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Nicolau do Vale Pais
24 de Setembro de 2010 às 12:05

Os Adivinhos

Na rúbrica "O capitalista curioso" ("The curious capitalist", no original) que publica na revista "Time" periodicamente

Na rúbrica "O capitalista curioso" ("The curious capitalist", no original) que publica na revista "Time" periodicamente, Zachary Karabell (economista, historiador e consultor financeiro com formação nas Universidades de Columbia, Oxford e Harvard) desmonta um dos principais argumentos que (ainda) levam alguns incautos - muitos deles, governantes - a considerar que os mercados financeiros e as suas oscilações têm algum significado real do ponto de vista da evolução da actividade económica. A demonstração é feita através de uma evidência estatística, uma análise cristalina: a evolução dos resultados das grandes cotadas dos principais índices americanos não tem qualquer paralelo com a evolução do PIB doméstico - essa evolução é até, na maioria dos casos, inversamente proporcional; grandes empresas europeias são também citadas como estando não necessariamente em linha com as suas economias: é o caso da alemã Siemens ou da holandesa Philips. Com o escancarar dos mercados internacionais e a consolidação do processo de globalização, o "divórcio" entre as empresas e a suas "pátrias" está consumado - como lucidamente frisa o autor, "o que hoje é bom para a General Motors, já não o é necessariamente para a América". Sinais dos tempos. Ou do que mudou na aferição racional que podemos fazer dos tempos.

Em Portugal, o "Estado Social" transformou-se no "furo" político do momento - supostamente fracturante, ele garante visibilidade e ajuda a marcar a diferença que os programas partidários, demasiado comprometidos e pouco imaginativos, não conseguem assinalar; as diversas forças partidárias têm-se posicionado com a frivolidade habitual, mas desta feita de forma suicidária - trata-se a matéria como se ela fosse passível de um referendo, consagrando a retórica "anti-estado" por oposição à declamação "pró-estado", e incansavelmente vice-versa. É a toca onde se enfiou a classe política, um último sopro de vaidade: do modelo económico, da sua sustentabilidade, de estratégias de investimento, de propostas qualificantes e diferenciadoras - além de vender "o ouro a preço de cobre", claro está, como há sempre quem sugira nestas alturas - nada. Os "sintomas" são assim associados a outra "doença" - são os adivinhos a dar corda à superstição.

Particularmente fluente na forma deliberada de chegar à notoriedade abusando da perigosa descontextualização deste tema, é a entrevista da Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, ao Jornal "i" e as preconizações nela inscritas, sobre "o colapso do estado social". Cada um assimila e discorre sobre as evidências que entende relevantes. Nesse espírito, aliás, aqui fica uma, à atenção da sra. ministra e do estado-maior do partido do Governo: o Dr. Rui Pedro Soares ganha num ano de ordenado o que chega para pagar a produção inteira de um Teatro Nacional da vossa tutela.

Normalmente, o colapso dá-se pelas fundações.

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