A política internacional inglesa
A política inglesa é realmente europeia, tão simplesmente porque os britânicos são realmente europeus. Vivem os ciclos de mentalidade e de estrutura que a Europa vive, o seu destino histórico é comum com o nosso. O que tem efectivas consequências práticas
É de muito bom-tom dizer-se em certos meios que a Inglaterra é o único país que sabe gerir bem o seu destino na Europa. Quem diz isto em geral lança-nos um ar cúmplice de quem está dentro dos mistérios do Santo dos Santos, mostrando-nos que é essa a via a seguir. Mas se bem virmos no longo prazo talvez seja outra a conclusão a que devemos chegar.
Em primeiro lugar, e para que não restem dúvidas, em muitos aspectos a política inglesa é realmente europeia, tão simplesmente porque os britânicos são realmente europeus. Vivem os ciclos de mentalidade e de estrutura que a Europa vive, o seu destino histórico é comum com o nosso. O que tem efectivas consequências práticas nas suas atitudes. A reacção dos britânicos às guerras contra o Iraque, a política ambiental, a relação com o terceiro mundo, com o património histórico, uma boa parte do assento social são comuns à restante Europa.
Mas não deixa de ser verdade que os britânicos, se embebidos na Europa e visceralmente europeus, muitas vezes malgré eux-mêmes, diferenciam-se estruturalmente dos europeus, não tanto pelo que são, mas pelo que aspiram a ser.
Se bem virmos numa perspectiva de longo prazo, os últimos factos gloriosos da Inglaterra dão-se com a Segunda Guerra Mundial. Desde então, se pensarmos em que aspectos a Inglaterra mostrou novidades ou paradigmas actuantes, deparamo-nos com um imenso vazio.
A Commonwealth, para dar um exemplo. Uma construção inteligente, pragmática, muito funcional em muitos aspectos. Mas se bem virmos existem dois factos que mostram que não é uma construção tão relevante no mundo quanto pode parecer. Em primeiro lugar, porque ao entrar na então CEE o Reino Unido teve de abdicar da preferência imperial, um dos fundamentos da Commonwealth. A maior parte do seu destino económico ligou-se à Europa e não ao antigo império. Em segundo lugar, sob o ponto de vista estratégico, é um espaço sem consistência.
Entre os britânicos, os mais alinhados de todos com os Estados Unidos, e a Índia, um dos não-alinhados por excelência, pouco há de comum sob o ponto de vista estratégico. Um dos símbolos máximos dessa diferença, que gerou aliás rupturas profundas, ocorreu quando a senhora Thatcher ameaçou sair da Commonwealth caso esta impusesse sanções à África do Sul. Um jornalista da BBC pergunta ao então primeiro-ministro indiano se não seria grave que um país relevante como o Reino Unido saísse da Commonwealth. A resposta do primeiro-ministro indiano é significativa: «quem lhe disse que o Reino Unido era relevante para a Commonwealth?». Para um país que gosta de dar de si uma imagem de pragmatismo, a Commonwealth é cada vez mais uma comunidade meramente ideal, com alguns efeitos na comunicação e na troca de valores, mas pouco mais. Não decidiu grandes passos da História, não agiu como um bloco impulsionando nenhuma política com relevância mundial. Quando muito aderiu mais ou menos em conjunto a passos dados por terceiros.
A relação com os Estados Unidos, para dar outro exemplo. Poucas épocas tiveram tanta ligação entre a Europa e os Estados Unidos quanto a presidência de Ford. Mas este fala com Giscard d’Estaing e com Helmutt Schmidt, não com Heath. Convenhamos: o Reino Unido não tem dimensão bastante para relevar para os Estados Unidos por si só.
Liguemos então esta relação com os Estados Unidos com a que tem com a Europa e vejamos os resultados. O facto histórico mais importante do segundo pós-guerra, aquele em que se vê que a Europa está à frente dos outros continentes sob o ponto de vista de maturação política é a integração europeia. Os ingleses fazem a EFTA em 1959 como contrapeso da CEE.... Para dois anos depois começarem a pedir para entrar na CEE. Ou seja, a sua ideia é tão boa... que querem seguir a dos outros. A grande ideia britânica para a Europa é confessadamente um fracasso para os seus autores.
Mas eis que entram na Europa como cavalos de Tróia dos Estados Unidos e são extremamente eficazes ao fazê-lo. Este o argumento que deixa uns e outros satisfeitos. Mas será realmente assim? Vejamos então. Quando a retórica inglesa é historicamente antieuropeia o que conseguem a longo prazo é unir os europeus. Deve-se à senhora Thatcher, sob a capa de liberalização, o primeiro grande passo numa maior integração, o Acto Único em 1985.
Não fora ela tão antieuropeia, não teria unido tanto os seus parceiros europeus. Outro modelo é o da retórica mais pró-europeia de um Blair. É mais eficaz em dividir a Europa no curto prazo. Mas quando se trata de fazer sacrifícios assim se percebe que o Reino Unido não os quer fazer. E os seus aliados europeus, sempre meramente conjunturais, abandonam-na.
Depois da queda do muro de Berlim a estratégia britânica para a Europa centrou-se em duas apostas principais: agregar junto de si os novos países da Europa central e de leste e fazer entrar a Turquia na Europa. Assim se conseguiria evitar a todo o custo uma maior integração, transformando a Europa num mero espaço económico, sem fortes ligações políticas. Acontecimentos recentes mostram a fraqueza desta estratégia. Os novos aderentes percebem cada vez mais que o Reino Unido se põe em bicos dos pés. Mostra-se amigo, mas é relutante a pagar a factura. Mostra-se preocupado, como forma de o desculpar da omissão. E o seu apoio incondicional à adesão da Turquia mostra igualmente que a longo prazo esta simpatia apenas gera a suspeição dos restantes europeus.
Julgando converter os países da Europa central a um seu modelo liberal, esquecem-se de que estes têm uma identidade própria, mais liberal por razões que se explicam conjunturalmente (não tiveram uma história de economia social de mercado do segundo pôs guerra), mas estruturalmente europeus e com mais ligações em relação à Alemanha, à Áustria, em certos casos à França, que ao Reino Unido. Amizades equívocas geram desconfianças perenes.
A verdade é que se virmos no longo prazo o sonho inglês foi em primeiro lugar o da dominação da França, pelo menos até ao início do século XV. Não é por acaso que até ao século XVIII faziam parte das armas inglesas as flores-de-lis. Ainda no século XVI Henrique VIII sonhava com o Sacro Império. E só a partir do século XVIII a Inglaterra começou a assumir uma posição diversa, a de fiel da balança europeia. Sabendo que não poderia nunca dominar a Europa, passou a exercer o papel de estabilizador, impedindo que houvesse uma potência demasiado dominadora na Europa: a França, a Alemanha, a Rússia, a Áustria.
Este o seu papel clássico na Europa. O problema é que a questão do desequilíbrio na Europa foi largamente resolvida pela integração europeia. Não sendo nenhuma solução perfeita, a verdade é que esta integração gerou um sistema de pesos e contrapesos que impede a hegemonia de um só país na Europa. A CEE fez caducar o papel tradicional inglês, e a Inglaterra não foi capaz de o ver.
Desde o fim da II Guerra Mundial o Reino Unido passou a exercer outro papel: o de lugar-tenente dos Estados Unidos (a expressão é de Churchill, não minha). Só assim se compreende o apoio do Reino Unido à guerra do Iraque e à adesão da Turquia, bem como a especial simpatia em relação aos novos aderentes. Quem critica Blair não percebe que este apenas quis mostrar aos Estados Unidos que o valor específico dos ingleses é a confiança de longo prazo. Os americanos podem ter aliados mais entusiastas, mas só um é de confiança, sempre e nas ocasiões mais difíceis. E teve razão nessa perspectiva. O problema mais uma vez é do saber se a longo prazo os ingleses ganham alguma coisa com isso.
Em relação aos Estados Unidos, estes sabem que a Inglaterra não tem peso bastante. Simpatizam com ela, mas sabem-na insuficiente. Os países do centro e leste europeus mostram cada vez mais a sua desconfiança em relação ao Reino Unido, pelo que a sua aliança será sempre errática. E quanto à sua política turca, a Inglaterra está perante um dilema: se fracassar é descredibilizado o seu poder de influência na Europa, se tiver êxito não apenas ganhará a antipatia de mais europeus, como o seu papel estratégico na Europa será diluído por um aliado turco que se vai virar contra ela. Porque não sendo completamente tontos, os turcos sabem bem os motivos ingleses para os quererem na Europa. Além do mais, agradecendo o apoio, conhecem-lhes as insuficiências.
Um grupo de Oxford, pró-europeu, quer a entrada do Reino Unido da moeda única.
Pergunto-lhes então como é possível que um grande país europeu tenha apenas como projecto entrar num movimento já criado por outros, em vez de dar novas ideias e assumir um papel liderante (juntamente com outros) para novos impulsos europeus. A perplexidade instala-se. Nenhuma resposta me é dada. O Reino Unido não apenas não foi criador da integração europeia, como a longo prazo não a conseguiu impedir. Os entraves que conseguiu criar a longo prazo apenas aumentam a união dos outros. Os grandes recuos não foram nunca de seu feito, mas de outros países europeus (a França recusando a Comunidade Europeia de Defesa, a França e a Holanda com os nãos à Constituição Europeia). Teve de se resumir a saídas mais ou menos honrosas, os chamados opting-out. A sua lógica de manutenção de soberania vira-se contra si. É em nome desta mesma soberania que os outros países lhe dizem: assim como vocês são soberanos, nós também, e se não vos podemos obrigar a participar, vocês não nos podem obrigar a não o fazer.
Parceiros relevantes mas insuficientes dos Estados Unidos, criadores de uma comunidade britânica sem peso mundial, com tendências a volatilizar-se no empíreo, e participantes numa integração europeia de que nunca foram autores e muito menos heróis, os ingleses fazem cada vez mais o papel da velha solteirona no meio do grand tour pela Itália, sentindo a falta da sua pátria europeia, mas irritando-se permanentemente com o clima e os hábitos dos habitantes.
Para quem veja esta análise como distorcida, apenas pergunto que factos determinantes para a História do segundo pós-guerra foram praticados pelo Reino Unido. Não criaram novas organizações com sucesso e que se imponham na cena mundial, e com dificuldade poderemos encontrar um parceiro europeu que seja sempre fiel aos ingleses. Poucos países têm interesses de base mais diversos que a França e a Alemanha. Assistimos a veleidades infantis de um Schroeder que quis seguir os ingleses, mas que foi obrigado pelas realidades estratégicas de longo prazo a juntar-se de novo à França. A modalidade de aliança inglesa na Europa é o flirt, mas sem nenhum casamento consistente.
Bondage em relação aos americanos, flirt em relação aos europeus ou grand tour irritadiço, eis o retrato de um país que se transformou na solteirona da Europa. Uma imagem deplorável para um país de tão grande cultura.
Fata uolentem ducunt, nolentem trahunt, dizia Séneca. O destino conduz o que o aceita e arrasta o que o recusa. Há quem fique satisfeito com esta desgraça. Outros incensam as vitórias de uma vida sem paixão. No que me respeita, considerando a minha profunda ligação e amor à cultura britânica, vejo com uma pena infinita que quem poderia ser um tão grande país europeu se tenha resguardado numa Florida da História. Um sucesso económico relativo, com efeitos de longo prazo de mau augúrio, e uma simples retirada da História. Depende deles suscitar de novo a nossa profunda admiração.
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