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Mario Margiocco 18 de Novembro de 2010 às 10:11

A dívida e o declínio dos Estados Unidos da América

Os italianos, da mesma maneira que outros europeus, têm graves problemas no que diz respeito às suas dívidas nacionais, pública e privada.

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Isso pode levar a que pareça imodéstia da parte de um europeu estar a discutir o crescimento dos Estados Unidos da América e o seu grande problema de dívida. Mas as realidades orçamentais da actualidade nos dois lados do Atlântico são muito semelhantes e apenas uma confiança persistente na promessa dos EUA mantém viva a expectativa entre alguns europeus de que uma grande mudança de cenário no país irá resolver a sua terrível situação de endividamento.

Claro que muitos norte-americanos reconhecem a escala dos encargos com a dívida da nação. O almirante Mike Mullen, presidente da Joint Chiefs of Staff e, portanto, o ocupante do mais alto cargo da hierarquia militar, disse recentemente que o "maior perigo para a segurança americana vinha da sua dívida nacional". Quatro em cada dez locais concordam e apenas menos de três em cada dez indicam o terrorismo ou o Irão como mais perigosos.

O estatuto dos EUA como superpotência esteve sempre ligado ao nível de dívida. De facto, foi a ausência da mesma que marcou a ascensão do país como uma potência mundial, que ocorreu entre 1914 e 1917. Os Estados Unidos deixaram de ser devedores de 3 mil milhões de dólares (a maioria dos quais à Grã Bretanha) para ser um credor de mais ou menos da mesma quantidade, graças a 6 mil milhões de dólares em créditos de guerra concedidos aos Aliados. Outros 3 mil milhões de dólares em créditos para a reconstrução europeia pós-guerra fortaleceu o estatuto como a maior credora do mundo, com um excedente que equivalia a cerca de 8% do Produto Nacional Bruto da época.

O significado desta mudança passou pelo facto de os EUA terem basicamente substituído o Reino Unido como o coração dos sistemas financeiro e monetário internacionais. Antes, graças ao padrão ouro e à estabilidade política do Reino Unido, a City de Londres foi uma fonte essencial de capital e de garantias financeiras para todo o mundo durante mais de um século.

A nova era começou repentinamente em Janeiro de 1915 quando, depois de alguns meses de profunda incerteza, o ouro passou a ser transportado até Nova Iorque em grandes quantidades.

Alguns meses antes disso, o analista de finanças de Boston, Henry Lee Higginson, tinha escrito numa carta ao presidente Woodrow Wilson qual deveria ser a nova estratégia dos Estados Unidos. "Esta é a nossa hipótese de chegar ao primeiro lugar", dizia. A casa financeira do país tinha de ser posta em ordem, todas as dívidas tinham de ser pagas e, como Londres tinha feito durante um largo período de tempo, a confiança tinha de ser mantida, o que significava garantir a convertibilidade do dólar em ouro.

Sozinha entre as maiores nações do mundo, os EUA garantiram com sucesso a convertibilidade da divisa durante a Grande Guerra. Com a paz, o dólar e Wall Street tornaram-se as forças dominantes no panorama financeiro internacional. As regras do mercado financeiro estabelecidas depois do "New Deal", definido pelo presidente Franklin Roosevelt em 1933, fizeram com que o dólar ocupasse o lugar da libra como o centro do sistema internacional.

O papel dos Estados Unidos como o banqueiro mundial manteve-se sem oponentes pelos 40 anos seguintes, até que o presidente Richard Nixon dissociou o dólar do ouro. No entanto, mesmo sem o padrão ouro, a economia da nação e a reciclagem dos petrodólares [dólares provenientes das vendas de crude] mantiveram o dólar em alta.

De facto, os EUA continuaram a ser a nação mais credora do mundo até 1986-1987, quando se tornaram novamente num país devedor. Nas duas décadas seguintes, a dívida norte-americana esteve normalmente em torno dos 3 biliões de dólares, subindo ou descendo conforme o comportamento cambial.

Na década de 90, os Estados Unidos começaram a importar mais e mais capital, particularmente vindo da Ásia. No novo milénio, a China tornou-se a principal fonte de financiamento da dívida e os norte-americanos ficaram mais do que satisfeitos com o facto, já que isso permitia à Reserva Federal (Fed) manter as taxas de juro em níveis reduzidos.

Mas houve quem antecipasse o perigo. O economista sueco Axel Leijonhufvud previu a inflação dos preços dos activos financeiros - o sector imobiliário, em particular -, além da degradação da qualidade do crédito. As inovações financeiras rapidamente mostraram que as previsões estavam correctas. É suficiente relembrar que, em 2008, apenas 12 empresas públicas no mundo tinham um rating de crédito de AAA. Contudo, mais de 60 mil empresas - na sua maioria, norte-americanas - tinham produtos financeiros com essa classificação. Os EUA, o banqueiro mundial, transformaram-se no fundo de cobertura mundial.

Com esta mudança, foi esquecido o imperativo tradicional dos banqueiro de que se tem de manter a fidelidade e a confiança (para "manter a fé", como colocou em questão Henry Lee Higginson). E foi na dívida pública norte-americana que se aglomeraram os detritos das promessas não cumpridas do sistema financeiro, tal como, de outra forma, a enorme dívida pública italiana reflecte o esbanjamento da nação.

Os números para os Estados Unidos são vertiginosos. A dívida pública inclui não só os 13,2 biliões dos governos federais, mas também os 3 biliões detidos pelos estados, pelos distritos e pelas cidades do país. Além disso, há também os 3,9 biliões de dívida que são propriedade de agências de financiamento à habitação apoiadas pelo Estado (Fannie Mae, Freddie Mac, entre outras), que actualmente são responsáveis pela subscrição de 90% de todos os empréstimos norte-americanos. Como tal, a dívida pública norte-americana alcançou aproximadamente 140% do Produto Interno Bruto.

O Congresso norte-americano já se apercebeu do que anunciam os dados, mas os seus membros preferiram desviar o olhar. Aliás, já não é pedido ao presidente que apresente a estimativa orçamental para os EUA por um período de cinco anos. Uma perspectiva de um ano é agora considerada suficiente.

No fim de contas, em que estado fica a economia mundial? Não há nenhuma nova grande potência a emergir para poder assumir a responsabilidade das finanças globais, como aconteceu em 1914. Naquela altura, Wall Street estava à altura da tarefa. De alguma forma, Xangai e Hong Kong podem estar prontas, mas só uma simples possibilidade de pouco serve nesta altura.


O mais recente livro de Mario Margiocco é Il disastro americano. Riuscirà Obama a cambiare Wall Street e Washington?


© Project Syndicate, 2010.
www.project-syndicate.org
Tradução: Diogo Cavaleiro



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