A refundação vista do meu bairro
Os mais assanhados, indignam-se com os alemães e os seus acólitos. Os mais optimistas, aguentam, aguentam. Os mais vivaços, aproveitam que nem cucos a nesga de oportunidade que a desgraça alheia lhes vai proporcionando.
No meu bairro, já todos perceberam o que era a crise. Comerciantes, moradores, profissionais liberais e prestadores informais de serviços adaptam-se, dia após dia, à deterioração do poder de compra. Os mais letrados comentam a inércia e a falta de soluções de quem nos dirige, as contradições dos economistas e a sanha punitiva da tríade. Os mais velhos, resignam-se, alguns à custa da solidariedade de familiares e amigos. Os mais assanhados, indignam-se com os alemães e os seus acólitos. Os mais optimistas, aguentam, aguentam. Os mais vivaços, aproveitam que nem cucos a nesga de oportunidade que a desgraça alheia lhes vai proporcionando. Todos têm nomes e experiências de vida, histórias para contar e dicas sobre a "refundação" do Estado.
J. é o dono de um dos restaurantes locais. Queixa-se amargamente, como todos os seus concorrentes, da alteração das taxas do IVA. Além da quebra do número de clientes e da receita per capita, não consegue agora rebater o IVA de 23% cobrado aos clientes nas facturas dos seus consumos, maioritariamente à taxa de 6%. Teve de cortar postos de trabalho, adiar projectos de renovação, suspeito até de degradar as condições de pagamento aos fornecedores e a qualidade das matérias-primas. E pergunta: quanto ganhou o Estado na eliminação da taxa intermédia para a restauração?
V. é um prestador informal de serviços de manutenção domiciliária. Chegou a ter cinco empregados a seu cargo, empresa registada, contas declaradas, mas não resistiu à crise. Fechou a loja, sem direito a subsídio de desemprego, e agora faz biscates para sobreviver. Não passa facturas porque não tem estrutura nem economia de negócio que lhe dê para tanto. Diz que se tivesse de o fazer, preferia parar e viver do rendimento mínimo - sempre dava para ir à praia seis meses por ano e esperar por melhores dias. E pergunta: o que ganha o fisco na perseguição feroz das actividades de proximidade, sobretudo na situação que atravessamos?
P. é um profissional liberal, figura respeitada, há muito estabelecido no bairro. Seis empregados na firma, contas honestas, lucros declarados ano após ano. No seu mester, tem conseguido aguentar, aguentar. E pagar IRC, pagar. Diz que a tesouraria o está matando lentamente, em larga medida por falta de pagamentos minimamente atempados do Estado, nunca inferiores a onze meses, e que nem reclamar pode. O filho, de outra arte, já abalou. E pergunta: que Estado é este?
A. é um comerciante de serviços personalizados e de contas organizadas. Quatro empregados no tempo actual, que já teve sete. As mesmas queixas dos anteriores quanto à quebra da procura, aos atrasos nos recebimentos e ao emaranhado fiscal. Diz que perde um terço do seu tempo no controlo de minudências administrativas e que tem de gastar mais do que seria razoável com o seu guarda-livros (ou técnico de contas, na terminologia moderna). Confessa que, no final do ano, acaba por não pagar IRC. E pergunta: Isto tem alguma lógica?
C. é um franchisee de uma cadeia de compra de metais preciosos. Diz que o negócio é de oportunidade, o que é legítimo. Um funcionário, custos mínimos, sigilo absoluto, procedimentos fiscais bastantes, escoamento assegurado pelo franchiser para os países da Europa do Norte. E pergunta: Criticam-nos porquê?
X. é um cantonense reciclado no negócio das frutas. Não sabe bem qual a proveniência das maçãs e das laranjas, ou não mo confessa, mas as coisas até nem lhe correm mal porque vende barato e o patriotismo da clientela não passa pelos melões. Está aberto até à meia-noite, sete dias por semana. Sente-se um estrangeiro na nossa terra, diz que paga impostos e de nada beneficia. E pergunta: Não quelem mais chineses?
Mais lidas