pixel

Negócios: Cotações, Mercados, Economia, Empresas

Notícias em Destaque
Eva Gaspar - Jornalista egaspar@negocios.pt
17 de Outubro de 2012 às 23:30

Parabéns troika

Nunca houve tanta fadiga de austeridade, tanta fadiga de solidariedade, tanto pânico – ou seguramente sim, só que seguramente menos mediatizado – nem tantas culpas atiradas à União Europeia e ao euro por uma crise, que, não lhes sendo alheia, os ultrapassa enormemente.

Nunca houve tanta fadiga de austeridade, tanta fadiga de solidariedade, tanto pânico – ou seguramente sim, só que seguramente menos mediatizado – nem tantas culpas atiradas à União Europeia e ao euro por uma crise, que, não lhes sendo alheia, os ultrapassa enormemente.

O Prémio Nobel da Paz cala parte dessa culpa injusta. E devia calar essa multidão de eurocépticos oportunistas que criou um bode expiatório para reduzir as responsabilidades de uma crise que tem demasiados culpados e consequências ainda tão imprevisíveis. Os eurocépticos de sempre, esses são sempre e cada vez mais bem-vindos – João Ferreira do Amaral para citar apenas um exemplo da casa.

Revanchismos à parte, a União Europeia merece por inteiro este prémio. Pelo que fez (será difícil demostrar relação causa-efeito, mas é fácil constatar que o maior – e ainda, assim, tão curto – período de paz no Continente coexistiu com ela). Pelo que faz. E sobretudo pelo sentido que faz.

A crise revoltou populações. Fez tremer democracias. Quebrou governos. Exacerbou nacionalismos e separatismo. Avivou fascismos (o que se está a passar na Hungria é caso muito sério). E enxovalhou economistas, que começaram por recomendar uma receita, para depois sugerir o seu contrário, para agora admitirem que os efeitos secundários (das duas?) arriscam-se a anular qualquer hipótese de cura. Tudo isso dá ainda mais sentido à União Europeia que, com todas as suas deficiências e insuficiências, é hoje possivelmente o melhor espaço do mundo, de todos os tempos, de confronto de contradições e de tentativa de sínteses e de respostas comuns.

A União Europeia faz todo o sentido. E faz. Em três anos (velocidade da luz para os padrões europeus) criou-se uma espécie de Fundo Monetário Europeu para resgatar aflitos, o BCE deu a volta ao mandato para também socorrer Estados que socorreram bancos e asfixiam contribuintes, e estaremos a caminho de um Orçamento central para a Zona Euro para ajudar a pagar subsídios de desemprego (que furam Orçamentos e forçam uma espiral insana de austeridade) e desejavelmente algo mais que mereça alguma comparação a um "plano Marshall". A caminho estarão também mecanismos mais robustos de mutualização de dívida, que exigirão uma união (mais) política e um novo "contrato simétrico" entre Estados, como lhe chama Jean Pisany-Ferry, plasmado eventualmente num novo Tratado. Porque compreensivelmente ninguém dará garantias solidárias sobre dívida que não controla, e ceder o poder de veto sobre orçamentos nacionais só será aceitável se acompanhado de garantias de que, em caso de necessidade, os parceiros virão em socorro.

Com sorte estaremos hoje mais perto do que ontem do fim, mas ainda muito longe de poder antecipar um final feliz para este capítulo sombrio da história do capitalismo e das democracias ocidentais. Mas parabéns União Europeia. E parabéns troika – a sua mais recente, desajeitada e útil invenção.

*Redactora Principal

Visto por dentro é um espaço de opinião de jornalistas do Negócios

Ver comentários
Ver mais
Publicidade

C-Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Medialivre.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.

Publicidade

C-Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Medialivre.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.

Publicidade

C-Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Medialivre.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.