A Falácia do Jogador
Na semana passada soube-se que muitos portugueses e espanhóis tinham aplicado as suas poupanças em selos. Estavam convencidos que estes investimentos se viriam a traduzir em aplicações muito rentáveis e com pouco risco.
Aparentemente as suas expectativas não se vão materializar.
Toda a teoria económica sugere que não existem máquinas de fazer dinheiro. No fundo os aforradores individuais foram vítimas de um logro, de uma promessa que não era credível.
Este tipo de fenómenos ocorre em quase todas as sociedades em determinados momentos da sua história. Perante dificuldades as pessoas são levadas a acreditar que podem atingir o nível de rendimento ambicionado ou perdido através de «jogadas inteligentes» e com um pequeno golpe de génio individual. A Albânia sofreu na sua história recente de um episódio de características semelhantes. Parece assim possível acreditar que estes fenómenos são mais prováveis em sociedades que estão em crise.
Mas em Portugal estes fenómenos são aparentemente muito recorrentes. Há uns tempos tivemos o fenómeno da D. Branca. O episódio Alves dos Reis encaixa também nesta saga. Neste último a história é muitas vezes contada em meios sociais com um misto de crítica e admiração pela ousadia do homem.
Mais recentemente observamos uma grande adesão dos portugueses ao Euromilhões, onde gastam muito dinheiro sabendo que o valor esperado dos prémios a receber é inferior à a sua aposta.
Também a segurança social, quando desenhada através de um mecanismo de repartição em que as transferências dos trabalhadores activos suportam as pensões dos reformados, pode ser um exemplo de uma falácia cognitiva. É por isso fundamental garantir que o sistema é financeiramente sustentável e geracionalmente justo.
Todos estes fenómenos podem ser sintetizados como casos particulares de um enviesamento cognitivo conhecido chamado a falácia do jogador. A falácia do jogador é a noção errada de que a probabilidade de ocorrência de um determinado fenómeno aumenta ou diminui em função de ocorrências recentes. A variante mais comum é a crença de um jogador de roleta que, após perder muitas vezes por apostar no vermelho e ver sair sempre números pretos, acredita que se apostar a sua fortuna toda mais uma vez no vermelho a sua probabilidade de recuperar as suas perdas é bastante boa. Neste caso qualquer conselheiro racional pode informar o jogador que ele está ser vítima de um enviesamento cognitivo. Mas o próprio acredita mesmo que a sua probabilidade de ganhar é bem maior que 50%.
Porém, na vida real, a falácia do jogador ocorre de forma mais subtil. Por exemplo no caso dos selos, os jogadores podem ter dúvidas quanto ao retorno do investimento que lhes é prometido. Começam, por isso, por apostar um pequeno montante. Como o casino - sob a máscara de uma empresa - lhes paga aquilo que lhes prometeu para um pequeno montante, os jogadores acreditam que o rendimento é agora uma certeza e passam a investir montantes maiores.
Alguns poderão pensar que esta tendência para os portugueses serem vítimas da falácia do jogador será algo específico à cultura portuguesa. Encaixa aliás bem na visão da saudade sebastiânica que tantas vezes usamos para nos caracterizar - acreditamos que alguém nos virá salvar da nossa triste sorte. Eu prefiro acreditar que estes enviesamentos cognitivos são comuns a todas as sociedades. Aliás estão amplamente demonstrados em várias experiências psicológicas rigorosas com sujeitos oriundos de todas as culturas.
Ainda assim vale a pena lembrar que a criação de valor resulta sempre de investimento em actividades produtivas e da criatividade, esforço e energia de cada um. Neste sentido aplicar recursos em obrigações ou acções é muito diferente do que apostar na valorização de objectos coleccionáveis.
No primeiro caso estamos a juntar o nosso capital ao de outros investidores de forma a que ele possa ser usado em actividades produtivas criadoras de valor e riqueza. No caso dos selos estamos apenas a acreditar que o nosso «especialista» a quem entregamos o dinheiro é muito bom a avaliar e transaccionar selos.
Esta é talvez a principal lição colectiva deste episódio desesperante para as vítimas: são as empresas que criam valor nas sociedades modernas. E por isso são elas que melhor empregarão as poupanças dos cidadãos e da sociedade. Mas só vale a pena aplicar poupanças em empresas onde se perceba qual a visão da sua liderança e como é que a estratégia dessa empresa cria valor para a sociedade e os seus investidores.
Talvez por isso seja legítimo pensar que é a escassez de empresas e empresários com ambição e que queiram abrir o capital das suas empresas à sociedade que empurra as poupanças individuais para contos do vigário.
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