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Kenneth Rogoff - Antigo economista-chefe do FMI © Project Syndicate, 2008. www.project-syndicate.org
14 de Junho de 2010 às 11:45

As lições que os reguladores podem retirar da maré negra da BP

Numa altura em que o poço danificado pela explosão, a 20 de Abril, da plataforma petrolífera "offshore" [no mar] explorada pela BP, continua a derramar milhares de barris de crude nas profundezas do Golfo do México, o desafio que se coloca no imediato...

Numa altura em que o poço danificado pela explosão, a 20 de Abril, da plataforma petrolífera "offshore" [no mar] explorada pela BP, continua a derramar milhares de barris de crude nas profundezas do Golfo do México, o desafio que se coloca no imediato é tentar encontrar uma forma de mitigar a catástrofe ambiental de proporções cada vez maiores. Só podemos esperar que a fuga seja contida muito em breve e que o pior dos cenários não venha a materializar-se.

No entanto, o desastre coloca um desafio muito mais profundo: de que forma é que as sociedades modernas podem regular tecnologias complexas. A crescente velocidade da inovação parece ultrapassar a capacidade das autoridades reguladoras governamentais de lidarem com os riscos, quanto mais antecipá-los.

Traçar os paralelos entre a maré negra e a recente crise financeira é um exercício demasiado penoso: a promessa de inovação, a complexidade incomensurável e a falta de transparência (os cientistas dizem que só temos conhecimento de uma pequena fracção do que se passa nas profundezas do oceano). Os "lobbies" que dispõem de meios financeiros consideráveis e que são bastante influentes em termos políticos exercem uma pressão enorme até sobre as estruturas de "governance" mais robustas. É motivo de grande embaraço para o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, o facto de ele ter proposto - por pressão da oposição Republicana, é certo - a expansão da prospecção petrolífera no mar pouco antes de se dar a catástrofe da plataforma petrolífera Deepwater Horizon, explorada pela BP.

O desenvolvimento da tecnologia petrolífera, tal como o dos instrumentos financeiros exóticos, foi bastante convincente e atractivo. Os executivos das companhias petrolíferas gabavam-se de conseguirem perfurar até dois quilómetros em profundidade, depois mais um quilómetro na horizontal, para atingirem o seu alvo quase ao milímetro. Subitamente, em vez de um mundo em que a realidade era o "pico do petróleo", já que se perfilava no horizonte o cenário de uma crescente escassez de recursos, a tecnologia ofereceu a promessa de ampliar a oferta por mais uma geração.

Os dirigentes do mundo ocidental deixaram-se influenciar também devido à preocupação em torno da estabilidade da oferta proveniente do Médio Oriente, que representa uma grande proporção das reservas mundiais comprovadas. Alguns países em desenvolvimento, e muito em particular o Brasil, descobriram jazidas de petróleo potencialmente vastas nas suas águas.

Agora, todas as apostas estão fechadas. Nos Estados Unidos, tudo indica que a perfuração "offshore" seguirá o mesmo caminho que a energia nuclear, já que os novos projectos poderão ser colocados na prateleira durante décadas. E, tal como acontece frequentemente, uma crise num país pode tornar-se global, podendo assim muitos outros países reduzir drasticamente os projectos de exploração petrolífera "offshore" ilimitada. Será que o Brasil vai querer realmente pôr em risco a sua fantástica faixa costeira devido à exploração de petróleo, agora que todos foram lembrados do que pode acontecer? E em relação à Nigéria, onde também foram amplificados outros riscos devido à violenta contestação civil?

Segundo os peritos do sector petrolífero, o potencial da prospecção "offshore" nunca teve possibilidade de representar mais do que uma pequena proporção da oferta mundial de crude, mas agora vai haver uma preocupação ainda maior em torno da perfuração em águas profundas em qualquer meio ambiente "sensível". E o problema não se limita ao petróleo. O grande tema que está na ordem do dia, no que diz respeito à energia, gira em torno da revolução tecnológica no domínio da exploração das jazidas de gás xistoso [gás de prospecção não-convencional, extraído das rochas xistosas]. Dada a presença de zonas povoadas perto de reservas importantes deste tipo de gás, os governos terão de conter o seu entusiasmo e encontrar um equilíbrio entre os riscos e as riquezas a extrair.

O problema de base da complexidade, das tecnologias e da regulação estende-se também a muitos outros domínios da vida moderna. A nanotecnologia e a inovação em matéria de desenvolvimento de organismos artificiais oferece uma potencial benção de grandes proporções à humanidade, ao prometer a criação de novos materiais, de medicamentos e de técnicas de tratamento. Ainda assim, por mais empolgantes que sejam todas estas tecnologias, é extremamente difícil encontrar um equilíbrio entre a gestão de "um risco muito pequeno de um desastre muito grande" [o chamado "tail risk", em que há riscos extremos associados a um acontecimento improvável] e o apoio à inovação.

Por comparação, as crises financeiras são quase reconfortantes. Há séculos que as bolhas especulativas e as crises na banca fazem parte da paisagem económica. Por mais destrutivas que sejam, as sociedades têm conseguido sempre sobreviver-lhes.

A verdade é que as pessoas que pensavam "desta vez é diferente", antes da recente Grande Recessão, estavam enganadas. Mas mesmo que não tenhamos feito grandes progressos na forma como lidamos com as crises financeiras, o certo é que as coisas também não se agravaram.

Talvez os chefes de governo do G-20 não tenham feito um trabalho tão brilhante como afirmam no sentido de taparem os buracos do sistema financeiro. A forte crise da dívida soberana na Europa Continental, bem como as que estão a fermentar nos Estados Unidos, no Japão e noutras regiões do mundo, são prova suficiente disso. No entanto, quando se compara esta crise com os esforços da BP para tapar o buraco que jorra petróleo no fundo do oceano, os líderes do G-20 até parecem omnipotentes.

A maré negra que a BP está a tentar conter é a advertência de que as sociedades ocidentais precisavam para repensarem a sua dependência face a uma inovação tecnológica cada vez mais rápida destinada a sustentar um consumo petrolífero cada vez maior. Até mesmo a China, com a sua estratégia muito ao estilo "prioridade ao desenvolvimento, que depois logo se pensa no ambiente", deveria analisar atentamente aquilo que se está a passar no Golfo do México.

A teoria económica ensina-nos que quando existe um elevado grau de incerteza em torno de riscos catastróficos, é perigoso confiar demasiado no mecanismo de preços para suscitar a motivação adequada para lhes fazer face. Lamentavelmente, os economistas não sabem como adaptar a regulação, ao longo do tempo, a sistemas complexos em que os riscos evoluem constantemente, e não sabem como conceber instituições regulatórias sólidas. Enquanto não se perceber melhor estes problemas, poderemos estar condenados a viver num mundo em que a regulação tem objectivos constantemente desproporcionados, seja por defeito ou por excesso.

O sector financeiro está já a advertir-nos para o facto de a nova regulação poder ser desproporcionada, ou seja, para a possibilidade de poder ter um efeito indesejado: o de dificultar profundamente o crescimento. E em breve poderemos estar perante as mesmas preocupações em matéria de política energética, e não só em relação ao petróleo.

Dadas as enormes dimensões daquilo que está em jogo a nível financeiro, será difícil alcançar um consenso a nível global, tal como o fiasco da Cimeira de Copenhaga sobre as Alterações Climáticas tão bem o demonstrou. Os países avançados, que são os que estão em melhor posição para limitarem o crescimento no longo prazo, devem dar o exemplo. O equilíbrio entre tecnologia, complexidade e regulação é, sem qualquer dúvida, um dos maiores desafios que o mundo terá de enfrentar no século XXI. Não podemos dar-nos ao luxo de continuarmos a equivocar-nos.

Kenneth Rogoff é professor de Economia e Políticas Públicas na Universidade de Harvard e foi economista-chefe do Fundo Monetário Internacional.

© Project Syndicate, 2010.

www.project-syndicate.org

Tradução: Carla Pedro

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