O protagonismo da maldade
Pode ser da idade, pode ser fenómeno individual, sem nenhum interesse colectivo, mas também pode ser coisa que se passe com mais gente, fruto da actualidade que temos e, por isso, confesso: tenho cada vez menos estômago para o noticiário.
Tenho mesmo feito movimentos muito concretos para me manter à margem da actualidade, o que, grave por si só, é ainda mais grave quando se é jornalista.
A vida é feita no tempo e o compartilhamento de um mesmo tempo é um dos alimentos fundamentais da afinidade que um ser humano possa ter com a generalidade dos seus contemporâneos: vivemos no mesmo tempo, e isso devia ser suficiente para nos fazer – se não irmãos – cúmplices. Não há nada mais precioso a compartilhar do que o tempo que se tem aqui, nesta efemeridade que é a vida. É daí que me vem a necessidade de zelar pelo que é colectivo. Quero que o nosso tempo seja bom. Foi daí que me veio a vontade de ser jornalista: Queria fazer do nosso tempo (a actualidade) o alimento do meu ofício e, ao mesmo tempo, o seu objecto, interferir nele. Comecei por desistir de interferir na actualidade – pelo menos, nas chamadas «grandes causas» – e acabei por lhe fugir, à actualidade inteira, com náusea.
A actualidade terá, com certeza, a sua culpa.
A maldade tem tido nela um indiscutível protagonismo, embora isso não seja nada de inédito (e não há qualquer alívio em saber que o protagonismo da maldade não é nenhuma novidade).
O que vejo não é a maldade a bater-se contra a bondade, e sim contra o outro lado da mesma maldade. E se a bondade é que sofre, tanto melhor para as duas maldades em conflito (estou, evidentemente, a pensar em Israel e no Hezbollah, mas também podia estar a pensar em polícias e bandidos de São Paulo).
A maldade protagoniza, a bondade não lhe faz frente. Afasto-me, mar adentro, à vela, para longe de tudo o que cheire ou soe a actualidade.
Mas levo-a comigo. Não em minúcias de número de mortos; não em detalhes de conquistas ou perdas estratégicas; não em gozos de retóricas de profundas-consternações-pelos-deploráveis-acontecimentos; não em leituras completas (ou sequer incompletas) dos jornais do dia, mas num peso meio indefinido, lastro de fel, rumo ao longe daqui.
PS: Não nos deixemos impressionar demasiadamente pela maldade. Ela é – sempre e por definição – mais vistosa do que a bondade.
PPS: Um carro estacionado em cima do passeio é um monstro de mais de duas toneladas, gigantesco, irremovível, poderoso, inexpugnável. Um carro bem estacionado é um carro, nada além de um bom, útil e lindo, embora discreto, carro.
PPPS: Carros, rua!
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