uma diligente "dean caloira", passei muitos dias por Lisboa: (1) "Os Maias" leitura obrigatória no secundário; (2) a subida no preço do imobiliário em todo o país e na Lisboa cosmopolita; (3) a mobilidade nas grandes cidades e o seu custo; (4) e a importância da vida "real". Curiosamente, há um elemento comum em todos estes temas: Madonna.

(1) Afinal, "Os Maias" sempre permanecem leitura obrigatória no secundário. Não sei se é essa a fase da vida em que essa obra deve ser lida, mas nunca a ter lido teria sido uma perda para mim. Longe estaria o Eça, quando escreveu "Os Maias", de imaginar que o (provável) Ramalhete de Carlos da Maia e seu avô seria um dia habitado por alguém chamado Madonna. Muito menos, por uma Madonna rainha do pop. Aqui temos um exemplo simples de como é difícil prever o futuro. Porém, nota-se a afinidade desta nova habitante do terceiro milénio com o ambiente estrangeirado de sempre do palacete – com o seu decorador inglês na obra de Eça – e até com a estátua de Vénus Citereia descrita por Eça, no jardim. Exato, "like a Virgin".

(2) Madonna é apenas o exemplo mais mediático da nova atratividade de Lisboa e, em particular do seu centro histórico e ribeirinho. Cidade luminosa, cosmopolita, vibrante. Tal como Madonna, ando a pé pelo centro de Lisboa – no meu caso com mais facilidade, graças ao anonimato (soubera eu cantar e dançar...) – e percorremos as mesmas ruas entre o rio e o Parlamento. Quase todos os dias, saio do ISEG à tardinha ou ao almoço, atravesso a pé as ruas da Lapa e da Madragoa (entre embaixadas, roupa pendurada e sardinha assada na rua e elegantes novos moradores que falam outras línguas, tipicamente gente nova) até às Janelas Verdes e Santos. Esplanadas alegres esperam-me, tal como a centenas de outros transeuntes que aqui têm a sorte de estudar, trabalhar ou viver. Não é de estranhar que toda esta descoberta de qualidade de vida no centro de Lisboa tenha um preço.

(3) Lisboa, cidade onde muitos trabalham, onde muitos passeiam e desfrutam da oferta cultural, de restauração, de socialização. E onde muitos gostariam de viver – mas apenas alguns conseguem. Como Madonna. Como eu bem a compreendo. E os outros? À falta de uma solução milagrosa de habitação mais acessível, alguma coisa pode ser feita para facilitar o acesso à cidade e a mobilidade dentro da cidade. Estes assuntos estão na ordem do dia e não são nada "silly". O desenvolvimento de uma rede de transportes pública mais abrangente (e, idealmente, mais sustentável) e um acesso mais acessível a quem se vê impedido de pagar o preço de viver em Lisboa, mas que aí trabalha, são propostas que estão em cima da mesa. A serem analisadas, com seriedade, no curto prazo.

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(4) Já chega de praia todos os dias – fica para os últimos fins de semana de calor a sério e para os finais de dia que peçam uma ida ao mar. Há que voltar à vida real. Tal como muitos de nós, Madonna também teve as suas férias (em Marrocos e nos MTV VMA). E agora volta a casa, de volta ao seu trabalho e às escolas dos filhos, no centro de Lisboa, próxima de gente real e de tudo. Do centro de Lisboa, virados para o mundo. Welcome home, Madonna!

P.S. – Possivelmente em outubro, já totalmente embrenhados na nossa séria rotina do resto do ano, esquecidos do sal e do sol, falaremos de orçamento e de crescimento.

Dean, ISEG Lisbon School of Economics & Management, Universidade de Lisboa

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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